Um vídeo partilhado nas redes sociais, no dia 15 de novembro, mostra um homem a ser arrastado por um carro de uma escola de condução, numa placa central em Barcelos, vulgarmente conhecida como Rotunda das Pirâmides. O incidente aconteceu cerca das 18:00, horário em que os alunos saem da escola e no final do dia da Feira Semanal na cidade, em que o trânsito costuma ser mais intenso e com fortes congestionamentos.

As imagens foram registadas por uma testemunha ocular, Rui Pereira, que sublinha só ter assistido a uma parte dos acontecimentos.

Não sei o que se passou ao certo porque quando cheguei à rotunda já havia buzinadelas. Vi o condutor da escola de condução parado no meio da estrada com os quatro piscas ligados. De repente arranca a uma velocidade demasiado exagerada e embate no carro da frente. O dono do carro saiu da viatura e começou a apontar para a matrícula do carro da escola. O instrutor (assumo eu que era) saiu do veículo e deu um empurrão ao outro indivíduo dizendo ‘venha atrás de mim’. O instrutor vira costas e entra no carro”, conta.

 

“Pelo que percebi o senhor do [automóvel da marca] Peugeot queria resolver [o assunto] no local. O vídeo explica o resto”, acrescenta.

 

Deixo as conclusões a vosso parecer. Não estou a julgar ninguém nem posso dizer mais do que isto”, remata.

Depois de terem sido feitas algumas críticas ao facto de ninguém ter ajudado, o autor do vídeo esclarece: “Para esclarecer a questão da humanidade. Eu estava com a minha mãe, no momento em que houve o confronto (o empurrão) eu quis intervir, mas como o instrutor fez o melhor e entrou no carro, não vi a necessidade de mais alguém correr o risco de confrontar e desta forma ser atropelado. Bastantes pessoas quiseram intervir e vários chegaram mesmo a sair dos carros, mas foi tão rápido que ninguém consegui ter reação”.

"O instruendo manteve-se aos comandos do veículo”

A TVI24 apurou que o carro de instrução envolvido no incidente pertence à Escola de Condução São Bento, em Barcelos. O instrutor de condução em causa, que prefere manter o anonimato, ressalva que o vídeo publicado nas redes sociais “mostra apenas a parte final dos acontecimentos e induz as pessoas em erro” porque não ilustra a totalidade dos factos.

Em entrevista telefónica à TVI24, o instrutor explica que os problemas começaram meio quilómetro antes da cena insólita a que muitos condutores assistiram na chamada Rotunda das Pirâmides, com um condutor que seguia atrás do veículo de instrução e que sistematicamente tentava ultrapassá-lo num percurso que envolvia várias rotundas, mas sem nunca o conseguir.

“O senhor estava com pressa não sei de quê e não tinha espaço para ultrapassar. O aluno [que seguia ao volante do veículo de instrução] não tinha ainda experiência, só tinha feito três ou quatro aulas. O senhor foi meio quilómetro atrás de nós a pressionar e a buzinar, de noite, dentro da localidade, onde não é permitido usar os sinais sonoros”, começa por contar o instrutor.

Quando chegou à rotunda que antecede a das Pirâmides, o condutor, impaciente, não hesitou e acabou por fazer a ultrapassagem, mas num local em que não era permitido.

“Quando tem um sítio, ultrapassa de forma inadequada por cima de uma linha contínua. Mete-se na frente do carro e trava subitamente e sempre a buzinar. Depois volta a arrancar e, mais à frente, noutra curva da rotunda, trava novamente de forma brusca. Não consegui dominar o carro e bateu-lhe no para-choques. O instruendo manteve-se aos comandos do veículo.”

O instrutor conta que saiu do carro e perguntou ao condutor o que pretendia. Na resposta, o homem “partiu para a violência”, diz ainda o instrutor, que afirma ter reagido com um empurrão.

O condutor “atirou-se para cima do capô do veículo de instrução e tentou arrancá-lo e dava murros ao mesmo tempo. O homem estava deitado em cima do capô e o aluno a ver”, descreve o instrutor. “Depois fui para o carro e vi o aluno a entrar em pânico."

O instrutor conta que se gerou uma confusão intensa no trânsito, com o veículo de instrução a bloquear as duas faixas e os outros condutores a buzinarem. Por isso, decidiu entrar no carro e pediu ao outro condutor que o seguisse de modo a resolverem o assunto numa esquadra de polícia, mas a reação não foi a que esperava.

Recusou, meteu-se na frente do carro e disse que não saía dali. Eu [instrutor] disse então ao aluno para tentar avançar e, ele [aluno] numa situação de desespero acelerou. Vi o senhor agarrado ao vidro do meu lado porque estava semiaberto. Ele foi uns metros arrastado. Ele estava tresloucado, fora de si, não sei se embriagado. Quando percebi, pedi ao instruendo para parar o carro e tentei tirar-lhe as mãos do vidro. Quando parei para o tentar soltar do vidro, agrediu-me novamente”.

