Um homem, de 60 anos, morreu nas urgências do Hospital de Beja depois de ter estado cerca de quatro horas à espera para ser atendido, confirmou à TVI24 fonte hospitalar.

A mesma fonte garantiu que o doente recebeu pulseira amarela na triagem e que a unidade hospitalar abriu um inquérito, no dia 5 de fevereiro, para perceber e esclarecer o que aconteceu. 

Em declarações à TVI, o diretor clínico do hospital, José Aníbal Soares, lamentou esta morte como qualquer outra e disse que o inquérito em curso iria apurar o que "verdadeiramente aconteceu".

Abrimos um processo de inquérito para saber e apurar tudo aquilo que envolve esta morte e, portanto, vamos esperar o que é que vai resultar".

José Aníbal Soares referiu ainda que se houver responsabilidades, que vão atuar sobre elas.  

Quanto ao tempo de espera disse tratar-se de uma situação “anómala” porque houve “um fluxo elevado de doentes” e, para além disso, era dia de greve.

São situações que não podemos controlar. Nem o fluxo de doentes, nem a gravidade do doente (…) vamos esperar que o inquérito decorra".

 

A vítima morreu no dia 31 de janeiro, mas o caso só agora foi divulgado.

Em declarações esta terça-feira à agência Lusa, Ana Teixeira, cunhada, contou que o homem esteve "sentado numa cadeira de rodas à porta das urgências" do hospital depois de ter estado mais de três horas, "entre as 17:30 e as 21:00", na sala de espera com uma "pulseira amarela" (caso considerado urgente) à espera de ser atendido por um médico.

Ana Teixeira contou que o cunhado tinha "um processo clínico um bocado complicado", porque sofria de Hepatite C e Diabetes, havia feito análises "dois dias antes" de ter ido às urgências e iria iniciar tratamentos para a Hepatite C no dia 3 de fevereiro.

Depois de ter feito as análises, o homem, que pesava "40 e poucos quilos e já estava muito debilitado", "começou a piorar e apareceram-lhe umas manchas nas pernas" referindo, que, por isso, o seu marido "achou melhor levá-lo ao hospital".

Ana Teixeira disse que o estado de saúde do cunhado "foi piorando" durante a espera e que ela e o marido alertaram "várias vezes" o enfermeiro que tinha feito a triagem e também alertou outra enfermeira para a situação do homem, que "estava a desfalecer na cadeira de rodas", mas a resposta "foi sempre a mesma" e a de que "tinha de esperar" e que haviam "quatro ou cinco pessoas à frente" dele para serem atendidas.

Não sei qual era o estado [de saúde] das outras pessoas, sei que o dele era grave, sei que foi piorando à medida que ficou à espera, sei que pedimos para o meterem lá dentro [da urgência para ser atendido por um médico] e disseram que ele tinha de esperar", frisou, referindo que o cunhado "acabou por desfalecer" e até se gerou "uma confusão" com outras pessoas que estavam na sala de espera "a dizerem que aquilo era desumano".

Entretanto, por volta das 21:00, "um enfermeiro, no meio da confusão, acabou por levantar-lhe a cara [à vítima], mas o meu marido diz que quando lhe levantaram a cara ele já estava morto. Levaram-na lá para dentro [da urgência] e passados dois ou três minutos vieram dizer que ele tinha falecido", contou Ana Teixeira.

Segundo Ana Teixeira, ela e o marido fizeram uma reclamação por escrito no livro de reclamações do hospital de Beja.

Já recebemos uma carta do hospital a dizer que estavam a avaliar o caso e que nos haviam de contactar para dizer algo mais, mas estamos a aguardar e ainda ninguém nos disse mais nada", lamentou, referindo que a família "ainda nem sequer sabe" a causa da morte.

 

Não sei do que é que ele morreu. O que eu sei é que morreu numa cadeira de rodas sentado à porta das urgências com uma pulseira amarela [quase] quatro horas depois de estar ali à espera", disse Ana Teixeira, frisando: "Isto é que é revoltante".


Este é o segundo caso conhecido de uma morte nas urgências no espaço de um mês.

Na semana passada, um homem de 65 anos morreu nas urgências do Hospital de Lamego depois de ter esperado seis horas para ser atendido. Este hospital sublinhou, em comunicado, que, nesse dia “a afluência ao serviço de urgência da unidade de Lamego foi excecionalmente alta, quando comparada com os dias anteriores”. Mas a família está revoltada e acusou a unidade de saúde de negligência médica.

Cláudia Évora Amílcar Matos / Notícia atualizada às 13:41