“Não é só o cante, é o que a gente sente”. O reparo do “ponto” Luís Beguino podia ser a metáfora de um país que se revela quando saímos das vias rápidas. Uma estrada é mais do que uma partida e uma chegada. A nova série de reportagens da “Vai dar uma Curva”, percorre estradas menos prováveis, à procura desse país de lugares, património, encontros e pessoas. Sobretudo, pessoas.

São três reportagens. Na primeira, emitida já no sábado, dia 18, os repórteres Joaquim Franco e Ricardo Silva (imagem) percorreram cerca de 70 quilómetros da Estrada Nacional 258.

Começaram com os “Papa Borregos”, grupo de cantares alentejanos do Alvito, a cantar “ao Menino”, e terminaram na igreja de N. Sra da Coroada, a sul de Safara, antiga ermida do século XIII, no meio da planície, um monumento em ruínas, ao abandono desde o início do século XX, de paredes esburacadas pelo tempo e pelas intempéries, com sinais de vandalismo e roubo, mas que mantém parcialmente um mural do século XVI a retratar a adoração dos reis magos. 

O historiador José António Falcão, que passou anos a estudar o património religioso na diocese de Beja, avisa que se trata de um extraordinário exemplar maneirista no Baixo-Alentejo, à espera de ser intervencionado sob risco de ruir e desaparecer o que resta.

Pelo caminho, “Vai dar uma Curva” leva-nos à Villa romana de São Cucufate, a uma adega de vinho da Talha, em Vila de Frades, onde, diz o “professor” Arlindo, decano produtor, o vinho não se fabrica, “faz-se como se fosse artesanato”.

Ali ao lado, mergulhamos nas ruas estreitas da Vidigueira para visitar um atelier que dá forma alentejana ao presépio de barro. O ceramista Manuel Carvalho não tem descanso nestes dias, há colecionadores de presépios à espera e um calendário de exposições a cumprir. Há mais de 30 anos que molda o barro e tem adaptado o presépio aos temas alentejanos. Em 2021 inspirou-se precisamente na produção local de vinho, com Maria e José nos contornos da talha de barro.

Esta “curva” leva-nos ainda à padaria da avó Joana, que aos 82 anos continua a controlar o pão que sai do forno. “É verdadeiramente alentejano, mas não tem chapéu”, diz ela, disponível para conversas longas, assim o visitante esteja disponível.

Ouvimos ainda o “baldão”, adaptado pelo grupo Sol do Guadiana, em Pedrógão, passamos pela barragem de Alqueva e pelo museu de joalharia contemporânea Alberto Gordillo, filho da terra que aprendeu a arte em Lisboa para com ela marcar uma posição. O que conta para o joalheiro não é o valor do material, mas a sua plasticidade e aforma é trabalhado pelo artista.

A série natalícia de “Vai dar uma Curva” prossegue no Jornal das 8, da TVI, na véspera da Natal – pela EN8, de Torres Vedras ao encontro de Jesus, pescador da Nazaré – e no dia de Natal – pela EN 205, a subir pelo Minho até um certo Vaticano, onde se junta a família Simões na tradição da “roupa velha”.

“Vai dar uma Curva”, 18, 24 e 25 de dezembro.

  • Jornalista: Joaquim Franco
  • Repórter de imagem: Ricardo Silva
  • Edição de imagem: Tiago Câmara
  • Grafismo: Matilde Candeias
  • Produção: Ana Gouveia