A maioria dos cuidadores informais inquiridos num estudo do movimento que lhes quer “dar voz” revela desconhecer o estatuto em vigor há um ano e queixa-se da falta de apoios para prestar cuidados, mas também psicológicos e emocionais.

O estudo do Movimento Cuidar dos Cuidadores Informais, que representa 24 associações, ouviu 1.133 pessoas nesta condição e mostra que quase 60% dos inquiridos não conhecem o Estatuto do Cuidador Informal (ECI), que completou a 01 de abril um ano de vigência, sendo que, em 30 concelhos abrangidos pelo projeto-piloto para a sua implementação, os cuidadores têm direito, para além do reconhecimento do estatuto, a um apoio financeiro pelos cuidados prestados.

Dos cerca de 40% de cuidadores que declararam conhecer o estatuto, 77,2% consideram-no incompleto, vendo-o como “pouco abrangente”, com acesso “muito burocrático e limitado” e insuficiente nos apoios face às necessidades.

A falta de apoio psicológico e emocional é a principal falha ou dificuldade apontada pelos cuidadores (64,6%), seguindo-se a falta de apoios sociais, sejam do Estado, de instituições ou decorrentes do próprio ECI (59,1%). Cerca de metade (51,8%) referem dificuldades financeiras e 37,4% apontam falta de apoio de recursos humanos na prestação de cuidados.

Cerca de 81% dizem não ter acesso a serviços e apoios suficientes e quase metade dos inquiridos indicou que o auxílio na prestação de cuidados seria a ajuda que maior diferença faria na sua situação (46,9%). Um total de 74,4% dos cuidadores manifestaram ainda interesse em ter apoio de voluntários especializados na prestação de cuidados.

Mais de 63% dizem ter informação necessária sobre a doença da pessoa cuidada, mas 41,2% admitem necessidade de mais formação e capacitação específica para as tarefas que desempenham, sobretudo no que diz respeito ao tratamento e manuseamento dos doentes.

Numa escala de 0 a 10, de nenhum desgaste a desgaste extremo, o desgaste físico aparece retratado com o valor de 7,96, enquanto o desgaste emocional regista 8,44 nessa mesma escala entre os inquiridos.

Mais de metade dos cuidadores (56,4%) diz não ter tempo pessoal nem espaço para rotinas e outros papeis sociais e mais de 90% afirmam a vontade de voltar a ter tempo para os hábitos e rotinas anteriores à condição de cuidador.

Apenas cerca de 12% dizem receber qualquer tipo de apoio emocional ou psicológico para o desempenho das funções.

A ajuda de familiar e amigos aparece mencionada acima de apoios do Estado, como da Segurança Social, de instituições particulares, do sistema de saúde ou até financeira.

Os cuidadores apontam ainda impactos da sua condição ao nível da sua organização familiar e situação profissional.

Em família relata-se uma diminuição de tempo para estar em conjunto, de reorganização de rotinas ou ausência de férias, fins de semana, vida social e convívio familiar ou com amigos. Em menor número há também referência a perda de rendimentos e até mesmo divórcios.

Quase metade dos inquiridos viu-se forçada a deixar o emprego para assumir a tarefa de cuidador, uma situação que já era prevalente antes da pandemia de covid-19, mas que esta veio agravar.

Mais de 87% dos inquiridos dizem não ter descanso nem férias por não terem uma resposta social de proximidade que o permita, assegurando os cuidados do doente.

Segundo o estudo, os cuidadores são maioritariamente mulheres (86,6%), entre os 45 e os 64 anos, com o ensino secundário ou o ensino superior, em situação laboral ativa.

Os cuidadores informais cuidam maioritariamente de familiares diretos – pais, filhos, avós, cônjuges – mas quase 10% assume a tarefa perante pessoas em relação às quais não existe grau de parentesco.

As demências, os AVC e a diabetes são as principais doenças a motivar a necessidade de cuidados.

Segundo um estudo da ANCI divulgado no final do ano passado, a pandemia terá elevado para cerca de 1,4 milhões o total de cuidadores informais no país.

/ LF