O ministro da Defesa considerou que o pedido de demissão do CDS “não faz sentido nenhum”, e constituiu “uma espécie de 'bullying' político”, mas disse encarar “com normalidade” a constituição de uma comissão de inquérito sobre Tancos.

“Neste caso, já tenho um bocadinho a pele dura, porque o CDS pede a minha demissão desde 03 de julho de 2017. Ao fim de um ano, três meses e dois dias, já criei alguma resistência. Sem querer fazer ironia, acho que não faz sentido nenhum. Se tivesse sentido, obviamente já teria apresentado a minha demissão, não tenho apego a cargos que não me leve a ter a lucidez de analisar o que faço”, sustentou.

Azeredo Lopes pronunciava-se, à margem da reunião dos ministros da Defesa da NATO em Bruxelas, sobre a proposta de comissão parlamentar de inquérito ao furto de armas em Tancos para apurar responsabilidades políticas do Governo, quem falhou e por que falharam as medidas de segurança, com os centristas a defenderem também a demissão do ministro.

“Que fique muito claro: aquilo que o CDS pede, pede legitimamente. É um partido político, está a fazer oposição, considera que eu devo demitir-me, por isso encaro isso sem quaisquer 'hard feelings', sem críticas pessoais, embora às vezes até pareça uma espécie de 'bullying' político”, observou, acrescentando encarar “com toda a normalidade” a constituição de uma comissão de inquérito.

“Já nem sei contar as vezes em que estive no parlamento, e estive sempre as vezes que foram necessárias, para responder às questões, às críticas”, lembrou, ironizando que a oposição lhe imputa uma “lista quase telefónica” de responsabilidades.

Azeredo Lopes insistiu ainda que o parlamento existe, entre outras dimensões, para escrutinar, e escusou-se a revelar se retirará ilações políticas da comissão de inquérito: “Sobre as conclusões da comissão parlamentar de inquérito não me vou pronunciar, tanto quanto sei nem foi ainda aprovada e já estamos a discutir o fim do jogo?”.

No entanto, estimou que seria “muito estranho” que a comissão considerasse que é o responsável político, uma vez que o próprio assumiu essa responsabilidade em 01 de julho.

“É fácil perceber que, neste caso, o Governo agiu bem porque foi posto perante um facto que é grave. Foi feito depois um trabalho muito aprofundado, […] que pode demonstrar o tempo infinito em que a situação de fragilidade dos paióis já se mantinha, e depois foi tomado um conjunto de medidas muito profundas e exigentes para restabelecer, perante os cidadãos, as condições de segurança de todo o material de guerra”, apontou.

O responsável pela tutela da Defesa admitiu ainda que pode “garantir, tanto quanto é possível garantir” que um caso como o do furto de material militar dos paióis de Tancos - instalação entretanto desativada – não voltará a acontecer.

“Se colocar todos os sistemas antirroubo em sua casa, de certeza que não pode garantir que não há um roubo em sua casa. Mas pode, com certeza garantir, que fez todos os esforços para que uma situação destas não se torna a repetir”, sustentou.

Esta quinta-feira, o jornal Expresso avança que o major Vasco Brazão, o último arguido a ser ouvido no âmbito do processo, garante que o ministro Azeredo Lopes sabia da encenação montada na Chamusca mais de um mês após a recuperação do arsenal roubado em Tancos. O mesmo jornal avança que o ministro, quando confrontado com essa informação, invocou o segredo de justiça, mas negou ter tido conhecimento da encenação.

"Embaraço" pelo envolvimento de militares 

O ministro da Defesa reconheceu que preferiria “mil vezes” que se pudesse olhar para Tancos como “uma questão bem resolvida”, e assumiu o embaraço causado pelo envolvimento de militares numa investigação criminal.

“Se me pergunta se é agradável todo o conjunto de situações que tem vindo a lume, não, não é. Estaria a mentir. Preferia mil vezes que tudo isto não tivesse ocorrido, preferia mil vezes que a investigação já pudesse estar concluída, preferia mil vezes que pudéssemos olhar para Tancos como uma questão bem resolvida”, declarou aos jornalistas em Bruxelas.

Todavia, Azeredo Lopes defendeu que, numa perspetiva mais otimista, prefere que, após a descoberta do material militar furtado dos paióis de Tancos, se esteja mais perto da solução.

Questionado sobre se a detenção do o major Vasco Brazão, que estava na República Centro-Africana em serviço com o contingente português da força das Nações Unidas, foi motivo de embaraço durante o encontro dos ministros da Defesa da NATO, o governante argumentou que esta causou apenas “o embaraço e o lado desagradável de qualquer militar que esteja envolvido numa investigação criminal”.

