A adesão à greve dos enfermeiros situa-se, esta quinta-feira de manhã, entre os 75% e os 80%, segundo o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, que admite aumentar os números depois de apurados os dados de algumas grandes instituições.

Em declarações aos jornalistas no hospital de São José, em Lisboa, o presidente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), José Carlos Martins, afirmou que estes dados “demonstram bem a indignação dos enfermeiros para com o desrespeito com que o Governo está a tratar esta classe profissional”.

Sobre os serviços mais afetados devido à paralisação nacional de dois dias, que hoje se iniciou, o sindicalista apontou as consultas externas, os blocos de cirurgia nos hospitais e os centros de saúde, onde há cuidados que não estão a ser prestados.

José Carlos Martins apelou aos enfermeiros para que, no turno da tarde de hoje e na sexta-feira, continuem a manifestar a sua indignação face à postura do Governo.

S. João sem cirurgias programadas

A greve dos enfermeiros afetou dez das 11 salas de cirurgias programadas do Hospital São João, no Porto.

“Neste primeiro dia, só uma das 11 salas de cirurgias programadas do São João está a funcionar”, disse aos jornalistas a dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses Fátima Monteiro, que considerou ser este um impacto superior ao registado nas consultas externas do mesmo hospital, outros dos serviços mais afetados.

A sindicalista assinalou que 85% dos 2.500 enfermeiros do São João, o maior hospital central da região Norte, pararam neste primeiro dia de greve e manifestou-se convicta de que a adesão vai subir na quinta-feira.

Contactada pela agência Lusa, fonte do Hospital de São João disse que não se pronuncia sobre a greve e os seus efeitos na unidade.

Blocos operatórios parados em Coimbra e na Figueira da Foz

Os blocos operatórios do polo central do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e do Hospital Distrital da Figueira da Foz não funcionaram hoje de manhã devido à greve dos enfermeiros.

Segundo Paulo Anacleto, presidente da secção regional do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, a adesão daqueles profissionais nas unidades hospitalares do distrito ronda os 75% no turno da manhã, com "tendência a aumentar" no turno da tarde.

"A totalidade das cirurgias programadas para a manhã de hoje no bloco central dos Hospitais da Universidade de Coimbra foram todas desmarcadas, ficando só as de urgência que têm de ser feitas", referiu o dirigente sindical.

As consultas que carecem da intervenção do enfermeiro "também não se realizaram, embora muitas consultas externas se façam porque não carecem de enfermeiro", acrescentou.

"Os números demonstram o profundo descontentamento que os enfermeiros têm relativamente a um conjunto de matérias que há muitos anos não se vê a sua resolução a breve trecho", sublinha Paulo Anacleto.

Serviços cirúrgicos parados em Bragança

A greve dos enfermeiros paralisou os serviços cirúrgicos no hospital de Bragança, o principal do Nordeste Transmontano, onde se verificou a maior adesão, com 72% dos profissionais em protesto.

A coordenadora regional do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), Elisabete Barreira, indicou à Lusa que os números da adesão nos três hospitais desta região integrados na Unidade Local de Saúde (ULS) Nordeste são de 72% em Bragança, 68% em Macedo de Cavaleiros e 46% em Mirandela.

No hospital de Bragança, “os serviços cirúrgicos estão completamente parados, o bloco operatório também e na medicina intensiva e urgência a adesão é de 100%”.

De acordo com a dirigente sindical, “vão-se notar também alguns transtornos na prestação de cuidados nos serviços de internamento porque ficam enfermeiros em número mínimo, e as cirurgias programadas foram canceladas”.

Já as consultas externas estão “a funcionar normalmente”.

A adesão corresponde às expectativas do sindicato que garante que “a insatisfação é geral e os motivos são os mesmos que se arrastam ao longo dos anos”.

Adesão na Madeira entre 70 e 75%

A adesão à greve dos enfermeiros na Madeira situa-se, hoje de manhã, entre os 70 e os 75%.

"Neste momento, eu vou dar dois valores entre os 70 e os 75% no total global da região a nível do serviço regional de saúde porque, como ainda temos alguns serviços em apuramento, poderá haver aqui alguma variação, mas tudo aponta para este valor de adesão de enfermeiros a esta jornada de luta", disse à Lusa o presidente do Sindicato dos Enfermeiros da Madeira (SEM), Juan Carvalho.

Juan Carvalho crê que os dados regionais "indicam que os enfermeiros não estão contentes com a situação e querem que o Governo altere o seu posicionamento".

O presidente do SEM considera que, durante a tarde de hoje e no segundo dia de greve, os números poderão vir a aumentar.

"A experiência demonstra que [a adesão] no segundo dia, nestes casos, costuma ser ligeiramente superior ao primeiro", afirmou, considerando que os valores poderão atingir os 80%.

O executivo regional ainda não divulgou dados referentes a esta greve, mas, já na quarta-feira, tinha emitido um comunicado avisando os utentes do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM) de que a greve poderia "condicionar a prestação de alguns serviços que envolvam o exercício de atividades por parte dos profissionais de enfermagem".

"O SESARAM e os seus profissionais farão o que estiver ao seu alcance, sem prejuízo do direito à greve, para minimizar os efeitos desta junto dos utentes", indicava no comunicado.

Adesão de 65% nos Açores

A greve dos enfermeiros está a registar nos Açores uma adesão média de 65%, afetando consultas externas e cirurgias programadas, disse à agência Lusa fonte sindical.

O coordenador do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses nos Açores, Francisco Branco, acrescentou que nos três hospitais da região (São Miguel, Terceira e Faial) a adesão é de 80% e nos centros de saúde de 50%.

