Bruno tem 21 anos e foi internado com covid-19 no Hospital de Cascais, em janeiro. Esteve três semanas em coma induzido e ventilado. Quando deixou os cuidados intensivos, parecia que o pior tinha passado, mas horas depois sofreu uma violenta agressão ali mesmo, no quarto do hospital.

No domingo, 14 de fevereiro, pelas 23:00, um idoso foi instalado no mesmo quarto. Bruno Didelet acordou pelas três da manhã, quando estava a ser violentamente agredido na cabeça.

O agressor era o idoso da cama ao lado e a arma do crime era o ferro onde se penduram os sacos do soro.

“Eu lembro-me de acordar no chão e, sempre que tentava levantar a mão para me defender, só que não tinha forças, o homem agredia-me com o ferro da cama onde se mete os soros e essas coisas. Lembro-me de ser arrastado no chão, até que ele deve ter-me tapado a cara porque eu já não via nada.”

Bruno tinha saído dois dias antes dos Cuidados Intensivos. Não falava, nem conseguia gritar, nem se mexia. Ficou com um traumatismo craniano e com uma ferida extensa. Perdeu muito sangue e precisou de receber transfusões.

“Se a gente pensar bem, o meu filho podia ter morrido ali, naquele chão, porque ninguém apareceu ali para o socorrer”, diz à TVI Manuela Guerreiro, a mãe de Bruno.

Bruno conta que o idoso, de 88 anos e que teve um surto psicótico, saiu do quarto e foi um enfermeiro que o viu cheio de sangue.

“Perguntaram por que é que o senhor ali estava e ele disse simplesmente que andava à procura de ajuda para o Bruno, que o Bruno tinha sido agredido por dois homens. Quando entram no quarto encontram o meu filho tapado com um lençol, o meu filho cheio de sangue, o meu filho imediatamente foi levado para a cirurgia.”

No dia seguinte, a família foi avisada e ficou a saber que, horas antes da agressão, o mesmo idoso já teria esmurrado um auxiliar do hospital.

“Deveriam ter sabido, à partida, que esta situação poderia desencadear algum mal e, nesse caso, a lei prevê que de uma forma automática que a culpa seja presumida e, consequentemente, o hospital ou a unidade hospitalar terá sempre responsabilidade neste particular e consequentemente também por aqui deverá ser chamada a um pedido de indemnização cível que a família eventualmente venha a querer fazer”, explica à TVI o advogado Fernando Marques da Silva.

A família apresentou queixa-crime, mas o mais provável é que o agressor seja declarado inimputável. Já em relação ao hospital, a família vai pedir uma indemnização na justiça pelos danos que ainda se arrastam.

Sobre o incidente, o Hospital de Cascais, em resposta enviada à TVI, nada esclarece:

"Informamos que o Hospital de Cascais não pode, nos termos legalmente salvaguardados, partilhar ou divulgar informações pessoais, designadamente do foro clínico, relativamente aos seus alegados utentes. Não obstante, gostaríamos de salientar que o Hospital de Cascais dispõe de procedimentos e protocolos de qualidade e segurança no sentido de assegurar as melhores práticas clínicas e de gestão hospitalar."

Bruno só regressou a casa duas semanas após as agressões. A covid-19 deixou sequelas físicas, mas o episódio de violência arrasou-o de todas as maneiras. Está a receber acompanhamento psiquiátrico no Hospital de Cascais, vai ainda ser encaminhado para cirurgia plástica e para o centro de reabilitação física do Alcoitão.

Cláudia Rosenbusch