Antero Vitória, o sétimo militar da GNR a ser ouvido no julgamento do processo das agressões na Academia do Sporting em Alcochete, descreveu o estado das testemunhas que conduziu para o posto da GNR do Montijo. Perante o tribunal, o militar disse que “Bas Dost tinha a cabeça partida” e “Jorge Jesus tinha uma marca na face”.

Outro elemento da equipa técnica tinha marcas nos pulsos, disse que tinha sido empurrado”, descreveu.

Antero Vitória é militar da Unidade de Investigação Criminal da esquadra do Montijo. Fez parte da segunda equipa de militares da GNR que chegaram à academia de Alcochete e identificou os arguidos que seguiam no Seat Leon cinzento e no Peuget preto. No total, nos dois carros, seguiam oito ou nove pessoas. Estavam de cara destapada, mas tinham no carro quatro passa-montanhas que foram apreendidos.

O militar diz que as duas primeiras portas de acesso ao balneário, de correr, não estavam arrombadas, mas tinham sinais de terem sido forçadas. Uma terceira porta foi arrombada.  

No corredor havia pingas de sangue. (…) Foi encontrado um engenho pirotécnico. (…) Estava tudo espalhado. Havia uma tocha junto à porta e outra ao pé dos bancos. Estava também uma fivela de cinto no chão. No parque de estacionamento havia viaturas danificadas”, descreve o militar.  

O militar relatou que teve acesso às imagens de vídeo vigilância do Lidl (onde os arguidos se encontraram), que permitiram identificar dois arguidos pelas roupas através da correspondência com as imagens da entrada da academia.

Antero Vitória participou nas primeiras e segundas buscas à “Casinha” da Juve Leo. As segundas buscas foram em dia de jogo, na presença de Mustafá e Jojó. Confirma que foi encontrada a droga num pote de arroz. O militar relata que houve troca de acusações entre Mustafa e Jojó sobre a quem pertencia a droga.

“Vi os jogadores revoltados, a gritar”

As informações foram secundadas pelo segundo militar da GNR a depor, esta segunda-feira, em tribunal. João Viegas de Matos, também do Núcleo de Investigação Criminal do Montijo, conta que os jogadores “revoltados e a gritar” mostraram de imediato intenção de apresentar queixa.

O militar descreve também que a “porta de entrada para os balneários (de vidro de correr) estava semi-aberta e não funcionava”.

Reparei que havia gotas de sangue pelo chão. (…) Entre o corredor e a porta do balneário Estava uma tocha, estavam outras duas no balneário. (…) O alarme de incêndio estava a tocar, estava muito fumo e havia uma camisola do Sporting preta e verde queimada”, descreve.

Vi o Bas Dost a deitar sangue na cabeça. O Jorge Jesus tinha um vermelhão na cara e havia mais dois elementos da equipa técnica, um com marca na cara e outro com marca na zona do abdómen.”

A procuradora do Ministério Público questionou o militar se tinha visto Fernando Mendes no local e João Viegas de Matos afirmou que não se recorda de o ter visto.

Fernando Mendes presente, mas em silêncio

O antigo líder da claque do Sporting Juventude Leonina Fernando Mendes compareceu, esta segunda-feira, pela primeira vez numa sessão do julgamento da invasão à Academia do clube, em Alcochete, sem prestar declarações ao coletivo de juízes.

Fernando Mendes é um dos 44 arguidos no processo e tinha sido o único a não comparecer até hoje nas sessões do julgamento, no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, devido a questões de saúde.

O atual líder da Juve Leo, Mustafá, o antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos do clube, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Os três arguidos respondem ainda por um crime de detenção de arma proibida agravado e Mustafá também por um crime de tráfico de estupefacientes.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à academia, o Ministério Público imputa-lhes a coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Estes 41 arguidos vão responder ainda por dois crimes de dano com violência, por um crime de detenção de arma proibida agravado e por um crime de introdução em lugar vedado ao público.

Em 15 de maio do ano passado, durante o primeiro treino da equipa de futebol do Sporting, após a derrota na Madeira, cerca de 40 adeptos ‘leoninos’ encapuzados invadiram a Academia do clube, em Alcochete, e agrediram vários jogadores, bem como o então treinador, Jorge Jesus, e outros membros da equipa técnica.

Vânia Ramos / MM