O regresso à escola está aí e, com ele, vários desafios para professores, pais e alunos.

Entre esta terça e sexta-feira, são cerca de 1,2 milhões os alunos do ensino obrigatório que iniciam o ano letivo. Ano após ano, um dos maiores problemas continua a ser o do bullying entre as crianças e jovens, que agora voltam aos recreios e salas de aula ‘pós’-covid.

Por esta ainda ser uma problemática que a tantos deixa ansiosos e preocupados, fomos falar com a psicóloga clínica, psicoterapeuta e terapeuta familiar Margarida Cordo, para tentar perceber como se prepara um(a) filho(a) para o regresso às aulas e para eventuais conflitos.

Diálogo é a chave

A psicóloga é da opinião que não há chave melhor que a do diálogo.

"O mais importante a fazer é escutar aquilo que vai na cabeça das crianças", começou por explicar, avançando que é natural que neste ano letivo, em particular, haja algumas angústias acrescidas entre os mais novos, uma vez que o ano anterior decorreu de uma forma maioritariamente ‘virtual’.

“Há mais situações em que, de facto, os miúdos estão apreensivos com o regresso às aulas. Não se trata necessariamente de terem desenvolvido fobias sociais, mas a verdade é que o regresso às aulas não é tão natural como foi em outros anos anteriores à pandemia”, disse, explicando que o primeiro passo que deve ser dado em família é mesmo proporcionar às crianças “um bom regresso”.

Criar boas memórias no regresso à escola

"A primeira coisa a fazer é tornar o regresso à escola algo bom, uma coisa agradável. Não estou de acordo que se venha de férias no dia anterior ao início das aulas”, deu como exemplo.

“Deve haver uns dias de preparação, também para se comprar material necessário, e fazer deste um momento em família agradável para que se consiga tornar desejável o regresso à escola. Escutar o que eles têm para dizer sobre o que é o regresso à escola, preparar-lhes um bom regresso. No fim de tudo, é trabalhar com eles as expectativas sobre o novo ano”, concluiu.

Momento de stress para as famílias

A especialista confessou que tem recebido muitos pedidos de ajuda por parte de pais nesta fase, por ser um momento de “algum stress nas famílias”.

A terapeuta confirmou que. embora haja crianças desejosas de regressar a encontrar e socializar com os amigos e outras crianças, nem todos os casos são assim.

Há crianças que não estão com dificuldades e há outras que perguntam se podem continuar a ter aulas a partir de casa. Daí a importância de serem trabalhadas as expectativas”, continuou, explicando que, se os pais souberem trabalhar bem as expectativas das crianças e ajustá-las com serenidade ao que se pode e deve esperar, estão a protegê-las de alguns problemas aquando da entrada para a escola.

Um problema chamado ‘bullying’

A terapeuta lembrou o papel importantíssimo das escolas estarem muito atentas às relações entre os alunos e ao que se passa nos recreios.

Há 30 anos dizia-se que as crianças eram cruéis e que isso era natural, que fazia parte do desenvolvimento”, começou a psicoterapeuta, revelando que atualmente essa ideia tem vindo a ser desconstruída e que, não só esses comportamentos não são naturais, como têm grandes consequências.

“Podem ter grandes consequências para o agressor, para a vítima, para os incentivadores e até para as testemunhas”, disse.

A especialista explicou que este é um problema com consequências de curto a médio prazo: “Não acaba naquele ano letivo e fica tudo resolvido. Muitas vezes, quando encontramos pessoas com problemas graves de autoestima, quer dizer que há uns anos passaram por situações de bullying mais ou menos prolongado”.

A certeza de uma relação de confiança

Questionamos, por isso, por ferramentas que ajudassem a proteger as crianças e os jovens, mas a psicóloga voltou a reforçar que, mais do que qualquer conselho específico, o segredo está em haver pais e escolas atentas e no diálogo.

Quanto mais aberta é a relação, menos constrangedor é para a criança falar sobre o que se passa com ela, mais depressa ela pedirá ajuda. Mais do que ferramentas específicas, é a qualidade da relação de confiança que se estabelece entre pais e filhos que vai ser determinante”, esclareceu.

