Os madeirenses que se encontram na Venezuela começaram a regressar a Portugal e o impacto desse regresso já se faz sentir nas contas públicas. A confirmação de que há emigrantes a regressar foi feita pelo secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, que revelou à Lusa que, há cerca de três semanas, recebeu a informação de que 600 pessoas se tinham inscrito na Segurança Social da Madeira e que 190 já tinham mesmo regressado à ilha de onde saíram em busca de uma vida melhor.

Por sua vez, o jornal Público avança que, desde o início do ano, quase mil ex-emigrantes na Venezuela se inscreveram no Instituto de Emprego da Madeira, numa média de 180 inscrições por mês, e que os pedidos para habitação aumentaram, tal como as inscrições nos programas de Rendimento de Inserção Social, Emergência Alimentar e Apoio para Medicação.

O regresso dos madeirenses ao arquipélago tem impacto nas contas públicas. De acordo com o mesmo jornal, o aumento das pessoas inscritas nos programas provoca um gasto de cerca de 100 mil euros mensais. Também a despesa com as comparticipações de medicamentos aumentou - a despesa ronda o meio milhão de euros - por causa dos regressos forçados e também por que há quem recorra às farmácias regionais para enviar medicamentos para a Venezuela.

Perante este cenário, o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus da Madeira, em visita conjunta com José Luís Carneiro à Venezuela, mostrou-se preocupado com a situação da comunidade portuguesa. Para Sérgio Marques esta visita tem, "acima de tudo”, por “grande propósito a expressão de solidariedade para com comunidade".

Não a abandonamos. São madeirenses, independentemente do sítio onde estejam a viver, e portanto é também essa mensagem que quero transmitir com a minha vinda cá", afirma.

Para o secretário regional, a crise política, económica e social na Venezuela está a afetar "tremendamente" a comunidade portuguesa, relativamente à qual as autoridades de Lisboa devem expressar solidariedade.

O que sinto, pelas conversas que já tive, é que a situação se degradou bastante nestes meses que medeiam entre a minha anterior visita (julho de 2016) e esta que está a ocorrer neste momento", disse, acrescentando que a situação “está a degradar-se acentuadamente e é cada vez mais preocupante, até porque não descortinamos uma saída para esta crise política, social, económica, muito profunda em que a Venezuela está a mergulhar e que afeta, obviamente, tremendamente a nossa comunidade".

"Portugueses da Venezuela não estão esquecidos"

Os portugueses radicados na Venezuela estão no centro das preocupações do Governo de Lisboa, disse em Caracas o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro.

Eu tinha intenção de visitar a Venezuela, mas naturalmente quando as condições de vida social, económica e também política se deterioraram, a urgência desse encontro, dessa presença, ganhou outro destaque, porque a presença do Governo é sempre uma demonstração de que os portugueses da Venezuela não estão esquecidos, estão no centro das nossas preocupações e de todas as estruturas do Estado português", disse.

José Luís Carneiro falava à Agência Lusa e à Antena 1 no âmbito de uma visita de quatro dias à Venezuela. A visita, disse, tem como objetivo "manter os canais de comunicação em bom funcionamento, no que diz respeito nomeadamente à relação com as autoridades venezuelanas, que são absolutamente indispensáveis para garantir e promover as condições de segurança e de bem estar dos portugueses".

Carneiro salientou também "a relação de boa cooperação" com dezenas de associações luso-venezuelanas que estão muito ativas na vida coletiva da comunidade, nomeadamente de caráter social e que desenvolvem um trabalho muito importante de identificação de casos de necessidade mas também de mobilização de recursos para apoiar essas famílias”.

O Governo quer ainda "verificar o modo como os serviços consulares estão a procurar corresponder às necessidades que são colocadas por aqueles que querem requerer documentação dos serviços consulares (…) e, por outro lado, encontrar-se com empresários, porque na Venezuela há centenas de empresas portuguesas, desde as pequenas empresas de comércio à distribuição, até grandes empresas dos setores agroalimentar e nas infraestruturas essenciais do país (transporte e comércio internacional)", disse.

À chegada à Venezuela o secretário de Estado das Comunidades visitou as obras de expansão do Porto de La Guaira, o principal do país, que foi ampliado pela empresa Teixeira Duarte, contando com mais de 5.000 trabalhadores na construção.

Trata-se de um porto (marítimo) que está numa região que representa 10% do comércio mundial e será uma empresa portuguesa a operar a gestão e administração do Porto de La Guaira", frisou.

Por outro lado, explicou que a grande maioria dos portugueses que se encontra na Venezuela "pretende fazer da Venezuela o seu país de futuro”. “Para muitos deles é a sua pátria, naturalmente com um sentimento hereditário muito forte a Portugal", disse.

A visita à Venezuela serve para lhes dizer que Portugal está com eles num momento especialmente difícil do ponto de vista social e económico, com condições graves do ponto de vista da segurança, salientou.

A proximidade do secretário de Estado com as pessoas é uma proximidade do Governo, de Portugal, do seu primeiro-ministro, do ministro dos Negócios Estrangeiros, e é de todo o país, também do senhor Presidente da República", explicou.