Bruno de Carvalho, ex-presidente do Sporting, está a ser ouvido no tribunal de Monsanto, esta sexta-feira, por causa do ataque a Alcochete. 

Em declarações ao tribunal, Bruno de Carvalho começou por dizer que, "quase dois anos depois" não compreende como está "na qualidade de arguido”: "não sei como passei de testemunha para arguido 44”.

"É a primeira vez que me posso dirigir ao tribunal, e acho que devem ficar claras estas situações: nunca soube de absolutamente nada de nada”, começou por dizer Bruno de Carvalho para depois acrescentar que "aquilo que se passou em Alcochete foi um crime hediondo, é lamentável é indescritível aquilo que as pessoas passaram”.

O antigo presidente leonino, que voltou a classificar a invasão à academia, ocorrida em 15 de maio de 2018, como “um crime hediondo e vergonhoso”, garantiu não ter “qualquer conhecimento ou suspeita” de que algo do género pudesse acontecer.

O ex-presidente do Sporting pediu ainda que nas suas respostas "nunca seja visto qualquer minimização sobre o que aconteceu em Alcochete e o que foi feito aos jogadores" e a si e à sua família.

Recordando o que aconteceu na Academia, Bruno de Carvalho diz que só soube o que aconteceu quando José Ribeiro interrompeu a reunião em que estava em Alvalade. 

Bruno de Carvalho acusa Jorge Jesus de retirar “medidas de segurança”

O antigo presidente do Sporting disse ainda em tribunal que, se o treinador Jorge Jesus não tivesse retirado “algumas medidas de segurança”, a invasão à Academia de Alcochete não teria sido possível.

“Nada disto teria acontecido se as medidas de segurança que eu tinha implementado não tivessem sido retiradas”, afirmou, explicando que Ricardo Gonçalves, chefe de segurança à data dos acontecimentos (15 de maio de 2018), lhe disse que Jorge Jesus mandou retirar no início da época, à sua revelia, algumas medidas de segurança que tinham sido implementadas, como o cartão de passagem pelas portas eletrónicas.

Na 35.ª sessão do julgamento que decorre no tribunal de Monsanto, em Lisboa, o ex-presidente do clube de Alvalade vincou ainda ter sido “sempre contra” a ida de adeptos ao centro de treinos dos ‘leões’ e que essa situação só foi possível devido a um precedente aberto pelo antigo técnico do clube.

“O grande mal foi, em dezembro de 2017, depois de eu ter dito não, o senhor Jorge Jesus ter dito sim, nas minhas costas, e deixar as claques entrarem na academia”, adiantou, acrescentando: “O problema é a primeira vez, e no meu mandato aconteceu uma vez e à minha revelia.”

Nesse sentido, o antigo líder leonino revelou ter chamado de seguida o treinador Jorge Jesus e lhe ter dito que, “na próxima vez” que o desautorizasse, “ia para a rua”.

Paralelamente, Bruno de Carvalho assegurou não ter sido responsável pela alteração da hora do treino de dia 15 de maio de 2018 para a tarde, atribuindo essa decisão a Jorge Jesus na reunião da véspera.

“Nem sugeri, nem tinha de a sugerir [a alteração da hora de treino]. É uma invenção total. Foi ele que, falando com o [adjunto] Raul José, explicou que poderia receber um ‘papelinho’ [nota de culpa] a dizer que estava suspenso. Eu respondi que ia reunir com a equipa jurídica de manhã, mas que isso não queria dizer que havia papelinho. O que ele entendeu é que de manhã vão fazer o papel, por isso passou o treino para a tarde”, resumiu.

Já na parte final do depoimento, o antigo presidente disse que foi o “único despedido no meio disto tudo”, admitindo que no dia 14 de maio queria despedir duas pessoas: “Um acabou condecorado [Jorge Jesus] e outro é hoje presidente [Frederico Varandas]”.

Por outro lado, Bruno de Carvalho referiu na sessão de hoje a existência de mal-estar entre Jorge Jesus e o plantel, ao revelar o que disse aos jogadores na reunião, do dia seguinte à derrota (2-1) frente ao Marítimo.

“Na reunião de 14 de maio queria dizer aos jogadores que o Jorge Jesus não ia ser mais o treinador e até queria dizer mais: ‘Sei que vão todos fazer um jantar de comemoração’”, afirmou.

Finalmente, o ex-presidente do Sporting contestou a acusação da autoria moral dos 97 crimes formulada pelo Ministério Público e a ideia de que ele seria responsável por juntar as pessoas em Alcochete a uma hora específica para serem alvo do ataque.

“As pessoas todas trabalhavam na Academia. Uma possível teoria em que eu juntei as pessoas para serem agredidas não faz sentido. Não atraí ninguém que não trabalhasse na Academia. Não fiz nada de nada”, concluiu.

Bruno de Carvalho recordou ainda que os jogadores quando saiam à noite - "apesar de não poderem" - e tinham problemas, "era à claque que pediam ajuda".

“Há um arguido ali atrás que à minha frente cumprimentava o William de Carvalho. Temos de perceber o nível de intimidade... Se for condenado serei o criminoso mais imbecil do mundo”, afirmou.

Sobre a Madeira

Bruno de Carvalho, que liderou o clube entre março de 2013 e junho de 2018, admitiu ter assistido aos incidentes que se seguiram à derrota (2-1) do Sporting na Madeira, “pela televisão” e disse ter ficado com a ideia de que existia um problema na Juventude Leonina entre Fernando Mendes e Nuno Mendes, conhecido por Mustafá, antigo e atual presidentes da maior claque do clube, respetivamente, e ambos também arguidos no processo.

