O presidente da Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea (APPLA) disse hoje à Lusa que o incidente com um 'drone' no aeroporto do Porto "tem de ser investigado, pelo menos pela polícia", e garantiu que vai investigar o assunto.

Um avião que se preparava para aterrar na quinta-feira no aeroporto do Porto quase colidiu com um 'drone' a 450 metros de altitude, obrigando os pilotos de um Boeing 737-800, da companhia TVF, France Soleil, grupo Air France/KLM, a realizar várias manobras.

A APPLA já está a trabalhar neste acontecimento, nós vamos tentar falar com aquela tripulação, porque não eram associados da APPLA, nem sequer eram portugueses, para saber exatamente o que aconteceu", afirmou Miguel Silveira.

"Obviamente vamos investigar, a associação dos pilotos tem um gabinete recentemente formado liderado por um ex-presidente da associação", prosseguiu, acrescentando que a APPLA vai falar com o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), com a tutela e, "se necessário for, com a polícia, para tentar ajudar, para tentar perceber", para que as pessoas também possam ficar descansadas.

"A APPLA vai atuar", sublinhou, depois de o diretor do GPIAAF ter explicado que, apesar de a entidade ter sido notificada, como este tipo de ocorrência não é de investigação obrigatória e o gabinete não dispõe de meios humanos para se dedicar às investigações que não sejam obrigatórias, este incidente não será investigado por este organismo.

"Se se começa por parte do GPIAAF a falar que não têm fundos, faz-me lembrar uma história muito recente que levou ao afastamento do ex-diretor do GPIAA [extinto Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, que deu lugar ao GPIAAF]. Fico um bocadinho confuso, obviamente que não há que investigar apenas os reportes obrigatórios", acrescentou.

Segundo o presidente da APPLA, "para o avião ter feito manobras de evasão, obviamente devia ser um 'drone', em termos de peso, considerável", pelo que deu os "parabéns aos pilotos" que conseguiram evitar a colisão.

Salientou que, sendo um crime tipificado na lei, este incidente "tem de ser investigado, pelo menos pela polícia".

Em janeiro, entraram em vigor as regras de utilização de 'drones' em espaço aéreo, as quais preveem coimas até 2.500 euros.

"Relativamente à polícia, sendo isso um caso de investigação de ordem criminal, acho que o terá de fazer, mas agora tanto para um lado como para o outro, para o GPIAAF e para as forças policiais, digo-lhe sinceramente: as investigações são extremamente complexas e raramente, em qualquer ponto do globo, inclua os países mais avançados nessa matéria, se consegue chegar à pessoa que era a proprietária do 'drone' ou que fez a brincadeira com o 'drone'", sublinhou.

Para o presidente da APPLA é necessário fazer uma "reflexão simples" e "regulamentar o uso e a aquisição de 'drones' de uma outra forma", uma vez que "hoje em dia" já existe "tecnologia para isso".

A tecnologia poderia localizar e monitorizar a compra e o uso deste tipo de aeronaves não tripuladas, tal como acontece atualmente com as armas.

A segurança não olha aos fatores obrigatórios ou não obrigatórios (...), vejo com preocupação mais este incidente, há uma escalada", afirmou Miguel Silveira.

"Sempre estivemos disponíveis e sempre tivemos com o GPIAA", disse, adiantando que quando regressar a Portugal - a APPLA já tem um elemento a trabalhar neste assunto - vai reunir-se com o GPIAAF "e perceber melhor o que pode ser feito".

O GPIAAF dispõe, atualmente, de dois investigadores para a área aeronáutica, e recebeu desde o início do ano quatro reportes deste tipo de incidentes: dois em Lisboa e dois no Porto.

Em 2016, o extinto GPIAA recebeu 31 reportes de incidentes com Sistemas de Aeronaves Pilotadas Remotamente, mais conhecidos por 'drones', a maioria registados na proximidade do aeroporto de Lisboa.