O presidente da Federação de Agricultores do Distrito de Leiria (FADL), António Ferraria, disse à agência Lusa que a seca está «a arrasar os pastos e as culturas da região» e defendeu a declaração de calamidade pública.

«A situação é péssima em todo o distrito. O trigo, a aveia e o trevo não conseguem vingar com a falta de água e com o frio e a geada», explicou António Ferraria, defendendo que o Governo deveria pedir à União Europeia a declaração de calamidade pública.

O presidente da FADL adiantou que a ausência de pasto está a ter impacto nos custos de produção, uma vez que «as pessoas já estão a alimentar os animais com fenos e palhas que estavam guardadas para o próximo ano e a utilizar mais ração».

Uma situação preocupante, «porque a maior parte da palha já vem de fora: agora tem que se importar mais e o custo de produção vai ser muito difícil de suportar», disse.

A seca está «a atingir fortemente culturas como os pomares, que podem ser encontrados em zonas como Porto de Mós, Leiria e na zona Oeste», mas também «os produtos hortícolas», com especial incidência no Vale do Lis, que ocupa um território entre Leiria e Marinha Grande.

O próprio presidente da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis (ARBVL), Uziel Carvalho, disse à Lusa que, naquela zona, entre 30 a 40 por cento das culturas forrageiras - o pasto que serve para alimentar os animais - «estão comprometidas devido à seca».

Por outro lado, Uziel Carvalho frisou que, ao contrário de outros anos, a ARBVL já está «a fornecer água a alguns agricultores, algo que [habitualmente] só acontece em meados de abril, às vezes em maio».

O responsável acrescentou que há registo de temperaturas de sete graus negativos no Vale do Lis.

«Eu, que sou agricultor há mais de 30 anos, não tenho memória de tal coisa, sobretudo associado à seca», afirmou o presidente da ARBVL, entidade que possui mais de 3.000 associados, entre os quais se contam cerca de 150 agricultores profissionais.

Sobre a situação registada no Vale do Lis, António Ferraria alertou para as culturas que ali têm forte presença, como o milho, que poderão estar também em perigo, «caso continue sem chover».

A FADL, afeta à Confederação Nacional de Agricultores, possui 2.000 mil associados no distrito de Leiria.

Também o presidente da Associação dos Criadores de Gado da Beira Alta, António Lopes, se mostrou «preocupado» com a falta de pastos para os animais, considerando que a situação pode ficar «insuportável» se não chover nos próximos 15 dias.

«Está a ser feita uma avaliação e há agricultores que estão a sofrer mais do que outros, dependendo da sua dimensão e das suas condições financeiras. Mas, a situação é muito preocupante e, se não chover nos próximos 15 dias, poderá mesmo ficar insuportável», afirmou à agência Lusa.

A associação, sediada em Viseu, tem cinco mil associados, a maior parte dos quais proprietários de pequenas explorações.

António Lopes contou que têm chegado à associação muitos lamentos da parte dos agricultores que têm gado em pastoreio, nomeadamente ovelhas que produzem leite para o fabrico do queijo da serra.

«Neste momento, os ovinos em pastoreio estão com muita dificuldades. Produzem muito menos leite e de menor qualidade, porque não há verdura nos campos, os pastos estão todos secos», lamentou.

Os agricultores vão contornando a seca alimentando os animais com rações, fenos e palhas, o que, no entanto, aumenta os custos de produção, «provocando-lhes dificuldades financeiras», acrescentou.

Segundo António Lopes, praticamente todos os associados estão a ser afetados pela seca, porque «são poucos os agricultores que fazem a criação de gado de forma intensiva» na região.

«Temos na nossa associação três ou quatro agricultores cujos animais não saem dos estábulos. A esses a seca não os afeta. Mas os outros trazem o gado no exterior e estão com muitas dificuldades», sublinhou.