Bruno de Carvalho referiu que na reunião que teve com o plantel no dia 14 de maio, depois da derrota no Funchal, perguntou aos futebolistas Acuña e Battaglia “porque é que se tinham metido logo com o antigo líder da claque, no aeroporto da Madeira”.

O ex-presidente do Sporting, para quem o futebolista William de Carvalho é “useiro e vezeiro a mentir”, disse ainda que o atual jogador do Bétis de Sevilha o acusou de ser o responsável pelo ataque.

“Assim que cheguei à academia [depois do ataque], o William disse-me: ‘Pensa que não sabemos que foi você que mandou fazer isto’”, referiu.

O arguido disse ter estado, a pedido de André Geraldes, ‘team manager’ do clube à data, numa reunião “que não teve ponta por onde pegasse”, na ‘casinha’, a sede da Juve Leo, em 07 de abril de 2018, dois dias depois da derrota (2-0) do Sporting no terreno do Atlético de Madrid, para a Liga Europa.

“Estavam dezenas de pessoas, todas aos gritos, muitas a fumar charros, quiseram agredir-me, o primeiro que me quis agredir foi o Camará, que é o mais ‘pequenino’ deles todos. Até disseram que iam pôr tarjas contra mim”, contou, acrescentando ter dito “façam o que quiserem” porque o que queria “era fugir dali”.

Admitindo que ele e Fernando Mendes não gostavam um do outro, Bruno de Carvalho explicou que a relação com ‘Mustafá’ era de respeito.

“Conseguimos ganhar uma relação de respeito, mas a verdade dos factos é que eu acabei por gostar do Nuno Mendes porque ele é tão genuíno, que nos faz rir. Sempre me respeitou e eu o respeitei. Ele era sempre mais uma solução do que um problema”, referiu, descartando a hipótese de o presidente da Juve Leo ser “uma espécie de guarda pretoriana”.

Bruno de Carvalho diz ainda que "foi simpático Fernando Barata (Mendes) dizer que havia respeito um pelo outro" e que no dia da confusão no aeroporto, este lhe ligou.

“O Fernando Mendes nunca me tinha telefonado, quando me liga (noite da Madeira) estou com um bebé ao lado. O tribunal não perguntou, mas eu tinha uma filha a morrer e quando ele me liga não podia estar a conversar. É lógico se me vai dar a oportunidade na mão de ter a pessoa que tinha visto no aeroporto já agora queria escutar. Mas não consegui, não sei se pelo facto da pessoa estar embriagada, e embriagada é ser simpático, porque estaria num nível mais elevado”.

Esta não foi, no entanto, a única vez que Bruno de Carvalho e Fernando Mendes conversaram e que acabou por concluir que "havia conflitos entre o Fernando Mendes e o Nuno Mendes”.

“Ele começa a querer entrar em explicações, mas era tudo tão descabido, que nós falamos mais vezes. E na segunda vez, o chip era distinto e só falava do Mustafá e da Juve Leo. Não saímos disto. É porque no Sporting os problemas vão sempre abundando e um dos problemas das forças policiais era a liderança da Juventude Leonina", afirmou, acrescentando que, meses antes, um spotter lhe tinha dito que "para eles, forças de segurança, o Mustafá devia manter-se na liderança e seria muito importante porque se estava a preparar uma entrada na academia de elementos da extrema direita”.

Advogado de Bruno de Carvalho diz que "autoria moral" é "aborto jurídico"

O advogado de Bruno de Carvalho considerou que a “existência de autores morais” no caso da invasão à academia do Sporting, em Alcochete, “é um aborto jurídico”, que começou hoje a ser desfeito.

“Isto é uma farsa que foi montada, a existência de autores morais neste processo é uma farsa metida à pressão”, disse Miguel Fonseca, no final da sessão do julgamento marcada pelo depoimento do ex-presidente do Sporting, acusado da autoria moral de 97 crimes.

O advogado comentou também a saída em liberdade de Nuno Mendes, conhecido por Mustafá, líder da claque Juventude Leonina, detido preventivamente desde maio de 2019, no âmbito do processo, por alegado tráfico de droga, e também acusado da autoria moral de 97 crimes.

“Foi o desfazer de uma aberração jurídica que foi criada com aquele cidadão e que hoje foi desfeita, este homem não deveria ter sido privado da liberdade por uma única hora”, afirmou.

Miguel Fonseca referiu que na invasão à academia, ocorrida em 15 de maio 2018, houve “autores materiais, porque os jogadores foram agredidos e não deviam ter sido”, mas criticou a existência de supostos autores morais.

“Irem buscar autores é de doença mental, estamos no campo do delírio, quem procurou autores morais fez um aborto jurídico”, disse, acrescentando: “Com a libertação desse homem [Mustafá] cai parte de uma farsa”.

Miguel Fonseca garantiu que Bruno de Carvalho, o 22.º e último arguido ouvido pelo coletivo, “esclareceu tudo o que o tribunal queria ver esclarecido”.

“Eu como advogado dei-lhe carta branca para falar, porque uma das poucas vergonhas que houve até agora foi destruírem a vida deste homem sem nunca lhe terem colocado uma questão concreta”, afirmou.

O antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho, tal como Mustafá, e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos, responde, como autor moral, por 40 crimes de ameaça gravada, por 19 crimes de ofensas à integridade física qualificadas e por 38 crimes de sequestro (estes 97 crimes classificados como terrorismo, puníveis com pena de prisão de dois a 10 anos ou com as penas correspondentes a cada um dos crimes, agravadas em um terço nos seus limites mínimo e máximo, se estas forem iguais ou superiores).

Os restantes arguidos (41) são acusados da coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Vânia Ramos Daniela Rodrigues / com Lusa