A Associação Académica de Coimbra (AAC) recebe esta sexta-feira a marcha do Chega, naquela cidade, com o edifício coberto por um pano preto e uma lona através da qual se critica o saudosismo em relação ao Estado Novo que aquele partido promove.

Devido ao facto de um grupo político, nas suas palavras, desejar marchar sobre Coimbra a favor dos portugueses de bem, o edifício-sede da Associação Académica de Coimbra estará na sua totalidade coberto por um pano preto", anunciou a instituição, referindo que estará também afixada uma lona de grandes dimensões, onde se veem os rostos das figuras do Estado Novo Óscar Carmona, Salazar, Marcelo Caetano e Américo Tomás, com a seguinte inscrição: "São estes os portugueses de bem?".

O Chega realiza esta sexta-feira, ao final do dia, uma marcha, que precede o III Congresso Nacional do partido, entre a Universidade de Coimbra e a Igreja de Santa Cruz, onde está o túmulo do primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques.

A AAC, numa tomada de posição enviada à agência Lusa, nota que a marcha acontece no mesmo dia em se assinala o golpe de estado de 1926, "um movimento militar que deu início a um novo regime político em Portugal que perdurou até 1974".

Seja folclore do líder ou real fervor entusiástico de celebrar o início de um período de ditadura no nosso país, a Associação Académica de Coimbra não poderá deixar de sublinhar o que foi esse período para centenas e centenas de jovens estudantes, inúmeras gerações de academistas afastados por rejeitarem a ordem instalada, presos por exigirem um Estado que respeitasse a liberdade de pensar e agir de cada um, torturados, exilados ou enviados para uma guerra fratricida por quererem garantir um Estado de Direito democrático em Portugal, onde todos os cidadãos fossem iguais perante a lei, sem privilegiados e explorados, sem vencedores e sem vencidos, sem serem perseguidos e condenados por apenas dizerem não", lê-se na nota, assinada pelo presidente da instituição, João Assunção.

A AAC frisa que todos os estudantes que "sofreram ao longo de 48 anos às mãos de um regime ditatorial" exigem à presente direção que não deixe passar a data "como um momento de celebração da instauração de um regime totalmente contrário aos ideais pelos quais esta academia e esta instituição tanto lutaram".

Por mais folclores e normalizações, por mais saudosismo de um tempo que felizmente já passou, nós manteremos o inconformismo, manteremos os nossos valores", afirmam os estudantes na tomada de posição, que não esquece as crises académicas de 1962 e de 1969 e a opressão do regime à resistência estudantil.

 

Não esquecemos uma universidade amordaçada, obrigada a vigiar ou a afastar os seus mestres por não serem caixa de ressonância da cartilha do Estado. Não esquecemos um Portugal rural a viver na sua própria miséria, sem saúde, sem educação. Não esquecemos uma guerra que ceifou milhares de vidas, que dizimou povos, que mutilou famílias, que fez findar tantos e tantos sonhos de vida de jovens como nós", salienta.

A AAC realça que hoje é um dia para vincar que a academia mantém "os seus valores da liberdade, igualdade e dignidade do indivíduo".

Aqui não marcham ‘portugueses de bem'. Resiste a cidadania, a democracia, a liberdade. Porque nós não nos esquecemos", concluem os estudantes de Coimbra.

/ CE