Os sintomas da menopausa afetam negativamente a vida pessoal da maioria das mulheres, interferem na atividade profissional de quase um quarto e em 5% provocam mesmo absentismo laboral, segundo dados divulgados hoje pela Secção Portuguesa de Menopausa.

A menopausa tem custos económicos e sociais sobretudo numa fase da vida da mulher em que muitas vezes tem responsabilidades profissionais muito exigentes”, disse a presidente da Secção de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), Fernanda Geraldes, que falava à agências Lusa a propósito da conferência “Mulheres sem pausa”, que decorre na terça-feira para assinalar o Dia da Menopausa, celebrado a 18 de outubro.

Segundo a médica ginecologista, a menopausa quando apresenta sintomas afeta negativamente a vida da mulher do ponto de vista profissional, mas também pessoal, com 80% a apresentarem sintomatologia vasomotora (calores e afrontamentos), 66% a terem alterações do sono, 24% dor nas relações sexuais e 23% redução do desejo sexual.

Fernanda Geraldes citou um inquérito nacional, realizado em maio de 2018, que envolveu mulheres entre os 45 e os 60 anos, segundo o qual o aumento de peso é o sintoma associado à menopausa mais receado pelas mulheres, apontado por cerca de 46% das inquiridas, logo seguido da ansiedade/depressão e só em terceiro lugar a sintomatologia vasomotora.

O medo de cancro e da osteoporose surge em quarto e quinto lugar e o envelhecimento aparece em sexto.

Perante a frase “estou satisfeita com o meu visual”, a resposta “muito satisfeita” é mais frequente no grupo que ainda não está na menopausa, sendo que o “satisfeita” é semelhante nos dois grupos. O aspeto mais negativo é mais frequente no grupo da menopausa.

Quanto ao grau de satisfação sexual, 54% disseram estar “satisfeitas”, não havendo diferença entre os dois grupos, mas “muito satisfeita” é mais referido pelas mulheres que ainda não estão na menopausa, enquanto “pouco e nada satisfeita” são mais apontados pelas mulheres em menopausa.

Mais de metade (57%) contaram que os sintomas interferem com a vida diária. Sobre os aspetos da vida pessoal mais afetados, 22% disseram a vida familiar e conjugal, 20% a vida sexual e 14% a vida social.

O inquérito revela ainda que 85% das mulheres procura informação sobre a menopausa junto do médico de família, 35% do ginecologista, 30% do farmacêutico e 28% na Internet.

Para Fernanda Geraldes, a menopausa continua a ser um tema tabu, porque “é associada na maioria das vezes a uma fase de declínio da mulher – envelhecimento, aumento de peso, menos atrativa, fim da capacidade de procriação e da sexualidade - e em termos profissionais ser algumas vezes dispensada em prol das mulheres mais novas”.

“Esta visão é muitas vezes sentida pela própria mulher e verbalizada pela própria, mas também pela própria sociedade que a rotula dessa forma”, disse, lamentando que este sentimento ainda seja preponderante.

Contudo, frisou, “já há um grupo de mulheres na menopausa que procuram ajuda e já não se assumem dessa forma e conseguem mesmo alterar a visão que a sociedade tem delas”.

Por estas razões, defendeu, o tema da conferência “Mulheres sem pausa faz todo o sentido porque embora estas mulheres apresentem uma ‘pausa’ da menstruação e da sua fertilidade não devem fazer outras ‘pausas’ nas suas vidas”.

“É precisamente por este objetivo que estamos todos aqui reunidos. Sentimos que, desta forma, poderemos todos juntos ajudar a alterar o panorama da menopausa em Portugal e contribuir para a saúde e bem-estar da mulher nesta fase da vida”.

Mulheres “podem ficar tranquilas” sobre terapêutica hormonal

A Sociedade Portuguesa de Ginecologia diz que as mulheres “podem ficar tranquilas” relativamente ao uso da terapêutica hormonal na menopausa, defendendo ser “imperioso” substituir a atitude “hormonofóbica” por uma atitude em prol da adoção de hábitos de vida saudáveis.

“O debate de conceitos e clarificação de ideias numa altura em que perante algumas notícias alarmistas sobre a abordagem terapêutica da menopausa têm sido divulgadas pelos ‘media’, falar a mesma linguagem pode ser importante na promoção da saúde física e mental da mulher na menopausa”, disse hoje à agência Lusa a presidente da Secção de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), Fernanda Geraldes.

Recentemente foi publicado um estudo na revista científica “The Lancet”, que envolveu mais de 100 mil mulheres, que aponta uma relação direta entre o uso da terapêutica hormonal (TH) na menopausa e o aparecimento do cancro da mama.

A médica ginecologista adiantou que, após a publicação do estudo, a Secção Portuguesa de Menopausa, à semelhança das suas congéneres internacionais, fez uma reflexão sobre o estudo, afirmando que “é uma meta análise de 58 artigos publicados desde janeiro de 1992 a janeiro de 2018 sobre TH e cancro da mama (na sua maioria estudos observacionais), não se tratando pois de nenhum novo estudo randomizado, prospetivo ou observacional”.

Segundo Fernanda Geraldes, este estudo não acrescenta nada de novo ao que já era conhecido até agora.

Os especialistas afirmam que “os regimes de TH prescritos em 1992 e os atualmente preconizados não são comparáveis quer na sua composição (a maioria dos fármacos utilizados na época não fazem parte das opções terapêuticas atuais), quer nas doses utilizadas (as atuais mais baixas)”.

Também mudaram as indicações e a duração do tratamento, sendo a TH essencialmente recomendada para o tratamento da sintomatologia vasomotora enquanto esta persistir.

“Nesta meta-análise, todas as mulheres começam a ser avaliadas a partir da linha de base dos 50 anos (ou mais) e a exposição hormonal até esse momento não é contabilizada, podendo ser considerada um fator de confusão no que diz respeito aos riscos subsequente de cancro”, advertem.

Sublinham ainda que o aumento do risco de cancro da mama está associado, embora não exclusivamente, ao uso do progestativo (hormona que deve ser utilizada nas mulheres com útero).

O que esta meta análise demonstra é que a obesidade, que já estava associada a um maior risco de recidiva e morte por cancro da mama, é um “fator de risco primário pelo que é imperioso substituir a atitude ‘hormonofóbica’ por uma atitude em prol da mudança de hábitos e de estilo de vida”, defendem.

Assim, salientam os especialistas, “as mulheres portuguesas podem ficar tranquilas porque as recomendações nacionais para o uso da TH após a menopausa, publicadas no Consenso de 2017 da Sociedade Portuguesa de Ginecologia e seguidas pelos seus médicos (Medicina Geral e Familiar, ginecologistas e outros clínicos) se mantêm atuais”.

Sobre a conferência, Fernanda Geraldes disse que tem como principal objetivo debater “a menopausa” numa perspetiva multidisciplinar pelos profissionais que mais contactam com as mulheres nesta faixa etária, principalmente o ginecologista e o médico de família, mas também os farmacêuticos a quem recorrem frequentemente para se queixarem e também para esclarecerem as suas dúvidas sobre os fármacos prescritos relativamente à toma ou a efeitos secundários.