Há irregularidades nas eleições do Montepio que colocam em causa a liderança de Tomás Correia, o homem que está há mais de dez anos à frente da maior associação mutualista do país.

Em causa está a utilização do próprio banco em benefício da sua candidatura, que passa por controlar, dentro dos balcões do Montepio, funcionários que consigam garantir o voto na lista encabeçada por si às eleições de 7 de dezembro.

Há anos que a situação é recorrente.

Testemunhas revelam à TVI o que viram e o que fizeram sempre que houve eleições e denunciam casos de envelopes com votos de associados a circularem no correio interno do banco. Denunciam ainda reuniões ao mais alto nível com indicações precisas no sentido de serem os próprios funcionários do banco a fazerem telefonemas para os associados para que estes votem na lista encabeçada por Tomás Correia.

Tomás Correia está há dez anos no poder e concorre agora a um quarto mandato à frente da associação mutualista, uma espécie de consulado, marcado por muitas suspeições.

O banco Caixa Económica Montepio Geral praticamente foi à falência durante a gestão de Tomás Correia, está a ser investigado pelo Ministério Público e pelo Banco de Portugal, por suspeitas de ter recebido comissões ilegais quando liderava a Caixa Económica e de ter pago comissões ao ex-presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado.

Ao lado de Tomás Correia estão nomes como a ex-secretária de Estado socialista Idália Serrão, a ex-ministra da Saúde Maria de Belém, o ex-secretário de Estado socialista Luís Patrão, amigo de José Sócrates, o padre Vítor Melícias, entre outros nomes sonantes da sociedade portuguesa, como Manuela Eanes, Jorge Coelho e Rui Nabeiro.

De nada valeu a ordem de serviço da Caixa Económica Montepio Geral, posta a circular internamente há poucos dias, em que é expressamente proibido apelar ao voto ou fazer campanha no local de trabalho, usar correio eletrónico ou o telefone do banco para divulgar mensagens de apoio a um candidato ou a uma lista

Ao todo, são cerca de 460 mil associados com direito a voto e, desses, apenas 60 mil irão votar. No dia das eleições, haverá uma única mesa, instalada na sede em Lisboa. Na prática, cerca de 98% dos eleitores votam por correspondência.

Os associados recebem em casa um boletim onde colocam a cruz. Depois inserem o documento num primeiro envelope e introduzem-no num segundo subscrito onde assinam, precisamente a mesma assinatura de cliente a que todos os balcões têm acesso.

É neste ponto que residem as maiores suspeições: cada balcão conhece a assinatura dos clientes, até sabe quem vota e quem não vota. O risco de votos forjados é real.

Em nome da transparência, chegou a ser feita em maio uma petição, que contou com personalidades como o ex-ministro da Segurança Social Bagão Féllix, entre outras. A resposta nunca chegou.