Pais e encarregados de educação criticam a ideia do Governo de os alunos do ensino secundário poderem regressar à escola dentro de um mês, temendo que os filhos fiquem mais expostos a infeção com o novo coronavírus.

O primeiro-ministro apontou o dia 4 de maio como data limite para conseguir cumprir o calendário escolar do ensino secundário com o eventual recomeço das aulas presenciais.

Para a Federação das Associações de Pais de Vila Nova de Gaia (Fedapagaia) esta é uma “ideia inconcebível” que pode pôr em risco as famílias, tendo em conta as recentes declarações da Ministra da Saúde de ainda não haver “luz ao fundo do túnel” no combate ao novo coronavírus.

Só por causa dos exames de acesso ao ensino superior, vamos colocar alguns alunos na escola e outros em casa. A nosso ver, ou bem que há condições para irem todos ou então não vai ninguém”, criticou José Cardoso, presidente da Fedapagaia, em declarações à Lusa.

Segundo José Cardoso, a Fedapagaia fez um inquérito online e vários pais afirmaram que não deixarão os filhos ir à escola caso reabram: “Em circunstância alguma os pais irão aceitar o retorno das aulas presenciais neste ano letivo, pelo que a data de 4 de maio que está a ser equacionada não poderá ter acolhimento”.

O representante dos pais lembrou ainda que a opção das aulas presenciais para os alunos do secundário iria trazer uma situação caricata para as famílias que têm mais do que um filho.

Íamos ter casos em que um deles ia à escola e o outro ficava em casa sob proteção o que impossibilitaria que se garantisse a segurança dos que ficam em casa pois teríamos sempre uma “porta aberta” para a propagação do vírus através das escolas”, alertou José Cardoso.

Também Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), disse à Lusa que alguns pais já fizeram saber que os seus filhos não irão à escola enquanto a pandemia de Covid-19 se mantiver tal como está.

Dizem que preferem que os filhos chumbem de ano, se for caso disso, a terem de correr o risco de os filhos ficarem contaminados”, contou à Lusa.

Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional e Dirigentes Escolares (ANDE), lembrou que a reabertura das escolas para receber os alunos do secundário implicaria outros aspetos, que vão desde existirem transportes públicos para todos os alunos, até à logística dentro das próprias escolas.

As turmas têm de ser divididas em grupos mais pequenos, por causa da distância social, o que implicará ter mais professores disponíveis para o mesmo grupo de alunos”, alertou.

No entanto, Manuel Pereira duvida que dentro de um mês a disseminação da doença permita a reabertura das escolas. Para Manuel Pereira, essa é uma “visão muito otimista”.

Para o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, a reabertura das escolas só deverá acontecer caso haja garantias de segurança por parte das autoridades de saúde.

Acredito que as escolas só vão abrir quando estiverem garantidas todas as condições. Estou convencido que ninguém tomará uma decisão que coloque em risco os jovens e a comunidade educativa", disse Jorge Ascenção em declarações à Lusa.

Para a Federação das Associações de Pais de Vila Nova de Gaia (Fedapagaia) o único caminho possível para o terceiro período, neste momento, é o ensino à distância e por isso é preciso acautelar a situação dos alunos que não têm acesso à internet ou que não têm equipamentos.

A Fedapagaia lembrou também a necessidade de encontrar soluções para os alunos do ensino especial, “particularmente vulneráveis neste contexto”.

Pedem aulas à distância com horários mais flexíveis

Pais e encarregados de educação querem menos horas de aulas diárias e um horário mais flexível, mas pedem aos professores que continuem a ensinar, durante a pandemia de Covid-19, até para garantir a saúde mental de todos.

Os pais acreditam que os professores estão agora mais preparados para dar as aulas e as famílias também já se começaram a organizar melhor o arranque de mais um período de aulas, contou à Lusa o presidente da Confap.

Mas, alertam, ainda existem problemas, tais como saber se haverá provas de aferição e exames nacionais e como será feita a avaliação.

Independentemente das decisões, os pais defendem que é preciso reduzir a carga horária, mas nunca deixar de haver aulas.

O terceiro período deverá ser um momento de aprendizagem e não apenas para preencher o tempo”, defendeu, acrescentando que ocupar as crianças e jovens também é importante para a sua saúde mental.

Os docentes terão de encontrar formas de ensinar diferentes consoante os níveis de ensino, já que os alunos mais novos não conseguem estar a trabalhar sozinhos em frente a um computador, lembra Jorge Ascenção.

A responsabilidade do ensino dos alunos não pode ficar do lado dos encarregados de educação, até porque “muitos não têm capacidade ou conhecimento para acompanharem as matérias”, alerta o presidente da Fedapagaia, em declarações à Lusa.

É muito provável que cheguemos ao fim do ano letivo sem conseguir cumprir o programa”, admite por seu turno o presidente da Confap, referindo que esse trabalho poderá continuar no início do próximo ano letivo, altura em que pode haver a recuperação das matérias que não foram dadas ou que ficaram pouco consolidadas.

Também o presidente Fedapagaia defende que é preciso “emagrecer os conteúdos curriculares”, assim como é preciso repensar no horário de trabalho dos alunos.

José Cardoso explicou que é preciso adequar os horários para que pais e alunos possam articular a necessidade de trabalho de cada um: “Temos de ter em atenção que gerir uma família que tenha dois ou mais filhos em idade escolar e com os pais em teletrabalho e em partilha de espaços e equipamentos pode-se tornar num verdadeiro caos”, alertou a Fedapagaia.

Depois existem outros problemas que os pais consideram mais graves, como é o caso dos milhares de alunos sem Internet ou equipamentos para conseguir acompanhar as aulas.

O presidente da Federação das Associações de Pais de Vila Nova de Gaia lembrou ainda a necessidade de se encontrar soluções para os alunos do ensino especial, que agora estão “particularmente vulneráveis”.

Para José Cardoso é também importante não esquecer que “nesta fase tão crítica para os alunos, e que se agravará quanto maior for o tempo em que a ela estejam sujeitos, é preciso articular o apoio psicológico ao nível dos agrupamentos e escolas”.

O ensino à distância é “admissível e desejável”, mas sempre como solução a curto prazo, devendo a sua adoção ser levada a cabo com a consciência das suas limitações e dificuldades de implementação, alertou.

Portugal registou até esta segunda-feira 311 mortes associadas à Covid-19 e 11.730 infetados, segundo o boletim epidemiológico divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

O primeiro caso conhecido em Portugal surgiu há pouco mais de um mês e em meados de março o Governo mandou encerrar todas as escolas do país e depois decretou o Estado de Emergência, que já foi prorrogado por mais 15 dias.

/ CE