“A média de adesão situa-se nos 65%. Os serviços que estavam programados ou que são programáveis são os mais afetados e tudo o que é situação de internamento e de urgência está a ser assegurada”, disse Francisco Branco, referindo que “as consultas externas são as mais afetadas” pela paralisação, enquanto “as cirurgias que estavam programadas não foram realizadas”, porque “os blocos operatórios estão a 100% de adesão nos três hospitais”.

O coordenador do sindicato disse que "era expectável uma adesão um pouco mais alta nos Açores a rondar os 70%".

"Temos que perceber que tem sido um ano com muitas greves deste setor e isto também causa efetivamente desgaste e prejuízos económicos. Mas, não temos dúvidas que os colegas concordam com os motivos da paralisação”, sustentou.

Francisco Branco reforçou ainda que as reivindicações em causa para a realização da greve “são exclusivamente da responsabilidade do Governo da República”.

“Trata-se de uma revisão da atual carreira de enfermagem que o Governo regional não tem competência nem pode negociar. Esta greve é dirigida inteiramente ao Governo da República, em concreto ao Ministro da Saúde”, frisou.

A secretaria regional da Saúde adiantou à Lusa que a adesão à paralisação no Serviço Regional de Saúde é de 35% nos três hospitais açorianos e de 27% nos centros de saúde das ilhas.

Adesão nos hospitais do Algarve entre 68 e 87,5%

A adesão dos enfermeiros à greve alcançou, no Algarve, 68% no Hospital de Faro, 75% no de Portimão e 87,5% no de Lagos.

As três unidades hospitalares da região pertencem ao Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) e apresentam valores mais baixos do que os registados, por exemplo, no Serviço de Urgência Básica (SUB) de Loulé, onde a adesão “foi de 100%”, ou a Unidade de Saúde Familiar Levante, em Vila Real de Santo António, e o Centro de Medicina de Reabilitação do Sul, em São Brás de Alportel, que alcançaram “os 90%”, quantificou Nuno Oliveira, dirigente do SEP no Algarve.

“Em termos de consultas ainda estamos à espera de recolher mais dados, mas relativamente às cirurgias, estavam programadas 13 e foram adiadas 11, só se realizando duas, o que demonstra a grande adesão à greve no bloco operatório”, afirmou a fonte do SEP Algarve.

Relativamente às “cirurgias em ambulatório, foram todas adiadas”, referiu ainda Nuno Oliveira, sem precisar o número de intervenções que estavam previstas para hoje.

“Estamos muito satisfeitos com a adesão à greve dos enfermeiros do Algarve, que lutam pela contratação de mais profissionais, porque faltam 500 na região para completar os quadros e os que estão ao serviço estão cansados devido à carga de trabalho que têm”, disse ainda o dirigente sindical, referindo-se a uma das principais reivindicações dos profissionais na região algarvia.

Nuno Oliveira considerou que a recente integração de 45 enfermeiros no CHUA “não resolveu o problema da falta de profissionais”, porque “foram todos absorvidos pelos hospitais, pelos SUB de Albufeira, Loulé e Vila Real de Santo António”, mas “continuam a faltar 500 profissionais” no Algarve.

Outra das reivindicações passa também pela “contabilização do tempo de serviço para progressão na carreira”, acrescentou Nuno Oliveira.

Hospitais do Alentejo com cirurgias canceladas

Cirurgias canceladas e valências com serviços mínimos de enfermagem foram os principais efeitos da greve dos enfermeiros nos hospitais públicos do Alentejo, disseram à agência Lusa fontes sindicais.

No Alentejo, a maior adesão à greve é de 79% no Hospital do Litoral Alentejano, em Santiago do Cacém, e a menor é de 60% no hospital de Beja, indicaram os sindicalistas Edgar Santos e Luís Matos, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP).

A adesão à greve é de 75% no hospital de Portalegre, de 74% no de Évora e de 71,7% no de Elvas, segundo os mesmos dados relativos ao turno que começou hoje às 08:00 e termina às 16:00 e é o primeiro abrangido pela greve de dois dias.

Nos hospitais de Beja, Évora, Portalegre e Elvas, há valências a funcionar com serviços mínimos de enfermagem, como as urgências, os internamentos e os blocos operatórios, onde as cirurgias programadas foram canceladas e só estão a ser realizadas cirurgias de urgência, disse Edgar Santos, coordenador da Direção Regional do Alentejo e dirigente nacional do SEP.

Segundo Luís Matos, também dirigente do SEP, no Hospital do Litoral Alentejano (HLA), a greve é "mais expressiva" ao nível do bloco operatório, que está "a trabalhar só em contexto de urgência" e, por isso, as cirurgias programadas foram adiadas.

Na área dos cuidados de saúde primários no litoral alentejano, "há centros de saúde com a capacidade bastante diminuída" e que estão a assegurar só serviços "considerados prioritários", acrescentou Luís Matos, referindo que a adesão à greve é de 87,5% no Centro de Saúde de Santiago do Cacém e de 85,7% no Centro de Saúde de Grândola.

Luís Matos alertou para a "carência estrutural" de enfermeiros na zona, atualmente na ordem dos 100, a qual, frisou, "é sentida de forma muito expressiva" na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA).

Os sindicatos dos enfermeiros deram início hoje a dois dias de greve nacional que visa pressionar o Governo a apresentar uma contraproposta ao diploma da carreira de enfermagem.

O SEP quer que o Governo apresente uma proposta que esteja de acordo com os compromissos inscritos no âmbito do protocolo negocial e que não esteja, segundo o sindicato, ao “arrepio dos compromissos assumidos” entre as partes.