Nos últimos 15 anos, cerca de 50 mulheres do Barreiro apresentaram queixa do mesmo homem por agressão. O agressor foi diagnosticado com esquizofrenia, e já foi internado compulsivamente várias vezes, mas quando recebe alta hospitalar volta a atacar. O homem persegue e agride as vítimas sem razão aparente, apenas por serem mulheres, mas nunca foi a julgamento por nunca ter sido apanhado em flagrante.

O suspeito acabou detido pela Polícia Judiciária de Setúbal na quarta-feira. Presente ao tribunal do Barreiro na quinta-feira, o agressor ficou com apresentações diárias às autoridades e proibição de frequentar os concelhos do Barreiro e da Moita, onde ocorreram os factos. A TVI sabe que, neste momento, o homem já não está no Barreiro e que se mudou para uma localidade no distrito de Portalegre para viver com a mãe. Os episódios de violência, a que sujeitou várias mulheres, imprimiram nas vítimas um sentimento de terror. Uma dessas vítimas, Marta Ferreira, contou ao SOS24 como tudo começou.

Fisicamente fui agredida uma vez e depois recebi ameaças de morte pelo Facebook. Saí da escola às 11 e meia da manhã, apanhei o barco [de Lisboa para o Barreiro] porque ia almoçar com a minha madrinha (…). Quando lá cheguei, a minha madrinha abriu-me a porta do prédio e depois veio um homem atrás de mim, mas pensei que morava no prédio. Comecei a subir as escadas (…) e vejo que ele veio atrás de mim (…) na minha direção e começou aos murros, a espancar-me com toda a força. Nesse tempo só pensei como é que ia sair dali e começou a gritar”.

A jovem refere que, por sorte, estava um polícia a vigiar umas obras que decorriam à porta do prédio.

“O polícia deve ter ouvido os gritos, não sei, ou os homens das obras, e apanharam-no assim que ele sai a correr do prédio. Ele foi identificado pela Polícia, mas deixaram-no ir logo na altura. Eu é que tive de ir para o hospital, ficar lá três horas, tive que ir apresentar queixa e o senhor continuou com a sua vida como se nada tivesse acontecido”.

Marta Ferreira revela que ficou em choque, sobretudo porque não entender a razão de ser das agressões.

Normalmente, quando alguém agride outra pessoa tem um motivo ou diz-lhe alguma coisa, o porquê de estar a fazer o que está a fazer. E ele não me disse nada. Basicamente começou aos murros. E eu pensei: ‘O que é que fiz para estar a merecer isto? Não percebi.”

“Disse-me que as mulheres do Barreiro deviam morrer"

Para Marta Ferreira, o pesadelo não acabou no dia em que foi agredida. A jovem partilhou o testemunho nas redes socias e, logo de seguida, começou a receber ameaças de morte.

Publiquei para os meus amigos saberem que tinham de ter cuidado com este homem e que ele andava à solta e que agredia mulheres. Depois de eu publicar, muita gente publicou (…) e ele deve ter visto, provavelmente, e mandou-me ameaças no Facebook, a dizer que as mulheres do Barreiro mereciam morrer, que me ia matar, coisas assim que não cabem na cabeça de ninguém.”

Marta Ferreira ouviu relatos de raparigas que conhece e que desconhecia também já terem sido agredidas pelo mesmo homem. Para além das consequências físicas, sofreram também consequências psicológicas que perduram.

Eu nem fui o pior caso. Há raparigas que ficaram mesmo muito mal, que estão muito traumatizadas, que têm de tomar antidepressivos, que têm de fazer terapia. Eu também ando na terapia. É uma coisa que marca, que traumatiza as pessoas”.

A jovem sublinha que quem sofreu as agressões vive um clima de terror. O homem foi detido pela PJ há dois dias, mas libertado pelo tribunal. As vítimas mostram-se preocupadas com esta decisão. Marta Ferreira diz mesmo que é uma “falha do sistema” de justiça.

Eu, primeiro, comecei por falar com outras vítimas para saber de que maneira elas estavam a conseguir andar para a frente e nenhuma conseguiu porque ele ainda anda na rua. Elas estão há três quatro anos à espera de ir a tribunal, à espera que se faça justiça, e não conseguem. E eu só penso: ‘O que é que se passa aqui?’ Há uma falha no sistema. Como é que uma pessoa com tantos casos de agressão ainda anda na via pública?”, questiona.

Defender as vítimas e devolver a segurança à população

Para ajudar as mulheres que são vítimas de agressões foi criada uma associação que lhes presta auxílio. João Silva, da associação Ação contra Violência de Género do Barreiro, foi uma das pessoas que ajudou a tornar o problema num caso mediático e, de certa forma, conseguiu que se fizesse pressão para que fossem tomadas medidas judiciais, de modo a que a paz e a segurança sejam devolvidas à população.

A associação teve início há um mês (…) Houve uma reunião e impulsionámos uma manifestação em frente ao Tribunal do Barreiro a pedir o internamento do indivíduo. Depois dessa reunião, decidimos criar este grupo para dar apoio às vítimas e aos pais para impedir que isto se torne um problema mais grave na sociedade e, neste caso, no Barreiro”.

João Silva confirma que as agressões são da autoria da mesma pessoa, que está perfeitamente identificada. Começaram há 15 anos, com mais de 50 queixas apresentadas nas autoridades competentes e “com outras queixas que não se ligam ao mesmo indivíduo porque as pessoas ou não conseguem identificar ou não ligam o agressor a esse indivíduo”, sublinha.

O homem de 31 anos foi detido pela PJ e presente a tribunal. Ficou com apresentações diárias e proibido de ir ao Barreiro. Mudou-se para casa da mãe no distrito de Portalegre. As vítimas, por enquanto, respiram de alívio.

O suspeito está indiciado pelos crimes de coação sexual, abuso sexual de crianças e violação de domicílio ou perturbação da vida privada.