As cinco farmácias da cidade de Ovar, sede do concelho que esteve em estado de calamidade pública devido à Covid-19, estabeleceram um acordo mediante o qual deixaram de funcionar durante a madrugada, revelaram esta segunda-feira responsáveis desses estabelecimentos.

A medida, que foi implementada no início do mês, já era reivindicada há alguns anos pelas equipas afetas a esses espaços do distrito de Aveiro, pelo facto de a atividade noturna não se revelar rentável desde que o Hospital Francisco Zagalo, no mesmo município, deixou de incluir serviço de urgência.

Maria José Coelho é diretora técnica da Farmácia Central e, embora reconhecendo à Lusa o caráter experimental da medida, adianta que a mudança vigorará até final de novembro, sendo que, até lá, se mantém a habitual escala de serviço indicando que estabelecimento funciona até às 24:00 e, a partir desse horário, a alternativa é contactar a linha telefónica com o número 1.400 - disponibilizada pela Associação Nacional de Farmácias para indicar a disponibilidade geográfica dos medicamentos em ‘stock’.

A linha 1.400 diz qual é a farmácia mais próxima disponível e o mais provável é que os clientes sejam encaminhados para o concelho de Santa Maria da Feira, porque também é lá que funciona o hospital a que a população de Ovar deve recorrer em caso de emergência médica", disse.

Para a decisão coletiva das cinco farmácias também contribuiu a perda de valências do Hospital Francisco Zagalo. "No verão do ano passado a Consulta Aberta ainda funcionava até à meia-noite, por Ovar ter muita gente que cá vinha passar férias, mas este ano nem isso", referiu Maria José Coelho, notando que esse serviço foi, entretanto, transferido para o Centro de Saúde e acabou por ser encerrado em março.

Feitas as contas, a diretora da Farmácia Central considera que abrir a farmácia durante a madrugada é uma prática de má gestão que tem de ser eliminada: "As pessoas não gostam que estejamos fechados, mas, se pensarem bem, vêm que temos razão. Não se justifica estar aqui um técnico ou farmacêutico toda a noite para garantir um serviço que não tem rentabilidade - e até dá é prejuízo, porque fica caro, sem motivar qualquer contrapartida".

Essa opinião é partilhada por Cátia Veiga, que, enquanto responsável pela Farmácia Lamy, admite que "as pessoas ficam muito preocupadas ao saberem do novo horário, por associarem a decisão a questões relacionadas com a pandemia", mas acabam por "perceber que a medida não tem nada a ver com a covid-19 e já era desejada há muito tempo" para melhorar a sustentabilidade financeira dos estabelecimentos em causa.

O nosso hospital não tem Serviço de Urgência, a Consulta Aberta passou para o Centro de Saúde de Ovar e funciona de uma forma que está longe de ser a ideal, e simplesmente não fazia sentido continuarmos a abrir durante a madrugada com tão baixa procura", justificou.

Cátia Veiga apela, por isso, a uma maior divulgação da linha telefónica 1.400, "para se evitarem viagens inúteis a pessoas que consultam na Internet escalas de serviço que estão desatualizadas" ou que se deslocam presencialmente às farmácias e, no seu estado aflitivo e sonolento durante a madrugada, "nem reparam na informação afixada na porta, com dados corretos sobre as alternativas disponíveis".

A mesma responsável referiu, aliás, que o recurso ao número 1.400 foi igualmente implementado no concelho vizinho de Espinho, cujo hospital também perdeu há anos o respetivo Serviço de Urgência, pelo que "a opção mais segura será sempre a deslocação a Santa Maria da Feira", onde a atividade do Hospital São Sebastião motiva que haja "sempre uma farmácia aberta 24 horas por dia".

/ RL