O início da fase de instrução do processo sobre o ataque à Academia do Sporting, em Alcochete, foi, esta terça-feira, interrompido devido a um engano dos serviços prisionais, que transportaram os arguidos para o Montijo e não para Lisboa.

O processo, cujos factos remontam a 15 de maio de 2018, pertence ao Tribunal de Instrução Criminal (TIC) do Barreiro, mas, por razões de logística e de instalações, esta fase instrutória vai decorrer na nova sala do edifício A do Campus da Justiça, no Parque das Nações, na presença de jornalistas.

Após dois adiamentos e apesar de enfrentar um novo pedido de escusa por parte de um advogado, o juiz Carlos Delca decidiu avançar com as diligências, declarando o caráter "de natureza urgente" do processo, uma vez que o prazo para a conclusão da instrução é 21 de setembro, e alegando que aquela é uma "forma hábil de empatar o tempo" por parte dos arguidos.

O ex-presidente do Sporting Bruno de Carvalho fez-se representar na sessão pelo advogado Miguel Fonseca, que se opôs à presença da comunicação social na sala, ao que se seguiram mais requerimentos alegando a nulidade do início da fase da instrução, devido à impossibilidade de comparência dos arguidos presos preventivamente.

A procuradora do Ministério Público Cândida Vilar contestou o requerimento do advogado de Bruno de Carvalho, manifestando surpresa devido ao facto de o antigo presidente do Sporting realizar "entrevistas sucessivas" a vários órgãos de comunicação social.

A sessão acabou por ser interrompida para almoço, aquando do anúncio do engano dos serviços prisionais, que transportaram para o estabelecimento prisional do Montijo os quatro arguidos que deviam ser ouvidos, pensando que a sessão teria lugar no Tribunal do Barreiro, onde decorreram os primeiros interrogatórios judiciais.

Durante a tarde, terá início a fase de instrução, em que está previsto serem ouvidos quatro arguidos da invasão à Academia do Sporting, em Alcochete, sendo eles Hugo Ribeiro, Celso Cordeiro, Sérgio Santos e Elton Camará.

O início da fase de instrução do ataque à Academia do Sporting, em Alcochete, no distrito de Setúbal, já teve dois adiamentos, originados pela apresentação, por parte de advogados de arguidos, de três pedidos de afastamento do juiz Carlos Delca do processo, todos indeferidos pelo Tribunal da Relação de Lisboa (TRL).

Para esta terça-feira, estavam agendados o interrogatório de Hugo Ribeiro Celso Cordeiro Sérgio Santos e Elton Camará. Para quarta, entre as 10:00 e 14:00, estão marcados, respetivamente, os interrogatórios a Eduardo Nicodemus e ao antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho.

Em prisão preventiva mantêm-se 36 dos 44 arguidos no processo, incluindo o líder da claque Juventude Leonina (Juve Leo), Nuno Vieira Mendes, conhecido como 'Mustafá', que viu em 06 de junho o Supremo Tribunal de Justiça negar-lhe uma providência de 'habeas corpus' (pedido de libertação imediata) e o ex-oficial de ligação aos adeptos Bruno Jacinto.

O antigo presidente da claque Juve Leo Fernando Mendes mantém-se ainda em prisão preventiva, uma vez que o juiz Carlos Delca ainda não decidiu sobre o requerimento apresentado pela procuradora Cândida Vilar, no qual pede que este arguido seja posto em liberdade, com base num problema de saúde grave.

Em janeiro deste ano, o TIC do Barreiro declarou a especial complexidade do processo da invasão à Academia do Sporting, pedida pelo MP, o que, consequentemente, dilatou o prazo de prisão preventiva dos arguidos que se encontram presos.

Esta decisão teve como consequência direta o alargamento do prazo (até 21 de setembro) para que o TIC do Barreiro profira a decisão instrutória (se o processo segue para julgamento), sem que 23 dos arguidos sejam colocados em liberdade.

Os primeiros 23 detidos pela invasão à Academia e consequentes agressões a futebolistas, técnicos e outros elementos da equipa 'leonina' ficaram todos sujeitos à medida de coação de prisão preventiva em 21 de maio do ano passado.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à Academia do Sporting, em Alcochete, em 15 de maio de 2018, o MP imputa-lhes na acusação a coautoria de crimes de terrorismo, de 40 crimes de ameaça agravada, de 38 crimes de sequestro, de dois crimes de dano com violência, de um crime de detenção de arma proibida agravado e de um de introdução em lugar vedado ao público.

O antigo presidente do clube Bruno de Carvalho, Mustafá e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 de ofensa à integridade física qualificada, de 38 de sequestro, de um crime de detenção de arma proibida e de crimes que são classificados como terrorismo, não quantificados. Mustafá está também acusado de um crime de tráfico de droga.