A pandemia que já matou quase 16.000 portugueses está a deixar muitos animais "órfãos", que são acolhidos pelos familiares das vítimas ou por instituições, mas a ajuda é cada vez mais difícil pelas dificuldades económicas que enfrentam.

O relato foi feito à agência Lusa pela presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA), Maria do Céu Sampaio, e pelo presidente da associação Animalife a propósito do Dia do Animal de Estimação, assinalado hoje.

Maria do Céu Sampaio diz que a Liga tem recolhido temporariamente alguns animais de pessoas que estão internadas ou em isolamento profilático devido à covid-19 e outros de pessoas que morreram por causa da doença.

Isto é uma altura muito má também para as associações que têm abrigos porque têm muita dificuldade em conseguir alimentação para os seus animais. Nós, por exemplo, temos 200 animais que temos de alimentar todos os dias”, conta, apelando aos portugueses para que ajudem as associações que têm abrigos nas suas localidades.

As pessoas podem ajudar com “um simples saquinho de comida ou um saquinho de areão, que custa 1,90 euros, uma garrafa de lixívia, que custa 60 cêntimos ou um saquinho de trinca de arroz que custa 50 cêntimos”, diz Maria do Céu Sampaio, afirmando que “tudo isto é muito bem-vindo para estas associações”.

Desde 2014 que a associação Animalife tem vindo a criar programas de apoio social dirigido às famílias carenciadas para evitar o abandono dos animais, através de protocolos com algumas autarquias, mas com o aparecimento da covid-19 as dificuldades têm vindo a acentuar-se.

Uma das situações que mais nos acontece são famílias que passaram a ter a seu cargo mais animais do que aqueles que já tinham porque houve um elemento da família que morreu que tinha três cães ou três gatos e agora esses animais transitam para outros membros da família”, relata Rodrigo Livreiro.

Esta situação tem motivado muitos pedidos de ajuda na Animalife porque as famílias não têm orçamento para poder acompanhar mais três ou quatro animais que passaram a ter à sua responsabilidade e que significam “dificuldades financeiras acrescidas pelo excesso de animais que passaram a ter pela morte de um familiar”.

Também há o caso dos animais que ficam “órfãos” devido à morte do dono, uma realidade que já existia antes da covid-19, e em que as associações de proteção dos animais “sempre foram o ombro de apoio para esse tipo de situação”.

Aquilo que verificamos por causa da covid-19 é de facto uma maior limitação por parte das estruturas associativas porque também elas viram reduzidos os donativos provenientes de pessoas individuais que contribuem para a causa e hoje em dia têm maior dificuldade de responder positivamente a todas estas situações”, sublinha.

Segundo Rodrigo Livreiro, muitas das associações encontram-se encerradas ou com serviços mínimos porque dependem de voluntários e muitos deles estão em teletrabalho e com limitações a nível de deslocação.

Aquilo que sentimos é que hoje os recursos das associações para responder a essas matérias são muito mais difíceis e muito mais limitados. Infelizmente quem vive sozinho e tinha um animal que dependia de si é de facto uma preocupação muito grande se não tiver ninguém que possa ficar com ele”, salienta.

Para apoiar estas situações, a associação criou em março do ano passado a Plataforma Solidária Animal, que teve uma “adesão muito grande” de voluntários e que já possibilitou e entrega de cerca de 200 toneladas de ração.

O presidente da Animalife realçou o facto de existir pela primeira uma rubrica no Orçamento do Estado para 2021 que permite às autarquias apresentar despesas relativas à alimentação, abrigo, à vacinação, identificação eletrónica e esterilização de animais cujos tutores estão numa situação de carência.

Contudo, ainda não saíram as normas que explicam como é que as autarquias vão poder se candidatar. No entanto, a associação tem apoiado famílias até no custeio de abrigo temporário dos animais enquanto estão em tratamento hospitalar ou mesmo em recuperação de situações de covid-19, sublinha.

