O projeto ReAJo - Resposta de Autonomização para Jovens LGBTI (Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo), com um apartamento em Lisboa, vai acolher, a partir da próxima semana, “duas pessoas, potencialmente três”, disse hoje a associação Casa Qui.

Em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, num protocolo assinado hoje, a Casa Qui - Associação de Solidariedade Social pretende que o projeto ReAJo apoie a autonomização de jovens, entre os 16 e os 23 anos, vítimas de violência e discriminação pela sua orientação sexual ou identidade/expressão de género, nomeadamente “para apoio em situação sem-abrigo, por falta de suporte familiar ou violência familiar, com vista a projeto de inserção profissional”.

Em declarações à agência Lusa, a diretora executiva da Casa Qui, Rita Paulos, indicou que a associação recebeu, nos últimos três anos, 204 pedidos de ajuda de jovens LGBTI, dos quais “30 correspondem a este tipo de necessidade” de acolhimento temporário, considerando que este “é um número relativamente significativo”.

Com capacidade para acolher quatro pessoas em simultâneo, o primeiro apartamento de autonomização para jovens LGBTI do país, disponibilizado em Lisboa, dispõe de dois quartos para permanência até seis meses e dois quartos para permanência até dois anos.

“Ficará aquém daquilo que, provavelmente, será a necessidade, mas já é, neste momento, extremamente positivo termos esta capacidade”, afirmou Rita Paulos, explicando que como o período de permanência é limitado o apartamento pode dar resposta a mais de quatro jovens por ano.

Referindo que ainda está a decorrer a fase de triagem, a responsável da associação Casa Qui adiantou que está previsto que o apartamento acolha, a partir da próxima semana, duas pessoas, uma de 18 e outra de 21 anos, ressalvando que podem ser “potencialmente três” os jovens LGBTI apoiados desde a abertura desta resposta de autonomização.

Sobre os pedidos de ajuda que a associação tem recebido, Rita Paulos informou que existem solicitações “de todos os pontos do país, inclusive das ilhas”, com idades, sobretudo, dos 16 aos 23 anos, verificando-se casos “abaixo dos 16 anos, mas é menos comum”, e até aos 25 anos, quando estão ainda em formação profissional.

Além disso, há um processo migratório de “muitos jovens” que vêm de outros pontos do país para Lisboa, “porque acham que o ambiente vai ser mais acolhedor, mais positivo”, avançou a diretora executiva da Casa Qui, assegurando que a associação tenta dar resposta a esta situação “para que estas pessoas não acabem na rua ou em situações mais vulneráveis”.

A par da resposta de alojamento, o projeto ReAJo visa “apoiar a empregabilidade” para que os jovens se tornem autónomos, contando com o acompanhamento por uma equipa técnica multidisciplinar e especializada do gabinete de apoio à vítima para juventude LGBTI.

Rita Paulos destacou o apoio psicossocial para os “muitos casos de saídas de casa precoce”, uma vez que se trata de “jovens que estão a ser atirados, de repente, para uma vida adulta e precisam de algum apoio, além de todo o transtorno e a desestruturação que pode estar a ocorrer, porque mesmo que não haja violência física há violência emocional”.

“É essencialmente violência familiar”, revelou a responsável da associação Casa Qui, apontando para a existência de casos em que os jovens completam os 18 anos e são expulsos de casa e, “simplesmente, empurrados para uma situação de vulnerabilidade social”.

Sem habitação e sem emprego, os jovens LGBTI têm uma maior propensão para se encontrarem em situação de sem-abrigo, recorrendo a “favores sexuais em troca de comida e de alojamento”.

Outra das preocupações do projeto ReAJo é o “receio” das vítimas de violência pedirem ajuda, porque se registam situações de discriminação “pelos pares ou pelas pessoas que, também, estão presentes nesse tipo de respostas sociais”.

“As experiências não são todas más, não há aqui uma visão maniqueísta sobre as respostas sociais em Portugal, não é disso que se trata, o que se trata é que nalguns casos, nalgumas situações, as coisas não têm corrido da melhor forma e tem sido necessário arranjar uma resposta específica”, ressalvou Rita Paulos.

O apartamento de autonomização para jovens LGBTI, instalado em Lisboa, vai manter a localização do imóvel em anonimato, garantindo uma resposta “100% segura”.

/ BC