O julgamento do processo do ataque à academia de futebol do Sporting, em Alcochete, começa esta segunda-feira no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, com 44 arguidos, entre os quais o ex-presidente do clube Bruno de Carvalho.

O processo pertence ao Tribunal de Almada, mas por “questões de logística e de segurança” realiza-se em Monsanto, em Lisboa, e terá como presidente do coletivo de juízes Sílvia Pires, que é ainda constituído por Fátima Almeida e Dora Fernandes. O Ministério Público está representado pela procuradora Fernanda Matias.

Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos do Sporting, é o único dos 44 arguidos que vai prestar declarações em tribunal.

Bruno de Carvalho, representado pelo advogado Miguel Fonseca, identificou-se em tribunal como comentador desportivo: "Faço comentários desportivos", disse à juíza.

O antigo líder da claque Juve Leo, Fernando Mendes, é o único ausente, por se encontrar a realizar tratamentos médicos.

À entrada do tribunal, o advogado de quatro dos arguidos, Aníbal Pinto, antecipou a estratégia dos seus clientes, que vai passar pelo silêncio até a produção de prova por parte do Ministério Público.  

É mais fácil ver o jogo e depois jogar a cartada final. Prevendo a lei a possibilidade de os arguidos falarem no fim, sugiro sempre aos meus clientes que se remetam ao silêncio até ao final. O ónus da prova é do Ministério Público. O que aconteceu é factual, há imagens, mas a dificuldade é saber quem fez e em que condições fez", argumentou Aníbal Pinto, dizendo ainda que a maioria dos jovens está arrependido.

Já Miguel Matias, que representa um arguido de 20 anos, queixou-se à juíza Sílvia Pires que os advogados e os seus pertences foram revistados à entrada, anunciando, ainda, que vai apresentar queixa na Ordem.

Em 1 de agosto, o juiz de instrução criminal Carlos Delca pronunciou (decidiu levar a julgamento) todos os arguidos nos exatos termos da acusação do Ministério Público (MP), deduzida pela procuradora Cândida Vilar, depois de vários arguidos requererem abertura de instrução, fase facultativa que visa decidir se o processo segue e em que moldes para julgamento.

Na decisão instrutória, este juiz determinou que todos os arguidos que se mantinham em prisão preventiva passassem para prisão domiciliária (OPHVE), exceto o líder da claque Juventude Leonina, ‘Mustafá’, que continua em prisão preventiva.

Com Obrigação de Permanência na Habitação, com Vigilância Eletrónica (OPHVE), permanecem 36 dos 44 arguidos, depois de Elton Camará ter cortado a pulseira eletrónica, o que levou um juiz a ordenar a prisão preventiva deste arguido.

Bruno de Carvalho, que até esse dia estava sujeito à medida de coação de apresentações diárias às autoridades e ao pagamento de uma caução de 70.000 euros, passou a estar obrigado a apresentar-se quinzenalmente.

A acusação do Ministério Público (MP), assinada pela procuradora Cândida Vilar, conta que, em 15 de maio de 2018, a equipa de futebol do Sporting foi atacada na academia do clube, em Alcochete, distrito de Setúbal, por elementos do grupo organizado de adeptos da claque Juventude Leonina e do subgrupo Casuais (Casuals), que agrediram técnicos, jogadores e ‘staff’.

Bruno de Carvalho, Mustafá e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Os três arguidos respondem ainda por um crime de detenção de arma proibida agravado e Mustafá também por um crime de tráfico de estupefacientes.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à academia, o MP imputa-lhes a coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Estes 41 arguidos vão responder ainda por dois crimes de dano com violência, por um crime de detenção de arma proibida agravado e por um crime de introdução em lugar vedado ao público.

Para a procuradora Cândida Vilar, que viu a acusação do MP confirmada pelo juiz de instrução criminal Carlos Delca, o então presidente do clube, Bruno de Carvalho, Mustafá e Bruno Jacinto estavam a par do plano e "nada fizeram" para impedir o ataque.

"Bruno Jacinto, Bruno de Carvalho e Nuno Mendes [Mustafá] conheciam o plano delineado pelos restantes primeiros 41 arguidos e determinaram-nos à prática dos crimes de ameaça, ofensa à integridade física e sequestro", lê-se na acusação.

/ AM/CM - EM ATUALIZAÇÃO