Começa esta quarta-feira o julgamento do homicídio de Valentina, a criança de nove anos que foi torturada e morta pelo pai e pela madrasta. O Ministério Público acusa o pai e a madrasta da criança de homicídio qualificado e profanação de cadáver.

A defesa do pai deverá tentar provar que ele não está na posse plena das capacidades psíquicas e já tentou o suicídio duas vezes na prisão preventiva.

Tanto o pai como a madrasta já confessaram o homicídio e a ocultação do cadáver, mas agora, no arranque do julgamento, querem que lhes sejam feitas perícias à personalidade.

Os advogados de ambos os arguidos fizeram o requerimento ao tribunal de Leiria. O coletivo de juízes deixou a decisão para o decorrer do julgamento, pois quer perceber como se comportam e que tipo de discurso vão apresentar nas sessões. 

Na primeira, esta quarta-feira, segundo sabe a TVI, vão ambos prestar depoimento.

É em Sandro Bernardo, o pai da menina, que toda a história se centra. Foi quem, no dia 7 de maio, deu um alerta à GNR de Peniche de que a filha estava desaparecida da sua casa, em Atouguia da Baleia.

Seguiram-se dias de buscas e sobressalto na localidade. Tanto o pai de Valentina como a própria madrasta, Márcia Monteiro, estavam presentes junto à casa.

A notícia mais temida surgiu num domingo ao final da manhã: Valentina estava morta e o corpo depositado num pinhal.

Sandro confessou à PJ. Márcia disse que tinha sido vítima de violência doméstica e ameaçada para não contar o que tinha visto e para o ajudar a esconder o corpo.

Acusação revelou violência extrema e tortura

 

Em novembro, a acusação desvendou a gravidade e extrema violência das agressões.

Para que confessasse alegadas práticas sexuais com terceiros, incluindo um padrinho, o pai da menor agrediu-a em dias e situações diferentes, várias vezes.

A última vez foi na manhã de 6 de maio: Valentina foi levada para a casa de banho, colocada na banheira e queimada com água a ferver na zona genital e pernas para confessar os atos sexuais.

Como não dizia o que o pai queria ouvir, foi sacudida, espancada nos membros, nas costas e na cabeça.  A madrasta estava presente nestes momentos.

"Os dois arguidos perceberam que, em razão da pancada que o arguido desferiu na cabeça da sua filha (...) das convulsões que manifestava e do seu estado de prostração, Valentina podia morrer.”

Perceberam e nada fizeram.

"Deixaram a menor entregue a si própria no sofá, durante várias horas, percebendo que estava moribunda, mas continuando a fazer a sua vida quotidiana, incluindo ausentando-se de casa para irem às compras, ali a deixando a agonizar".

Quando Sandro e Márcia perceberam que Valentina não tinha sobrevivido, resolveram esconder o corpo. Márcia conduziu o carro e Sandro levou o cadáver da filham, deixando-o coberto com arbustos.

O Ministério Público diz que não há indícios de que Valentina tivesse sofrido abusos sexuais, mas que foi alvo de tortura.

Pai e madrasta respondem em co-autoria por homicídio qualificado, profanação de cadáver, abuso e simulação de sinais de perigo. O pai, por ter sido o autor das agressões, está ainda acusado de violência doméstica.

A defesa de Sandro, sabe a TVI, contesta que tenha praticado o crime intencionalmente e por um motivo fútil.

Inês Pereira