“É o único embaraço que essa situação causa. Agora, repito, respeito muito duas coisas: primeiro, aquilo que está sob segredo de Justiça, segundo a presunção de inocência. O aspeto que é menos bom é qualquer militar ver-se envolvido em qualquer investigação criminal”, completou.

"No limite, pode não ter havido furto nenhum"

O ministro da Defesa falou ainda com os jornalistas sobre a expressão que utilizou há mais de um ano.

A expressão "no limite, pode não ter havido furto nenhum”, foi “um desastre” em termos políticos, esclarecendo, contudo, que quis dizer o contrário do que lhe foi atribuído.

Questionado sobre se em algum momento pensou que o furto do material militar em Tancos não tivesse efetivamente acontecido, Azeredo Lopes respondeu: “suponho que esteja a falar sobre aquela expressão que vai marcar-me até ao fim dos meus dias”.

O ministro da Defesa referia-se a uma expressão proferida em entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, divulgada em 10 de setembro de 2017, que foi amplamente noticiada.

"No limite, pode não ter havido furto nenhum. […] Por absurdo podemos admitir que o material já não existisse e que tivesse sido anunciado… e isso não pode acontecer”, disse então.

“A frase continua. O meu apelo na altura era justamente: espero que a investigação criminal avance o mais depressa possível, para que, no limite e por absurdo, não se alegue que não houve um furto”, esclareceu.

Azeredo Lopes recordou que, na altura, pouco se sabia sobre o caso Tancos, e que o peso no espaço público do conjunto de teorias que diziam que não tinha havido furto, mesmo entre as forças militares, era grande.

“Já percebi que, em termos políticos, é um desastre, que não se pode fazer uma frase complexa, com duas negativas. Já recebi a lição comunicacional, e não torna a acontecer. O que eu disse foi exatamente o contrário do que me foi atribuído”, defendeu.

Novo diretor da PJM

O ministro da Defesa esclareceu hoje que a responsabilidade da escolha do comandante Paulo Isabel para assumir as funções de diretor-geral da Polícia Judiciária Militar (PJM) foi sua, e disse ter plena confiança “na pessoa” que nomeou.

“Deixem-me esclarecer que fui eu que nomeei, que fui eu que escolhi, para atalhar aquilo que nos ‘mentideros’ causou algum ruído pela circunstância de no comunicado ter sido afirmado que [a nomeação do comandante Paulo Isabel] era sob proposta do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas”, pediu aos jornalistas em Bruxelas, onde decorre a reunião dos ministros da Defesa da NATO.

Azeredo Lopes disse que solicitou ao Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, almirante Silva Ribeiro, que perguntasse “aos ramos se podiam apresentar nomes”, considerando “importante que a escolha do ministro seja o mais esclarecida possível”.

“Evidentemente que a escolha é minha, que a responsabilidade da nomeação do comandante Isabel é minha. Tenho plena confiança na pessoa que nomeei. Espero que neste momento, que é sensível, porque nunca é agradável aquilo a que temos vindo a assistir, a instituição possa voltar serenamente ao seu caminho, que é o de fazer a investigação”, completou.

Azeredo Lopes escusou-se a comentar uma eventual fusão entre a Polícia Judiciária e a PJM, argumentando que “não é nunca a quente, e no meio da tempestade, que se tomam decisões serenas”.

“Essa reflexão provavelmente irá ser feita, mas sem qualquer preconceito”, concluiu.

O comandante Paulo Isabel assumiu na terça-feira as funções de diretor-geral da PJM, em regime de substituição, na sequência da detenção do até agora responsável desta polícia, Luís Vieira..

Na segunda-feira chegou a Portugal e foi detido o major Vasco Brazão, que também foi porta-voz da Polícia Judiciária Militar.

Segundo o Ministério Público, em causa estão “factos suscetíveis de integrarem crimes de associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas”.

A Polícia Judiciária deteve, em 25 de setembro, no âmbito da Operação Húbris, que investiga o caso da recuperação das armas furtadas em Tancos, o diretor e outros três responsáveis da Polícia Judiciária Militar, um civil e três elementos do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé.

Na sexta-feira, o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decretou prisão preventiva para o diretor da Polícia Judiciária Militar, Luís Vieira, e para o civil.

O furto de material militar dos paióis de Tancos - instalação entretanto desativada - foi revelado no final de junho de 2017. Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.