O guarda prisional que atingiu mortalmente uma formanda na carreira de tiro da cadeia de Paços de Ferreira, disse hoje em tribunal não ter intenção de matar, porque ao disparar desconhecia a existência de uma munição na pistola.

O arguido, que é instrutor de tiro, disse hoje, na primeira sessão de julgamento, em Paços de Ferreira, distrito do Porto, que "não inspecionou a câmara da arma e não efetuou um disparo de segurança para zona limpa e segura", ressalvando que "jamais apontou a arma à colega, jamais lhe direcionou a arma, porque estava desenquadrado".

O disparo saiu-me inadvertidamente, quando ainda não tinha os braços esticados para o procedimento normal", acrescentou, indicando que "a porta era o alvo e não a Carla".

O arguido responde neste processo por um crime de homicídio por negligência.

A vítima, Carla Amorim, foi atingida no peito durante uma formação de tiro, sendo o autor o seu instrutor.

Ao tribunal, o arguido explicou a formação que estava a ser ministrada a 6 de novembro de 2018, referindo, emocionado e em lágrimas, que "o disparo saiu de surpresa".

Assustei-me na altura do disparo e, provavelmente, isso fez com que a arma mudasse de direção", observou, acrescentando não saber como "acertou na Carla".

 

Tive a noção que premi o gatilho", comentou, "mas na convicção de que a arma não estava municiada".

"Dentro do meu manuseamento da arma, alguma coisa pode ter falhado, mas tenho noção de que a minha arma está limpa e segura", disse.

Aníbal Pinto, advogado da família de Carla Amorim, insistiu com o arguido para que explicasse como acertou na vítima, questionando-o sobre a obrigatoriedade de inspecionar a arma.

O arguido reafirmou não saber explicar como acertou na vítima, acentuando que "não era obrigado às manobras de segurança naquelas circunstâncias" da formação.

Afirmou, ainda, "arrependimento por ter omitido procedimentos de segurança", quando respondia ao seu advogado, Ricardo Sá Fernandes.

Na sessão de hoje, foi ainda ouvido Miguel Edmundo, também formador de tiro, que assistiu às circunstâncias que estão a ser apreciadas em tribunal.

A testemunha disse que naquele momento, aquando da formação, não era obrigatório o procedimento de segurança ao longo dos exercícios (montagem e desmontagem dos carregadores), porque já tinham sido realizados antes de começar a formação, como manda o regulamento.

Questionado sobre o que terá acontecido para o disparo ter acertado na vítima, admitiu que possa ter ocorrido devido à "fraca empunhadura" da arma, acrescentando estar certo de que "o arguido tinha a convicção que estava a disparar em seco".

Referiu, contudo, ter acontecido "uma falha, porque havia uma munição no carregador".

A sessão de julgamento prossegue terça-feira, à 9:30 nas instalações do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira.

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