O ponto de partida é Covas do Rio, o destino Aldeia da Pena. Um relance pelo horizonte irregular oferece um recorte em bruto de arestas soltas. Mas a natureza rude do local não espantou a beleza nem a vida. E deixou a vegetação tomar conta de maior parte da geografia, apesar da vertigem telúrica, que empurrou as povoações para os vales.

Entre o abrigo das montanhas, a vida começa cedo. Em Covas do Rio, concelho de São Pedro do Sul, a chegada do carro do padeiro agita a tranquilidade. Abre-se a porta de trás da carrinha e o cheiro a pão e bolos liberta-se e ganha nitidez na matriz silvestre do ar, quase imaculado.

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Um grupo de 16 forasteiros reúne-se na orla da aldeia. A maioria vem da zona do Porto, mas há também quem venha de Viseu e de Lisboa, no caso dos repórteres do PortugalDiário. Longe do bulício urbano, sente-se o impacto do oxigénio fresco nos pulmões.

Maria Magalhães, guia da empresa Terra Batida, que organiza a caminhada, aponta ao longe. Com a direcção do seu dedo faz um apelo à imaginação. «Depois daquela garganta está a Aldeia da Pena». O trajecto aperta-se entre dois maciços montanhosos. A vegetação dissimula-o, mas, entre os vincos do xisto, um fio de Ariadne líquido revela-o.

Encosta acima

O grupo segue pela vereda estreita. A água é uma espécie de radar sonoro, que sobreviveu aos vestígios de antigos moinhos. Quando mais perto se está da garganta que o dedo de Maria Magalhães sublinhara, mais o caminho se aperta. As mochilas parecem ficar mais sensíveis à gravidade. Mas tudo parece ter também um efeito inversamente oposto no ânimo do grupo, cujo esforço é recompensado com a visão da Pena. A Aldeia da Pena, que se oferece por entre o vinco estreito de duas moles de xisto.

Aninhada dentro de um caldeirão rochoso, suscita curiosidade. «Quem se terá lembrado de vir para aqui?», ouve-se. A opção parece inexplicável, para quem está habituado às proximidades que a cidade oferece. Mas ali, aparentemente, longe de tudo, parece estar-se perto da tranquilidade perdida das cidades.

Com a visão sossegadora da aldeia, a erva ensolarada parece o sítio perfeito para descansar e aliviar o peso da comida nas mochilas, antes de entrar pelas suas ruas estreitas e ultrapassar a sugestiva placa no início do caminho percorrido. «O caminho onde o morto matou o vivo».

Lenda ou tragédia?

Noutros tempos, muito antes do conjunto de casas ter ficado reduzido aos oito habitantes, que actualmente lhe sobreviveram, a aldeia não tinha cemitério. Quem morresse tinha que empreender uma última viagem até Covas do Rio pelos desequilíbrios do carreiro que segue ao lado da linha de água. Numa dessas vezes, reza a história, o caixão atraído pela vertigem soltou-se com um dos seus carregadores atrás. E a jornada, que começara com um morto, terminou com dois. O caminho acabou baptizado pelo trágico incidente.

À noite, as luzes acendem-se em poucas casas. Durante o dia, o movimento gira em torno de dois pólos. Na casa da dona Augusta e do senhor António, que regressaram, depois de décadas de ausência por Lisboa, para abrir uma pequena loja de artesanato, e de um casal mais jovem, que se ocupa de um restaurante no retiro montanhoso, onde também vendem miniaturas de xisto, e das duas filhas que já nasceram ali.

Dona Augusta conta que há muitas décadas atrás tinha de vencer diariamente o caminho para ir para a escola. O senhor José explica que tinha que fazer o mesmo para vir visitá-la, quando ainda namoravam.

O caminho onde o morto matou o vivo foi substituído agora por outro, que talha uma das encostas e permite aos carros chegar ao local. Mas o trilho ancestral continua lá, à espera de quem se atrever a visitá-lo, numa homenagem à vida que passou durante muito tempo por ali.
Hugo Beleza