Utentes da Unidade de Alcoologia de Lisboa temem que o serviço de internamento encerrado desde março devido à pandemia não reabra por falta de profissionais, mas as autoridades asseguram que está a ser ultimado “um modelo de reabertura”.

Vários utentes manifestaram à agência Lusa a sua preocupação com o futuro do serviço de internamento da Unidade de Alcoologia, o único serviço gratuito que contempla um internamento de 28 dias e um programa de acompanhamento psicoterapêutico, e apelam às autoridades de saúde para não o integrarem na Unidade de Desintoxicação das Taipas.

“A informação que tenho é que com a pandemia" está apenas previsto a reabertura do centro das Taipas, que também funciona no Parque da Saúde de Lisboa, para onde vão ser transferidos uma grande parte dos auxiliares e enfermeiros, disse Paulo Inácio, explicando que são "mais-valias completamente diferentes”.

Para outro utente, Bruno Rego, se tal acontecer é “uma decisão contracorrente” numa altura em que os problemas de álcool se agravaram.

Com esta pandemia, quem bebia uns copos, já está a beber garrafões porque as pessoas ficam fechadas em casa, têm de lidar com os ‘lay-off’, com os despedimentos, e as que já bebiam vão vingar-se no álcool porque isto é assim”, disse Bruno Rego.

Já para Fernando S. a Unidade de Alcoologia é “um porto seguro” para “um número cada vez mais crescente de alcoólicos em Portugal, perto de 600 mil”, que não se pode perder.

Jorge, 50 anos, recordou, por seu turno, que “já houve alguma tentativa no passado de acabar com o internamento” e utilizar os seus recursos noutras unidades para concentrar serviços, o que “mais uma vez está a acontecer”.

Contactada pela Lusa, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) afirmou que se aguarda para “muito breve” um modelo de reabertura que torne possível realizar o necessário período de quarentena para os utentes da Unidade de Alcoologia de Lisboa e do Centro das Taipas, unidades destinadas, respetivamente, à desintoxicação do álcool, e à desintoxicação de substâncias psicoativas, incluindo o álcool.

Assumindo-se a necessidade premente da retoma dos internamentos, quer considerando o número de utentes em lista de espera, quer pela vontade expressa dos profissionais destas duas equipas em retomar a atividade clínica dos internamentos, aguarda-se para muito breve a implementação deste modelo de reabertura”, sublinha.

Segundo a ARSLVT, este modelo terá “o consenso médico e clínico necessário, bem como a criação de todas as condições”, ao nível das instalações e de equipamentos de proteção Individual, para garantir “as boas práticas clínicas e a segurança dos utentes e dos profissionais de saúde”.

Sublinha ainda “a complexidade da construção deste modelo”, uma vez que a grande maioria destes utentes sofre de comorbilidades psiquiátricas e de outras doenças graves, como doença pulmonar obstrutiva crónica, cirrose hepática, doenças cardiovasculares.

O encerramento dos internamentos nas duas unidades ocorreu a 14 de março por não reunirem as condições que permitem garantir as boas práticas clínicas aos doentes a internar, sobretudo no que respeita à capacidade de realização da quarentena de 14 dias.

Contudo, o encerramento só se efetivou quando “todos os doentes então internados tiveram alta clínica, não tendo sido por isso interrompido qualquer programa de tratamento”, o que não houve foi novas admissões.

“Apesar dos constrangimentos decorrentes da pandemia” foi mantido o serviço de consulta em ambulatório, embora mais reduzido, segundo as orientações da Direção-Geral da Saúde, e montado um sistema de atendimento em teleconsulta individual e de grupos de apoio à prevenção da recaída através de plataformas online.

Nas situações em que a avaliação clínica assim o justificava foi sempre realizado o atendimento presencial.

Eventual fecho terá um "impacto devastador"

O psicólogo clínico Mário Marques considerou hoje que um eventual encerramento do internamento da Unidade de Alcoologia de Lisboa poderá ter “um impacto devastador” com muitos custos para a saúde física e mental da população com problemas de álcool.

O serviço de internamento da Unidade de Alcoologia de Lisboa encerrou em março devido à pandemia, uma situação que está a preocupar os utentes, mas a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo assegurou à Lusa que está a ser ultimado um modelo de reabertura.

Para Mário Marques, “seria trágico” as pessoas com problemas de álcool deixassem de ter este “serviço de referência”, tendo em conta que é “um tratamento especializado sem custos para as pessoas”.

E nos dias de hoje, com a situação pandémica e com todas as ondas de choque que ela está a trazer à vida de todos nós, não é difícil pensar que poderá ter um impacto devastador com muitos custos para a saúde física e mental desta população”, disse à agência Lusa o psicólogo.

No seu entender, seria “privar os doentes” de uma das respostas mais especializada que o Serviço Nacional de Saúde possui nesta área: “os doentes ficarão muito mais pobres nas suas oportunidades de tratamento. Será uma perda enorme e que espero que não se verifique”.

Mário Marque sublinhou que os recursos humanos escasseiam por norma no SNS e nos serviços que tratam as dependências, não é diferente.

São serviços habituados a trabalhar ‘à pele’. Com a situação da covid-19, tendo em conta todas as exigências (e bem) da Direção-Geral de Saúde para os internamentos na Saúde Mental, claro que a capacidade de resposta destes serviços fica fortemente comprometida se não houver um investimento nos recursos humanos com mais contratações e até no melhoramento das condições físicas dos edifícios onde funcionam estas valência, que por norma, já são muito antigos”, defendeu.

Questionado se os problemas de álcool podem vir a aumentar com a pandemia, afirmou que da experiência de situações anteriores de crise faz pensar que o consumo de álcool poderá aumentar por questões sociais, como o desemprego, e de saúde mental, que “poderão ser a próxima pandemia”.

Nesta fase, todos os serviços são importantes e, por isso, repito, vejo com muita preocupação o eventual encerramento do internamento da Unidade de Alcoologia”, vincou.

“Pelo que sei e conheço do serviço, por muitos anos de trabalho desenvolvido em articulação com a Unidade, através das suas valências da consulta e do internamento, é um serviço que prima pela procura de respostas que se ajustem às diversas necessidades dos doentes”.

Além da “fundamental desintoxicação física”, contempla toda uma abordagem que vai ao encontro dos problemas ligados ao consumo de álcool.

Esta não é uma doença qualquer. É uma doença com forte impacto no funcionamento físico e psicológico, compromete o modo de pensar e agir da pessoa doente e com isso todas as suas valências de vida”, salienta.

Daí que o internamento esteja estruturado em quatro semanas, com cuidados médicos, de enfermagem, psicológicos e de intervenção social.

“O programa tem vindo a fazer também várias adaptações às necessidades prementes de doentes que beneficiam de integrar Programas de Longa Duração", caso das Comunidades Terapêuticas.

Para o psicólogo, esta é a “grande valia” da unidade, oferece internamentos curtos a quem precisa de seguir para as Comunidades Terapêuticas e internamentos de quatro semanas para quem não esteja num estado tão agravado da doença.

Assim oferece “uma possibilidade de tratamento menos disruptiva para a vida do doente”: “uma coisa é estar internado sensivelmente um mês, outra é estar três, seis meses ou um ano, que são os tempos de tratamento nas comunidades terapêuticas”.

Pessoas que ainda mantêm os seus trabalhos, as suas famílias, com vidas ainda minimamente estruturadas, têm assim acesso a um programa médico e psicoterapêutico especializado de relativa curta duração, que de outro modo só é acessível em centros privados com elevadíssimos custos”, sublinha.

/ AG