A Ministra da Saúde, Marta Temido, admitiu, esta quinta-feira, que nunca pensou que Portugal viesse a ter 800 doentes em unidades de cuidados intensivos por culpa da covid-19.

Portugal registou no último boletim diário 863 pessoas internadas nos cuidados intensivos. Número superior ao limite máximo previsto, algo possível graças a casos como o do Hospital de Setúbal, que ja anunciou estar a funcionar a 500%.

António Marques da Silva, anestesiologista e responsável pelos cuidados intensivos do Hospital de Santo António, lembrou que há muito que se sabia que havia um défice do número de camas de cuidados intensivos em Portugal e garantiu que o SNS só ainda não colapsou graças ao esforço e à dedicação de vários profissionais de saúde que se multiplicam por turnos consecutivos.

Já sabíamos há vários anos que havia um défice de capacidade instalada, relativamente, a cuidados intensivos. A nossa média andaria à volta das 4,5 mil camas por cada 100 mil habitantes, enquanto, a média europeia andava perto das 11,5 mil camas. (...) Neste momento, já ultrapassamos a barreira das mil camas de cuidados intensivos e já estamos a ficar perto da média europeia. Temos demonstrado uma capacidade de crescimento extraordinária. (...) Isto significa que muitos profissionais de saúde estão a trabalhar de uma abnegada e sem limites de horário. Noites afim, umas atrás das outras, numa situação que não é de uma ou duas semanas de esforço pontual, mas sim de meses afim. Isto só caracteriza a mais valia que são os recursos humanos do nosso Serviço Nacional de Saúde. É por isso que temos dado resposta”, realçou António Marques da Silva.

 

Ainda assim, o pneumologista António Diniz, do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos, lembrou que não é o reforço da resposta hospitalar que vai estagnar a propagação da covid-19, mas sim os atos individuais de cada cidadão. O especialista alerta ainda, que apesar de "estarmos numa fase estacionário", continuamos a estar "muito mal".

Os últimos dados apontam que a situação está relativamente estacionária e, eventualmente, com alguma tendência a diminuir a incidência de novos casos. Isto poderá ser uma situação precoce, mas vamos admitir que é assim que passa. Mesmo assim, temos um longo caminho pela frente para manter esta situação e melhorá-la. Esta descida para nove mil casos, é uma descida dentro do mal. (...) A situação era catastrófica e agora parece que já nos contentamos com o muito mau. (...) Há três coisas que são absolutamente cruciais. A primeira é as pessoas ficarem em casa. Quem não tem de sair de casa, fica em casa", explica António Diniz.

 

António Diniz alerta ainda que a resposta pandémica tem sido dada à custa da "área não covid". António Diniz garante que após o SARS-CoV-2 vamos ter uma "pandemia silenciosa", a das pessoas que não vão às consultas por medo dos hospitais. 

O Sistema de Saúde terá aumentado de alguma fora a sua capacidade para dar resposta à pandemia, mas fê-lo muitas vezes à custa da resposta da falta de resposta noutros setores, aquilo a que chamamos ‘não covid’. Esta vai ser uma segunda pandemia que vamos ter, que por enquanto é uma pandemia silenciosa. É a pandemia das pessoas que não vão à consulta e das pessoas que voltaram a ter medo de ir ao hospital. Quando passar esta pandemia vamos ficar com as consequências ao nível daquilo que é toda a área não covid”, explica o pneumologista.

 

Já António Marques da Silva não teme apenas uma “pandemia silenciosa”. O responsável pela unidade de cuidados intensivos do Hospital de Santo António garante que Portugal vai enfrentar crises futuras devido à covid-19, aos não covid, ao impacto económico e à saúde mental dos portugueses.

Na minha opinião existem pelo menos quatro grandes crises: 1. a covid-19, 2. os não covid, 3. o impacto económico e 4. a saúde mental.”, teoriza o anestesiologista.

 

Quanto à vacinação contra a covid-19, o António Diniz entende que é uma peça fulcral para o sucesso do combate à pandemia, mas tal nunca acontecerá no imediato.

 A vacinação não nos resolve nada agora, mas vai permitir-nos que daqui a uns tempos possamos voltar a respirar com normalidade. O que é uma coisa que muitas vezes já ninguém se lembra. Estamos naquela fase em que éramos felizes dantes e não sabíamos”, refere António Diniz.

O pneumologista considera também que a meta implementada pelo Governo de vacinar todos os idosos com mais de 80 anos até ao fim de março possa ser cumprida, caso seja implementado um plano de vacinação mais ambicioso.

Tudo depende do ritmo de vacinação. É certo que esse ritmo está condicionado pela disponibilidade existente de vacinas. Mas, se as vacinas chegarem a tempo e for implementado um plano ambicioso, admito que a meta possa ser cumprida”, disse António Diniz.

 

António Marques da Silva entende que algumas das críticas dirigidas à task force responsável pelo plano nacional de vacinação contra a covid-19 são infundadas e reconhece mérito ao trabalho que foi desenvolvido até agora.

Às vezes é fácil criticar. Há muitos treinadores de bancada neste país. Mas, é preciso reconhecer o trabalho que está a ser feito. Bem feito. Por muitas pessoas que estão na task force relacionada com este assunto [plano de vacinação]. Pessoalmente, gostaria de agradecer esse esforço que está a ser feito, porque é um esforço enorme”, ironiza o responsável pelos cuidados intensivos do Hospital de Santo António.

 

O clínico António Diniz realça que Portugal não foi capaz de seguir o lema: "preparar para o pior e desejar o melhor". O pneumologista aponta que só isso explica o facto de um ano depois o país estar numa situação só comparável com a de Espanha ou Itália durante a primeira vaga pandémica.

Deve ser feita a análise do preparar para o pior e desejar o melhor. Honestamente, acho que não nos preparámos para o pior. O resultado está à vista. Um ano depois, estamos numa situação em que o mais parecido que tivemos foi na primeira vaga em Espanha e Itália. Não nos preparámos para o pior”, esclarece o pneumologista.

 

Na última intervenção, António Marques da Silva disse que acredita que o "novo normal" é um período em que a união nacional é mais fulcral do que nunca. António Marques da Silva culmina com uma mensagem positiva e apelando ao fim da discórdia lusitana.

Se queremos paz, temos de nos preparar para a guerra. A altura não é de discórdia. A altura é de união. A mensagem é e tem de ser positiva: nós vamos vencer esta batalha!”, enaltece o anestesiologista.

 

Nuno Mandeiro