Espinha bífida, fenda no palato, membros deficientes, atrasos cognitivos e autismo são alguns dos riscos para as crianças cuja mãe tomou medicamentos com valproato de sódio durante a gravidez, como o Depakine.

A TVI conseguiu comprar Depakine em duas farmácias da grande Lisboa sem apresentar qualquer receita médica.

O caso é tão grave que a agência europeia do medicamento emitiu normas restritas para a prescrição e venda destes fármacos. Regras essas que, em Portugal, parecem não estar a ser cumpridas.

As vítimas do valproato de sódio já são milhares por todo o mundo. As familias exigem indeminizações milionárias ao laboratório francês, indeminizações que não pagam a culpa que estas mães sentem por terem prejudicado a gestação saudável dos seus filhos.

Sandra Mantinha tem dois filhos, duas das vítimas da toma de Depakine durante a gravidez. A visada explica que em 1997, 1998 e 1999 não havia qualquer informação sobre os perigos da toma do medicamento durante a gravidez. Sandra Mantinha diz ainda que durante um ano, antes de engravidar pela primeira vez, procurou informar-se junto de vários médicos sobre os riscos da medicação em causa, mas todos lhe disseram que não poderia interromper o tratamento para a epilepsia à base de Depakine, que já fazia há vários anos.

Todos me disseram que não podia parar a medicação. Não havia informação nenhuma no folheto”, explica Sandra Mantinha.

A emigrante portuguesa explica ainda que, em Portugal, a compra do medicamento é facilitada nas farmácias e lembra que na última vez que regressou ao país adquiriu a medicação, sem receita, numa farmácia no alto Alentejo.

Este medicamento vende-se como bombons”, garante a visada.

 

A bastonária da Ordem dos Farmacêuticos explica que não deveria ser possível comprar Depakine, em Portugal, sem receita médica. Ana Paula Martins acrescenta ainda que este fármaco está sob uma vigilância especial que deveria ser seguida em todas as farmácias portuguesas.

Isto não devia poder acontecer”, reitera a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos.

A TVI conseguiu comprar o Depakine em duas farmácias da zona da grande Lisboa. A bastonária condena a prática adotada pelos dois estabelecimentos e diz mesmo que se o caso acontecesse “nem que fosse só numa” farmácia já seria motivo para que a Ordem dos Farmacêuticos investigasse esta situação.

Estes medicamentos estão sob uma vigilância especial”, garante Ana Paula Martins.

 

António Lourenço explica que praticamente todos os antiepiléticos têm riscos de malformações. Ainda assim o responsável do Infarmed, entidade reguladora dos fármacos comercializados em Portugal, lembra que primeiros artigos que alertam para os riscos da toma de antiepiléticos durante a gravidez para o feto só foram publicados nos últimos anos da primeira década do século XXI (entre 2004 e 2008). Período postulo às gravidezes de Sandra Mantinha, visada na reportagem. António Lourenço garante que o facto de algumas das embalagens de Depakine terem um cartão de alerta, destinado ao doente, e outras não se deve a uma questão de escoamento do fármaco dos armazéns das farmacêuticas, dado que esta é uma medida, relativamente recente e com um elevado grau de complexidade. O especialista não esconde que “este é um assunto sério e grave”.

Quase todos os antiepiléticos dão problemas de malformações”, evidencia António Lourenço.

 

Garcia Pereira explica, independentemente, da culpabilidade das farmacêuticas, infarmed ou até mesmo das farmácias portuguesas não admissível que mais de 20 anos ainda continuem a ser geradas crianças com malformações devido aos efeitos secundários do Depakine, quando tomado durante uma gravidez.

É inacreditável que passados tantos continuem a ser geradas crianças com malformações”, lembra o jurista.

O jurista lembra ainda que o que está em causa nesta situação são vidas de famílias que ficam “completamente despedaçadas”.

Estamos a falar de filhos, pais e mães com as vítimas completamente despedaçadas”, refere Garcia Pereira.

 

Márcia Sobral é a autora da reportagem que expôs os riscos da toma do Depakine durante uma gravidez. A jornalista explica como teve acesso ao fármaco em farmácias portuguesas sem qualquer receita. Márcia Sobral diz mesmo que comprou o medicamento como se estivesse a comprar um simples paracetamol.

Foi uma venda completamente normal como se fossem Benurons. A primeira coisa que nos disseram foi: estamos informados, mas vendemos”, explica Márcia Sobral.

 

André Dias Pereira, membro do Centro Biomédico da Universidade de Coimbra, enaltece os benefícios que o desenvolvimento farmacêutico trouxe à vida humana.

É preciso que os médicos não deixem que haja esta falta de informação nas doentes com epilepsia", lembra o especialista.

O especialista evidencia ainda as diferenças entre o que sucede em Portugal e em França, onde um consumidor pode ser mais facilmente ressarcido, caso se defina que um fármaco foi causa de um problema.

Temos muito a aprender com o que se faz em França”, garante André Dias Pereira.