“Uma boa relação é uma relação de confiança. Os miúdos não falam por várias razões, mas há duas principais: medo e vergonha. Medo porque estão a ser coagidos por parte dos agressores e a vergonha quando não há espaço entre pais e filhos para a conversa, diálogo, a cumplicidade.”, rematou.

E se o meu filho for o agressor?

Quando se fala de bullying, tende-se legitimamente a olhar-se mais para a vítima, mas os agressores são geralmente pessoas que também estão em grande sofrimento.

Os agressores também são crianças com problemas e nós vamos verificando que frequentemente são miúdos afetivamente carentes e criados com poucas regras, poucos limites ou com falta de autoridade”, explicou a psicóloga clínica, avançando que estas crianças geralmente têm este tipo de comportamento agressivo porque precisam de se afirmar ou chamar a atenção.

“Quase sempre os pais não se apercebem. Só se apercebem quando são chamados à escola. Também é muito importante saber lidar com estes pais e tentar perceber a dinâmica familiar e as características da criança e qual o ambiente em que está inserida”, continuou.

Cyberbullying

Nestes dois anos de pandemia, baixaram os casos de bullying nas escolas. No entanto, apesar de ainda não haver estudos muito precisos, a especialista garante que o cyberbullying está a aumentar.

O cyberbullying não tem limites. Não se sabe onde chega e muitas vezes o agressor não aparece, não se sabe quem é”, começou por dizer, alertando mais uma vez para a importância do diálogo e da relação de confiança das crianças e jovens junto dos familiares.

“É fundamental que se sintam seguros para falar disso logo quando começa e não quando a situação já estiver muito avançada. Os conteúdos na Internet espalham-se como um líquido quando entorna”, acrescentou.

O problema é que, contrariamente ao bullying físico e psicológico, no que toca ao cyberbullying as crianças e jovens podem nem sempre se aperceber logo que estão a entrar num ciclo de toxicidade, tornando-se mais difícil procurar ajuda, uma vez que muitos dos casos de cyberbullying partem de uma “relação de confiança”.

Um clássico é uma adolescente que está à vontade com o seu namorado e partilha fotografias mais íntimas. Isto, por exemplo, são coisas que, por maior que seja a confiança na relação, não se deve fazer”, exemplificou.

A clínica reforçou que grande parte de casos de cyberbullying advém de relações que não se esperam, apelando à maturidade dos jovens no uso das redes sociais e nas partilhas que fazem.

Dizer “não permitas que te batam” é diferente de “se te baterem, bates também”

Há uma antiga frase ainda muito ouvida quando as crianças ou os jovens se queixam de ter sido alvo de violência física. “Se te baterem, bates também”. A psicóloga está em total desacordo e explicou que esse conselho só vai gerar mais violência.

Mais do que se promover a agressividade, tem de se explicar que falar de algo perturbador e que incomoda vai ser a maneira de interromper aquele ciclo que só irá destruir quem está dentro dele”, desenvolveu.

Margarida Cordo explicou que há obviamente várias maneiras diferentes de abordar este tema da violência, dependendo especialmente das idades das crianças/ jovens que estão a passar por essa fase.

“A crianças mais pequeninas, com quatro, cinco anos, é mais difícil explicar que se alguém se portar mal eles têm de falar em casa. É preciso, às vezes, falar frontalmente. No sentido de: não permitas que te batam, se te fizerem uma rasteira, vai dizer à auxiliar ou ao professor. Uma coisa é dizer “Não permitas que te batam. Outra é dizer: se te baterem, bates também”, distinguiu.

Já relativamente às crianças mais velhas e aos adolescentes, Margarida Cordo acredita que a melhor forma é a do diálogo, revelando que há uma estratégia que utiliza muito nestes casos, a de contar histórias.

Os miúdos (e os graúdos) percepcionam muito bem histórias. Quando ouvimos uma, fixamos muito melhor o tema e geralmente até o percebemos melhor. Por isso, contar uma história a propósito de um tema (no caso, o bullying) para que a partir daí seja possível que se abra um debate, com respostas e perguntas, é o ideal”. Ver documentários ou filmes verídicos e posteriormente debatê-los foi outra sugestão.