O diretor artístico do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, João Ribas, apresentou na sexta-feira a sua demissão porque "já não tinha condições para continuar à frente da instituição", segundo disse o próprio ao jornal Público.

O jornal escreve hoje que a demissão surge depois de a administração ter limitado a maiores de 18 anos uma parte da exposição dedicada ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe, comissariada por Ribas, e ter imposto a retirada de algumas obras com conteúdo sexualmente explícito.

O próprio diretor artístico tinha dito anteriormente que nesta retrospetiva não haveria "censura, obras tapadas, salas especiais ou qualquer tipo de restrição a visitantes de acordo com a faixa etária", recorda o Público.

A exposição, com fotografias de nus, flores, retratos de artistas como Patti Smith ou Iggy Pop e imagens de cariz sexual foi inaugurada na quinta-feira em Serralves, no Porto.

Questionado pela Lusa antes da inauguração sobre se considerava que algumas imagens da exposição poderiam vir a surpreender ou até a chocar o público, João Ribas declarou que estas foram mostradas em dezenas de museus no mundo inteiro e que Mapplethorpe é "uma das grandes figuras da fotografia" e "um artista conceituado que continua a ser influente na fotografia contemporânea".

Houve muitas exposições com milhares de visitantes e acho que é uma das grandes figuras da arte contemporânea, não consigo fazer essa projeção", acrescentou, referindo que uma exposição tem sempre a função de despir o público de preconceitos.

A agência Lusa tentou contactar o diretor artístico, mas até ao momento não obteve resposta.

Fonte oficial da Fundação de Serralves escusou-se por enquanto a fazer declarações.

BE quer ouvir diretor demissionário no Parlamento

O Bloco de Esquerda pediu hoje a audição, no Parlamento, do diretor demissionário do Museu de Serralves, João Ribas, após administração ter alegadamente limitado a maiores de 18 anos uma parte da exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe.

A decisão de alterar a organização da exposição, retirando algumas obras, e, noutros casos, juntando numa mesma sala obras classificadas por critérios desconhecidos como ‘para maiores de 18 anos’, é inédita em Serralves e suscita a maior perplexidade”, lê-se numa carta enviada pelo Bloco à presidente da comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto.

Para os bloquistas, “o conservadorismo não é critério de avaliação artística”, nem “pode substituir-se à curadoria de uma exposição” e “um conselho de administração não é um órgão de censura da direção do museu que tutela.

O caso é tão mais grave quanto se trata de uma fundação com participação e financiamento do Estado português e um dos mais importantes museus do país”, acrescenta ainda o BE.