O ex-assessor militar do primeiro-ministro garantiu esta terça-feira que não teve conhecimento, em 2017, do memorando da PJ Militar sobre a recuperação do material furtado de Tancos e disse duvidar que tenha chegado ao gabinete de António Costa.

O vice-almirante Monteiro Montenegro foi hoje ouvido, durante cerca de uma hora na comissão parlamentar de inquérito ao furto de Tancos, em que repetiu, por várias vezes, não ter tido conhecimento do memorando da PJ Militar sobre a encenação em torno do “achamento” do material, em outubro de 2017.

Eu não tive conhecimento do memorando, estava de férias. E duvido muito que tenha chegado ao gabinete do primeiro-ministro”, afirmou o assessor militar de António Costa à data do furto do material, em junho de 2017.

Logo no início da audição, Monteiro Montenegro afirmou que só teve “contacto direto” com o ‘dossier’ Tancos em três ocasiões – numa audição, à porta fechada, do Chefe do Estado-Maior do Exército Rovisco Duarte na comissão parlamentar de Defesa Nacional, numa reunião de António Costa com os chefes militares em São Bento, em 11 de julho, e através do relatório do Ministério da Defesa, intitulado “Tancos 2017”.

De resto, do furto e da recuperação do material roubado, o vice-almirante disse ter sabido através da comunicação social.

Não, nunca tive qualquer conversa sobre Tancos com o primeiro-ministro”, disse, e repetiu, o militar na reserva, questionado diversas vezes por deputados de vários partidos sobre o assunto, a começar pelo socialista Jorge Gomes.

Monteiro Montenegro explicou que, mais do que ele próprio, “o principal conselheiro” do chefe do Governo em matérias de Defesa Nacional é o ministro com a pasta, na altura Azeredo Lopes, que viria a demitir-se do cargo meses mais tarde por causa de Tancos.

O assessor militar garantiu ainda que “ficou na expectativa” de lhe ser solicitada “alguma ação” por parte do primeiro-ministro, o que não veio a acontecer, nem recebeu quaisquer instruções da parte de António Costa.

Absolutamente nenhumas”, chegou a dizer o militar, que também acrescentou que não fez qualquer contacto para não dar a ideia de que estaria a fazê-lo “em nome” do primeiro-ministro.

Conversas, “só informais” e “em termos genéricos”, por exemplo, com o ex-chefe de gabinete do ministro da Defesa, Martins Pereira, quando se cruzou com ele “em cerimónias”, acrescentou.

O furto de material de guerra foi divulgado pelo Exército em 29 de junho de 2017. Quatro meses depois, a PJM revelou o aparecimento do material furtado, na região da Chamusca, a 20 quilómetros de Tancos, em colaboração de elementos do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé.

Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.

Comissão de inquérito pede memorando da PJM

A comissão de inquérito ao furto de Tancos ainda não conseguiu o memorando da PJ Militar sobre a recuperação do material e pediu hoje que os seus autores ou o Ministério Público o entreguem ao parlamento.

Face às dificuldades do Ministério da Defesa e da Polícia Judiciária Militar (PJM) “em localizar documentação” solicitada pela comissão, os centristas pedem acesso ao memorando, sobre a encenação em torno da recuperação do material, em outubro de 2017, alegadamente entregue pelo major Vasco Brazão, inspetor da PJM, ao então chefe de gabinete do ministro da Defesa, tenente-general Martins Pereira. Seja através dos seus autores, Vasco Brazão e o ex-diretor da PJ Militar, e dos “eventuais recetores”, Martins Pereira e José Azeredo Lopes.

O CDS pediu ainda que seja enviada ao parlamento a chamada fita do tempo da PJM – “resumo temporal dos factos” –, obtida através de Vasco Brazão, Luís Vieira, Martins Pereira ou Azeredo Lopes.

É ainda pedido que a comissão tente obter estes documentos “junto do Ministério Público”.

O memorando foi noticiado por vários jornais e a sua existência foi confirmada, por exemplo, pelo Vasco Brazão e Martins Pereira na comissão de inquérito.