Dois arguidos no julgamento do processo do roubo e recuperação de armamento da base militar de Tancos apresentaram esta quinta-feira versões opostas sobre o que disseram ao ex-ministro da Defesa sobre uma chamada anónima e a existência de um informador.

O ex-diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM) Luis Vieira afirmou que não contou ao então ministro da Defesa, e também arguido no processo, Azeredo Lopes sobre realização de uma chamada anónima, por um elemento daquela polícia, após a descoberta do armamento furtado, a 18 de outubro de 2017 na Chamusca.

O depoimento de Luis Vieira, contraria as afirmações do ex-investigador da PJM major Vasco Brazão, que disse que o ministro foi informado por telefone da referida chamada e que, inclusivamente, frisou que esta tinha de ser explicada.

Só soube da chamada anónima uns dias depois pelo coronel Estalagem”, afirmou Luis Vieira, acrescentando que também não viu o chefe de gabinete de Azeredo Lopes a fotografar o memorando sobre o caso, que não participou na sua elaboração e que não informou o ministro sobre a existência de um informador.

Questionado pelo juiz sobre o motivo de não ter comunicado a descoberta do material ao Ministério Público Luis Vieira afirmou: “porque não tinha a certeza que era o material furtado, só soube isso pelas 10 da manhã”, adiantando depois que essa comunicação era da responsabilidade do diretor da investigação criminal da PJM, coronel Estalagem.

Esta atitude provocou alguma perplexidade ao juiz que lembrou ao arguido que tinha “falado com seca e Meca” menos com o Ministério Público e que era um diretor de uma polícia.

Na minha cabeça estavam apenas dois desejos. Reverter o despacho da PGR e recuperar o material de guerra”, disse Luis Vieira, desvalorizando a comunicação da recuperação das armas ao MP e insistindo na necessidade de retirar rapidamente o armamento do local devido ao perigo que este representava.

Sobre os encontros com o ministro, Luis Vieira afirmou que pretendia manifestar-lhe a discordância com a decisão da investigação passar para a PJ e que lhe entregou documentação para memória futura, admitindo que pensou em demitir-se.

Sobre o material furtado, o militar referiu que este “era muito, muito perigoso e altamente sensível”, mas que tinha “a certeza que quem o levou não sabia o que estava a levar”.

Contudo, sustentou, “uma organização terrorista não fazia uma operação destas”, insistindo que desde que teve conhecimento do furto aos paióis “havia qualquer coisa que não jogava bem”.

Antes do interrogatório de Luis Vieira, o tribunal voltou a ouvir o major Vasco Brazão, que depois de responder a vários advogados se recusou a responder a perguntas do defensor do autor confesso do furto, João Paulino, quando foi confrontado com contradições em relação ao primeiro interrogatório judicial.

A determinada altura, o militar desabafou: “se formos palavra a palavra, estão eu menti do princípio ao fim”, justificando que, quando foi presente ao juiz de instrução criminal, tinha estado uma semana sem dormir e regressado de uma missão na República Centro Africana.

O magistrado lembrou o arguido que todas as suas declarações iriam ser utilizadas na ponderação da sentença.

O senhor disse coisas muito diversas no interrogatório e depois aqui, tem noção disso”, questionou o juiz-presidente, com o próprio Brazão a assumir as contradições.

Luís Vieira está acusado de associação criminosa, tráfico e mediação de armas, falsificação ou contrafação de documentos, de denegação de justiça e prevaricação e de favorecimento pessoal praticado por funcionário em coautoria com outros arguidos da PJM, entre os quais Vasco Brazão, da GNR e com Azeredo Lopes.

O depoimento do ex-diretor da PJM prossegue na segunda-feira.

/ HCL