A juíza Ana Joaquina, inquirida nesta terça-feira no tribunal de Anadia como testemunha do homicídio do advogado Cláudio Mendes, seu antigo companheiro, admitiu que havia o receio na sua família de que ele retirasse a filha de ambos.

Inquirida durante o dia, no julgamento de António Ferreira da Silva, seu pai, acusado de ter abatido a tiro o advogado no parque da Mamarrosa, em Oliveira do Bairro, Ana Joaquina reconheceu ter ficado preocupada por a juíza do Tribunal de Família e Menores não ter fixado a residência da criança.

«Disse-me várias vezes que fazia desaparecer a menina», relatou, o que, a acontecer, alegadamente a deixava sem meios jurídicos para a recuperar, disse a mãe da criança.

Havia já todo um historial de disputa judicial pela regulação do poder paternal da menor, que, não estando fixado, levou a momentos de conflitualidade entre os progenitores, com agressões e ofensas pelo meio, intervalados por reaproximações.

Foi o que ocorreu já depois de Cláudio Mendes ter feito uma queixa-crime contra Ana Joaquina, que o advogado retirou na véspera de ser firmado um acordo provisório de visitas, tal como desistiu do primeiro processo de regulação das responsabilidades parentais.

A juíza, no seu depoimento, admitiu ter jantado com ele «de boa fé, na tentativa de chegarem a um acordo». Inquirida pelo advogado Ricardo Gonçalves, em representação dos familiares da vítima, reconheceu que os problemas entre os dois só começaram cerca de um mês antes de a criança nascer.

Até então nunca teve queixas de maus tratos, mas a relação degradou-se por divergências quanto à forma de cuidar da criança e ao diferente relacionamento consentido com os avós de um e de outro lado.

Garantiu que até aos incidentes na Feira, «o Cláudio via a filha quando quisesse», embora, se ele pedisse para sair sozinho com a filha, ela fizesse questão de o acompanhar e justificou: «Eu tinha a certeza que ele andava perturbado.»

Foi essa «perturbação» que a fez admitir em Tribunal que o seu pai andasse nos últimos tempos «com a arma por perto» e lhe tivesse aconselhado a ela a comprar uma arma, face a ameaças que começou a levar a sério, depois de, na Feira, este a ter agredido.

«Eu própria temia pela vida», concluiu.

A juíza afirmou, noutro passo, que «já há muito tempo tinha pensado em avançar com uma ação de inibição do poder paternal» e requereu que figurasse em ata que ele tinha sido mandado retirar, na conferência do tribunal de Família, pelo seu comportamento perturbado, o que o próprio Tribunal não deferiu.

Foi também ela, conforme assumiu, quem sugeriu o internamento compulsivo do ex-companheiro, quando dos incidentes na casa de um irmão do Cláudio na Feira, considerando «anómalo» o facto ele andar num carro de brincar a distrair a criança, no momento de tensão.
Redação / CM