Doze dos 13 seguranças de bares do Cais do Sodré, acusados de agredirem dezenas de clientes, entre 2009 e 2011, remeteram-se ao silêncio, no início do julgamento, que decorre no Tribunal Central de Lisboa.

Apenas um dos 13 seguranças, julgados por dezenas de crimes de ofensa à integridade física praticados sobre clientes e transeuntes, manifestou vontade de prestar declarações.

Um dos arguidos neste processo é Marcos Camargo, que foi condenado, em janeiro de 2015, a 21 anos de prisão por esfaquear mortalmente a mulher, Luana Camargo, de 28 anos, por não se conformar com a intenção de a vítima se divorciar dele. O caso ocorreu em maio de 2014, numa clínica dentária da rua Augusta, em Lisboa. O arguido está a cumprir a pena no Estabelecimento Prisional a Carregueira.

Violência a soco e pontapé

O processo principal contava inicialmente com 11 arguidos, mas foram apensados mais dois inquéritos, passando a ter 15 arguidos no total: 13 seguranças e duas sociedades que respondem por um crime de exercício ilícito de segurança privada.

Um dos apensos relata um episódio de violência ocorrido em 2013 na Discoteca Art, na Avenida 24 de Julho, em Lisboa. Um dos arguidos é acusado de esfaquear um cliente durante uma rixa, na qual outra pessoa que estava no interior do recinto de diversão noturna foi baleada num pé.

Segundo a acusação do Ministério Público, a que a agência Lusa teve acesso, os seguranças serão responsáveis por dezenas de agressões, algumas a soco e a pontapé na cabeça das vítimas, a maioria clientes dos espaços onde os arguidos trabalhavam.

Durante, pelo menos, os anos de 2009, 2010 e 2011, os referidos arguidos, ao mínimo desentendimento verbal com os clientes, passavam à agressão, atuando de uma forma violenta, quer pelo número de agressores, quer pelo recurso a facas, soqueiras, correntes e outros objetos”, sustenta o Ministério Público, indicando o nome de cerca de 30 ofendidos.

Na sequência de desentendimentos, os arguidos “contactavam-se via rádio e chegavam, inclusive, a fechar o bar onde exerciam funções para ajudar outros seguranças a agredir as pessoas com quem se desentendiam”, refere a acusação.

Impediam auxílio às vítimas

A acusação refere também que, nalguns casos, os arguidos faziam “apenas vigilância” e impediam “os transeuntes de prestar auxílio ao cidadão que estava a ser agredido” e “agrediam" quem tentasse ajudar as vítimas.

Aos envolvidos neste processo “juntavam-se outros indivíduos não identificados que habitualmente circulavam pela rua onde se situavam os bares da zona do Cais do Sodré”, que os arguidos “contactavam via rádio, para ajudar nas agressões, atuando em comunhão de esforços e entreajuda”.

Muitas das vítimas não apresentavam queixa, algumas por serem estrangeiras, e muitas outras não se mostravam capazes de reconhecer todos os agressores, devido ao número de agressores, à violência das agressões e ainda devido à estratégia utilizada pelos arguidos, que logo após cessadas as agressões, trocavam de roupa para dificultarem o reconhecimento pelas vítimas e, por vezes, ausentavam-se do local para não serem identificados”, frisa a acusação.

Os 13 seguranças estão acusados de dezenas de crimes de ofensa à integridade física qualificada e simples, e alguns vão responder também por detenção de arma proibida. No final da acusação estão descritos os nomes de quase três dezenas de ofendidos, entre homens e mulheres. Estão arroladas 46 testemunhas.