Ordem dos Veterinários defende existência de lugares destinados a animais "órfãos"

O bastonário da Ordem dos Veterinários, Jorge Cid, defende que devia haver lugares destinados a animais de estimação que ficam sozinhos devido à morte do dono para garantir que “nunca fiquem ao abandono”.

No dia em que se celebra “o animal de estimação", Jorge Cid falou à agência Lusa de como a pandemia de covid-19 também afetou a vida dos animais de companhia.

“Embora não haja nenhum estudo em Portugal concreto que possa afirmar com exatidão qualquer situação que se tenha passado nesta pandemia a sensação que nós temos é que houve duas situações” em relação aos cães e aos gatos.

Uma das situações prende-se com o aumento de mortes em Portugal neste último ano devido à covid-19 e a outras doenças em que as pessoas que estavam sozinhas deixaram o seu animal sem proteção.

A propósito desta situação, o bastonário disse que a Ordem dos Veterinários defende há “muito tempo” que se deve reservar lugares, nomeadamente nos canis municipais ou noutros locais que possam colaborar nesta matéria, para que "estes animais nunca fiquem ao abandono”.

Por outro lado, observou, tem havido “uma maior procura de animais de companhia, quer em adoções, quer em aquisições durante a pandemia, sobretudo no confinamento”, um fenómeno que não é exclusivo de Portugal, em Espanha aconteceu a mesma coisa.

Como razões para esta procura, Jorge Cid apontou, por um lado, as pessoas terem mais tempo, e por outro, aproveitarem para dar os seus passeios higiénicos com o seu animal de companhia.

É um motivo de poder sair e poder estar mais ao ar livre que, de outra maneira, não o poderiam fazer e também estão mais tempo em casa para poder desfrutar dos benefícios de ter um animal de companhia”, sublinhou.

O bastonário destacou ainda que os cães, os gatos e outros animais de estimação têm uma função muito importante na vida das pessoas, sobretudo, das que sofrem de alguma solidão.

Isso é fundamental, nós convivemos com essas situações todos os dias e vemos que realmente uma pessoa que já tem uma idade avançada que vive muito sozinha, o animal de companhia tem uma função essencial para o equilíbrio emocional dessa pessoa”, apontou.

Muitas vezes, vincou, são “a única razão para que essa pessoa sinta que é necessário estar viva e que ainda tem alguma utilidade na vida que é alimentar e tratar o seu animal de companhia, que trata como um elemento da família”.

Segundo Jorge Cid, “há imensos estudos médicos” que avaliam e valorizam a função de um animal em muitas doenças das pessoas.

Não estamos a falar só da parte psicológica, estamos a falar de recidivas de enfarte do miocárdio, problemas cardíacos ou outro tipo de problemas, obesidade, diabetes em várias situações”, adiantou.

Maus-tratos e abandono

O ano de 2020 também fica marcado pelo crime de abandono de animais de companhia, apesar de haver menos situações comparativamente a 2019, segundo dados da GNR, que registou já este ano, no mês de janeiro, 17 casos.

“Em 2020, no total, foram registados 360 crimes e em 2019 foram registados 416” na sequência de “ações proativas de fiscalização ou investigação, quer por denúncia”.

A associação Animalife realizou um inquérito com mais de 200 associações de proteção animal sobre impacto da pandemia de covid-19, com a maioria a apontar para uma taxa de abandono entre os 10% e os 20%, enquanto mais de 20% admitem uma subida superior a 30%.

“As dificuldades económicas decorrentes da pandemia, provocadas por exemplo por situações de desemprego, são a principal causa invocada para justificar o aumento do número de animais abandonados neste período, com quase metade das associações a apontarem esta como a principal justificação”, refere a associação.

A maior dificuldade no acesso a bens e serviços de primeira necessidade, como alimentação ou tratamentos médico-veterinários, é o segundo motivo apontado para justificar o abandono.

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