O instrutor alerta que o momento em que manda parar o carro e solta o homem do vidro não é percetível no vídeo publicado nas redes sociais, porque uma carrinha de caixa aberta passou à frente do veículo de instrução e não permite ver o que aconteceu.

As pessoas pensam que o senhor caiu [do carro em andamento], mas não. Quem está a filmar não vê o carro a abrandar e a parar na berma para ele sair do carro. Ele não chegou a cair e [quando volta a estar visível no vídeo] ele está a andar na berma da estrada”.

O instrutor admite que, num primeiro momento, não se apercebeu que o homem ia pendurado no veículo de instrução.

O senhor é que se agarrou ao carro. Eu nem me apercebi porque estava atento ao aluno, que estava em pânico, a tremer, todo atrapalhado, e só depois é que vi o senhor agarrado ao carro. Depois o aluno acelerou e tive de lhe agarrar o volante”, afirma, recordando que atualmente os veículos de instrução já não têm um segundo volante para o instrutor.

O instrutor exerce a profissão há 35 anos e confessa que, mesmo com tantos anos de experiência e “não sendo um leigo na matéria”, não é fácil lidar com uma situação deste tipo.

Eu não ando bem porque pergunto a mim mesmo: ‘Eu é que sou o mau da fita? Eu estava a trabalhar, a dar a minha aula de condução, as pessoas têm é de respeitar mais os carros das escolas de condução. Aquele senhor estava tresloucado”.

O profissional do ensino de condução aponta a falta de civismo e de paciência de muitos condutores quando se cruzam com um veículo de instrução na estrada, em que o instrutor de condução acaba por ser o elo mais fraco de uma cadeia de responsabilidades que muitas vezes ninguém quer assumir.

Com os instrutores não há respeito nenhum. Esquecem-se que há um aluno que está a iniciar a aprendizagem, às vezes é a primeira aula, e muitas vezes não podemos fazer muito mais do que andar devagar”, remata.

Na análise que agora faz da situação, o instrutor de condução admite que poderia ter reagido de outra forma.

Se fosse hoje, o que é que eu faria? Se fosse hoje ficava lá parado a bloquear o trânsito, com as pessoas a buzinarem, e chamava a polícia.”

“Já me puxaram da pistola”

Com mais de duas dezenas de anos a ensinar a conduzir e a interpretar os sinais de trânsito, Pedro Sousa, gerente da Escola de Condução São Bento, explica, também em entrevista telefónica à TVI24, que o que aconteceu com o colega de trabalho no dia 15 de novembro, não é inédito.

É instrutor há 30 e tal anos e esta situação não é nova para nós porque passamos por várias situações destas. Todos os instrutores têm histórias de atritos com as pessoas. Em situações de atritos, eu não discuto futebol nem Código da Estrada", afirma.

O gerente da Escola de Condução São Bento, também instrutor, acumula histórias que fazem parte do dia a dia de trabalho.

Inclusive eu já tive situações de pessoas que me puxam da pistola. Infelizmente, é com isto que temos de viver. E acontece à frente de candidatos [instruendos] que depois ficam sem força anímica. Tive uma aluna que assistiu a uma situação dessas e depois passou meses sem pegar num carro”.

Sobre o incidente de 15 de novembro propriamente dito, Pedro Sousa reconhece que “o vídeo não abona nada em benefício” da escola de condução, mas realça que ouviu, em separado, as versões dos factos apresentadas pelo instrutor e pelo instruendo, e que coincidem. O gerente defende que a situação, embora “grave para a escola, foi toda provocada pelo indivíduo, que estava completamente fora de si e provavelmente alcoolizado”.

Pedro Sousa explica que não foi realizado um teste de alcoolemia porque o homem que se pendurou no carro de instrução recusou seguir o instrutor até à esquadra.

À TVI24, Pedro Sousa revela ainda que a Escola de Condução São Bento decidiu não apresentar queixa do incidente porque “não beneficia a imagem” da empresa e o objetivo é deixá-lo cair no esquecimento. Ainda assim, o gerente revela que o condutor que se pendurou no veículo de instrução foi à escola de condução falar com ele a 16 de novembro, o dia seguinte ao incidente.

No dia seguinte, veio com falinhas mansas e já numa situação e com uma disposição completamente diferente. Pretendia que lhe pagássemos o arranjo do carro no valor de 700 euros numa oficina à escolha dele e também as botas. Queria também 100 euros para despesas com um advogado”.

Na impossibilidade de chegar a acordo com a escola de condução, diz ainda o gerente, o homem ameaçou apresentar queixa na polícia.

Ele foi o principal, o único causador da situação. Ele disse que vai apresentar queixa, mas nós estamos completamente de consciência tranquila. Se ele apresentar queixa, nós também iremos apresentar”, garante Pedro Sousa.

Contactado pela TVI24, uma fonte do Comando Distrital da PSP de Braga confirmou que as autoridades não foram chamadas ao local no dia 15 de novembro. A mesma fonte revelou que até esta quarta-feira, dia 28 de novembro, não recebeu qualquer queixa ou participação relativamente ao incidente.