O antigo ministro da Defesa compareceu esta terça-feira no tribunal de Santarém para mais uma sessão do julgamento referente ao assalto aos paióis de Tancos. José Azeredo Lopes começou por dizer que nunca se encontrou com o diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM), acrescentando que nem sequer tinha o número de telefone do coronel Luís Vieira.

Continuando o seu depoimento, o ex-governante admitiu que possa ter existido um encontro com o seu chefe de gabinete e com Luís Vieira. O encontro terá acontecido em casa de Azeredo Lopes no dia anterior a Marcelo Rebelo de Sousa visitar o quartel.

Azeredo Lopes afirma que o então diretor da PJM nunca lhe pediu para interferir nas competências da investigação (se deveria ser levada a cabo pela Polícia Judiciária ou pela PJM). Ainda assim, o antigo ministro admite que Luís Vieira tivesse a esperança que isso pudesse acontecer.

O Ministério Público acredita que o ex-ministro e o antigo diretor da PJM se encontraram por quatro vezes para discutir o assunto. Depois de ter negado qualquer encontro, Azeredo Lopes acabou por admitir pelo menos um.

O furto de material de guerra dos Paióis Nacionais de Tancos, no distrito de Santarém, foi divulgado pelo Exército em 29 de junho de 2017. No mesmo dia o Ministério Público abriu um inquérito sobre o sucedido por suspeitas da prática dos crimes de associação criminosa, tráfico de armas internacional e terrorismo internacional.

Em 18 de outubro do mesmo ano a PJM comunicou ter recuperado nessa madrugada o material de guerra furtado, na região da Chamusca, a 20 quilómetros de Tancos, com a colaboração do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé.

Em 25 de setembro de 2018, no âmbito do inquérito dirigido pelo Ministério Público, coadjuvado pela Polícia Judiciária (PJ), foram detidos vários militares da PJM, incluindo o seu diretor na altura, Luís Vieira, e da GNR, e efetuadas buscas, numa operação com o nome de código "Húbris".

De acordo com o Ministério Público, a recuperação do material constituiu uma encenação da PJM, em conivência com o autor do furto e a GNR de Loulé.

O processo sobre o furto e as circunstâncias da posterior recuperação de material de guerra dos Paióis Nacionais de Tancos, que tem entre os seus 23 arguidos o anterior ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, e o ex-diretor da PJM, coronel Luís Vieira, começou a ser julgado no dia 2 de novembro, em Santarém.

Nove dos arguidos são acusados de planear e executar o furto do material militar dos paióis nacionais de Tancos e os restantes 14, entre eles Azeredo Lopes e os dois elementos da PJM, da encenação que esteve na base da recuperação do armamento.

Ex-ministro rezou para que reunião nos paióis terminasse

O ex-ministro da Defesa revelou hoje, no julgamento do processo de Tancos, que rezou para que a reunião realizada durante a visita do Presidente da República aos paióis, a 04 de julho de 2017, "terminasse rapidamente".

Azeredo Lopes começou hoje à tarde a ser interrogado no processo em que é arguido, cujo julgamento decorre em Santarém, tendo confessado que o "ambiente era confuso, havia muita gente" e que desejou que a reunião "terminasse rapidamente".

Nessa visita o Presidente da República foi acompanhado de vários elementos civis e militares, tendo havido um encontro para se discutir o furto aos paióis, no qual se falou de questões concretas sobre a investigação ao crime.

Foi nessa reunião, adiantou, que o ex-diretor da Polícia Judiciária Militar Luis Vieira, também arguido no processo, defendeu que a investigação devia ser coordenada pela PJM, já que o crime tinha ocorrido no interior de instalações militares, dando ainda conta do seu desagrado.

Azeredo Lopes diz em tribunal que PGR não o alertou para atuação paralela da PJ Militar

O ex-ministro da Defesa afirmou esta terça-feira que a ex-procuradora-geral da República nunca o alertou que a Polícia Judiciária Militar (PJM) estava a fazer uma investigação paralela ao furto das armas.

Azeredo Lopes respondia no julgamento do processo de Tancos, que decorre em Santarém, tendo reiterado que a sua “implicação” no caso do achamento das armas furtadas dos paióis de Tancos é “esmagadoramente política” e que “nunca, por parte de quem tinha a coordenação da investigação, me foi dito que algo estava a correr menos bem”.

Nunca soube [antes de 18 de outubro de 2017] de qualquer investigação paralela por parte da Polícia Judiciária Militar. A senhora procuradora-geral da República, como coordenação da investigação, nunca se queixou. Aliás, depois do despacho até julgo que a PJM podia participar na investigação, levar a cabo diligências porque tinha um papel de colaboração institucional”, afirmou.

O ex-governante negou, mais uma vez, ter conhecimento ou ter autorizado a realização de uma investigação paralela da PJM ao arrepio da decisão da PGR, tornada pública por despacho, questionando que interesse pessoal ou institucional tinha nessa decisão.

Inês Pereira / com Lusa