Várias dezenas de estudantes de mestrado da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (U.Porto) protestaram este domingo junto à Reitoria contra o aumento de propinas que, pelo menos no caso de uma aluna, foi de 87%.

Em declarações à Lusa, Gabrielle Lacerda, de 24 anos, contou que estuda na Universidade do Porto desde 2019 e vai ter de regressar ao Brasil sem concluir o mestrado, caso não consiga reunir o valor da propina para o presente ano letivo, que teve um aumento de 1.312 euros (+87%).

Até ao ano passado, pagava 1.500 euros de propinas anuais. A partir desse ano teve uma alteração e foi para 2.812 euros. São 87% [de aumento]. Praticamente dobrou o valor do ano. Ou seja, o que ia pagar pelo curso inteiro estou a pagar praticamente num ano”, descreveu Gabrielle Lacerda.

A aluna considera que se trata de um “aumento brutal” e “muito difícil de suportar”, principalmente por chegar num período de pandemia, o que “dificulta ainda mais a situação porque todas as pessoas tiveram os rendimentos abalados”.

Não houve qualquer tipo de aviso, não foi enviado um e-mail, não foi criado um despacho, nada. A descoberta aconteceu na renovação da matrícula”, revela a estudante brasileira, que viu os colegas organizarem uma angariação de fundos para ajudar a suportar o aumento.

Joana Castro, 22 anos, trabalhadora e estudante no Mestrado de Biologia Celular e Molecular da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, conta à Lusa que também ficou a saber que vai ter um aumento de propinas de “mais de 375 euros” e, por causa disso, marcou presença no protesto de hoje.

Pretendemos manifestar o nosso descontentamento perante estes aumentos que nos afetaram, sem qualquer aviso e que são aumentos de grande calibre para muitas famílias. Pretendemos ser ouvidos e que percebam que estes aumentos não só afetam números de estudantes, mas famílias reais e estudantes reais que têm de lidar com isto no seu dia a dia”, disse.

A aluna ainda têm esperança que o Conselho Geral da Universidade do Porto possa “reverter esta situação”, pois já lhe foi remetido um ‘e-mail com a “assinatura de vários Mestrados e a petição pública que tem cerca de 1.200 assinaturas”.

Segundo a U.Porto, o pedido de alteração do valor das propinas de mestrado da FCUP “teve por fundamento a necessidade de acompanhar os crescentes custos de realização destes cursos, de forma a reunir condições para manter e melhorar as condições materiais e, consequentemente, a qualidade de ensino oferecido pela FCUP nestes ciclos de estudos”, lê-se numa resposta enviada à Lusa sobre o aumento das propinas em 29 cursos da FCUP.

As várias dezenas de alunos que participaram no protesto hoje à tarde, debaixo de chuva, em frente ao edifício da Reitoria da Universidade do Porto, mostravam cartazes onde se podia ler frases como “Dificuldade não é prestígio”, “Aumentos a meio do ciclo”, “#FCUP Não” ou “Os aumentos não ficam por aqui”.

Segundo aquele grupo de estudantes, os alunos nacionais que passaram para o segundo ano viram as propinas aumentar entre 50 euros e 375 euros, com os mestrados de Biologia Celular e Molecular, Bioinformática, Biologia Computacional, Ciência de Dados (Data Science) e de Segurança Informática a ser os mais afetados.

Esta decisão irá pôr em risco a educação e frequência universitária de muitos estudantes e limitar o seu acesso a vários ciclos de estudo, por falta de capacidade para suportar estes aumentos”, lamentam.

Fonte da U.Porto adiantou à Lusa que houve 23 mestrados que tiveram um aumento de 50 euros anuais, ficando nos 1.300 euros de propina, e outros seis mestrados que registam um aumento superior, de 180 euros ou 375 euros, fixando a propina nos 1.430 euros e 1.625 euros anuais.

A U.Porto acrescenta estar “legalmente impedida de aplicar valores de propina diferenciados entre estudantes do mesmo curso, tal como as restantes instituições de ensino superior.

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