Portugal pode vir a perder 3,6 milhões de vacinas por causa de restrições relacionadas com a vacina da Johnson & Johnson, produzida na União Europeia pela subsidiária Janssen.

A informação foi adiantada pelo coordenador da task force de vacinação, na reunião com especialistas no Infarmed.

Face às restrições que ainda existem sobre um conjunto de vacinas, nomeadamente sobre a da Janssen, podemos ter um problema de perder para o plano nacional 3,6 milhões de vacinas", referiu Henrique Gouveia e Melo.

Em causa estão as restrições impostas pela Direção-Geral da Saúde, que recomenda a toma da vacina da Janssen apenas aos maiores de 50 anos, ainda que refira que os menores de 50 anos a podem tomar, se assim o desejarem.

Na prática, as vacinas podem chegar a Portugal mas não terem aplicabilidade, uma vez que as pessoas com mais de 50 anos já estarão quase todas vacinadas, e as menores de 50 anos têm a hipótese de escolher se querem ou não receber a vacina em causa.

Os menores de 50 anos que pretendam receber a vacina da Janssen devem ser informados de todos os riscos e benefícios do produto, ficando obrigados a assinar um consentimento informado para receberem a vacina.

Recorde-se que a vacina da Johnson & Johnson foi ligada a raros casos de coágulos sanguíneos, o que acabou por levar as autoridades de saúde de todo o mundo a reverem as normas de administração.

O mesmo aconteceu com a vacina da AstraZeneca, que em Portugal tem a mesma restrição, sendo que a idade recomendada é para maiores de 60 anos.

Estratégia de vacinação será agora mais virada para “libertar a economia”

O coordenador da ‘task force’ afirmou hoje que, a partir de agora, a estratégia de vacinação contra a covid-19 será mais virada para “libertar a economia”, uma vez que a missão de proteger os mais idosos está “praticamente terminada”.

A estratégia, a partir de agora, vai ser uma estratégia mais virada para libertar a economia, porque a estratégia que tinha a ver com a proteção das pessoas mais idosas e a resiliência já está praticamente terminada e, portanto, conseguida”, disse Henrique Gouveia e Melo na reunião no Infarmed, que reuniu esta manhã especialistas, o Presidente da República e membros do Governo.

O coordenador da ‘task force’ do plano de vacinação contra a covid-19 explicou que esta estratégia procura dar “consistência no país inteiro”.

O facto de termos começado a procurar as pessoas mais idosas para as vacinar fez com que regiões com distribuições diferentes da sua estrutura etária fossem mais avançadas por regiões”, explicou.

Agora, sustentou, o que se procura fazer, “é ter um país à mesma velocidade em termos percentuais da população de cada região”, uma vez que a preocupação já não é só as faixas etárias mais elevadas, mas a percentagem da população vacinada para se atingir a imunidade de grupo.

“Portanto, puxando pelo Norte, pela Região LVT [Lisboa e Vale do Tejo] pelos Açores e pelo Algarve”, vincou.

Henrique Gouveia e Melo disse ainda ter “dois tipos de preocupações”.

Uma delas é “manter o ritmo de vacinação elevado para poder libertar mais rapidamente a economia a partir de agora, uma vez que a resiliência, por um lado, e, por outro lado mais importante, salvar vidas já está fortemente garantido”.

A outra prende-se com “o ritmo de vacinas que chegam a território nacional” e com a utilização dessas vacinas por “critérios muito restritivos”.

“Além disso, tenho outras preocupações que já não são preocupações macro, são preocupações micro no processo, mas são preocupações importantes”, declarou.

O coordenador explicou que essas preocupações se prendem com a qualidade do processo em termos de conseguir ir a nichos de população, enquanto simultaneamente está a haver “um ritmo muito elevado de vacinação”.

“Preocupa-me algumas bolsas de idosos que neste processo vão ficando para trás e para isso criamos metodologias que chamamos o carro vassoura”, um processo eletrónico para os encontrar.

Os acamados são outra preocupação para Gouveia e Melo: “Na altura não sabíamos quantos eram, mas hoje temos uma dimensão de cerca de 60 mil pessoas acamadas e a pessoa que trata ou que está mais próximo desse acamado.

Neste momento, já foi vacinado cerca de metade deste universo, mas “é um processo lento, moroso, fino”.

As doenças graves que estão a ser tratadas, ou através dos hospitais ou através de agendamentos na agenda global, são outra das preocupações da 'task force'.

Também me preocupa as comunidades isoladas geograficamente, em que nessa geografia os cuidados de saúde são ainda elementares, não tendo nem hospitais, nem outros cuidados de saúde como, por exemplo, as regiões ultraperiféricas”, salientou.

Segundo dados divulgados por Gouveia e Melo, já foram administradas até quarta-feira em Portugal continental 5,2 milhões de vacinas, das quais 1,8 milhões já são segundas doses com a composição das vacinas da Pfizer, da Moderna, da AstraZeneca e da Johnson & Johnson.

António Guimarães