António e Rosária emigraram para a capital de França, Paris, nos anos 60, quando ainda eram adolescentes. Na altura, António já era órfão de pai desde os 5 anos e de mãe desde os 15. Ambos os progenitores foram sepultados, no mesmo terreno, no cemitério de Reguengo do Fetal, uma freguesia do concelho da Batalha.

Não tinha possibilidades de meter campa, naquela altura. Quando comecei a ganhar dinheiro, quando vim aqui para França, em 1975, quando pude voltar a Portugal, comprei o terreno onde eles estavam sepultados", conta António Caixeiro à equipa de reportagem do Acontece aos Melhores, em Paris.

Prova disso é um alvará que se encontra na posse do emigrante, e que atesta que foi concedido a este homem, pela junta de freguesia do Reguengo do Fetal, o terreno onde os pais estavam enterrados. Na altura, o emigrante pagou o imposto pela transmissão do bem junto das Finanças e o alvará foi assinado e carimbado pelo presidente da junta.

Desde então, todos os anos o emigrante e a esposa fazem questão de regressar à terra que o viu nascer para prestar homenagem aos pais. 

Sempre tive a preocupação que os meus pais me vissem lá do céu, onde eles estão, que eu realmente não pude mostrar que era bom filho, quando eles eram vivos, porque morreram muito novos. E a minha preocupação sempre foi dar-lhes uma campa digna para que o seu nome ali fosse imortalizado."

No entanto, 2018 foi o último ano que conseguiram fazer uma visita a Portugal, devido a questões de saúde e, depois, à pandemia.

Este ano, fazia três anos que não íamos a Portugal. Fomos, então, com os meus pais", conta Marco Caixeiro, o filho de António, ao Acontece aos Melhores.

A família aterrou em Lisboa a meio de julho deste ano. Depois de uma breve estadia na capital, rumaram a Fátima e a Reguengo do Fetal, precisamente para visitar a campa dos pais de António. Chegaram ao cemitério, no dia 24 de julho, e foi o neto mais velho de António e de Rosária que guiou a família até ao túmulo dos bisavós.

Ele avança no cemitério, e volta para trás a dizer-nos que não encontrava a campa dos bisavós. Eu e o meu pai não nos incomodámos, porque o cemitério não é um sítio onde vamos todos os dias. A última vez tinha sido há quatro anos. Então, achámos que ele se tinha enganado na ala, então disse-lhe que já ia ver", conta Marco Caixeiro ao Acontece aos Melhores.

Certo é que, minutos depois, o filho de António testemunhou aquilo que jamais imaginava poder ver.

Chegámos ao sítio e dissemos 'isto não é possível'. Estávamos lá, no local certo, e não havia campa nenhuma."

No cemitério, em vez da campa dos pais de António, estava um monte de terra, como se naquele local tivesse sido sepultado alguém recentemente. À cabeceira da sepultura estava apenas uma jarra com flores artificiais.

É inacreditável esta situação. Não conseguimos imaginar o que aconteceu. Alguém pegou numa campa de mármore e fugiu?", questiona, com indignação, Marco Caixeiro.

Não temos garantia de que não se tenha passado mais nada. Em primeiro lugar, a campa desapareceu, o que para mim é inacreditável. Por outro lado, não sabemos se os corpos foram mexidos", revela Marco Caixeiro.

Num primeiro momento, a família pensou que pudesse ter sido vítima de um assalto ao cemitério.

Um ladrão, quando vai a uma casa, remexe nos armários, em tudo, para ver se encontra dinheiro ou ouro. Depois não vai por trás arranjar as coisas. Como é que esse ladrão, suposto, que roubou a campa, veio depois ajeitar a terra que agora se encontra lá? E foi buscar uma jarra velha para lá colocar?", questiona António Caixeiro.

Descartado o cenário de assalto, Rosária, a mulher de António, traçou outro caminho para o desaparecimento misterioso do campa.

Nós aqui em França, as concessões dos cemitérios, antigamente eram até 100 anos, agora o máximo é 30 anos. Depois, tem de se pagar, porque se não, a concessão já não é nossa."

Porém, António Caixeiro garante que concessionou o terreno de forma vitalícia: "Naquele terreno, nunca mais ninguém poderia ter mexido."

Isso mesmo confirmou o presidente da freguesia até às últimas eleições, Horácio Sousa, a António e a Rosária, num encontro que tiveram logo após o desaparecimento da campa, na sede da junta de freguesia de Reguengo do Fetal. Sendo assim, não há dúvidas de que o terreno só pode ser usado por António e, ali, não é possível sepultar outras pessoas.

Certo é que, na mesma reunião, apesar de se esclarecem algumas questões, surgiram outras que fazem adensar o mistério.

O presidente da junta disse-me que o meu talhão no cemitério era o número 88. Quando cheguei a França percebi que, afinal, era o número 87", detalha António Caixeiro.

Como na campa também está inscrito, agora, o número 88, pode estar em causa, também, um erro de numeração. E a falta de correspondência entre os alvarás e os lugares físicos no cemitério poderá ter levado à retirada da campa, por engano. Ainda assim, uma suspeita longe de ser uma certeza.

Não é muito normal uma pessoa chegar à campa e, afinal de contas, ver que não existe lá nada. A responsabilidade primária pertencerá a quem, na verdade, retira. Essa pessoa é que terá de devolver ou indemnizar o concessionário (António Caixeiro)", considera Paulo Veiga e Moura, advogado especialista em direito administrativo.

António Caixeiro garante ao Acontece aos Melhores que, quando esteve reunido com o presidente da junta, este comprometeu-se a investigar o desaparecimento da campa junto do coveiro e da empresa que, habitualmente, instala os mármores naquele cemitério. Além disso, o autarca terá dito ao emigrante que, até setembro, a campa seria reposta.

Mas, até agora, nada. Na altura do desaparecimento, a GNR esteve no cemitério, porém parece não existir qualquer testemunha ou pista sobre quem e como retirou a campa de onde não devia.

Se eles fizeram queixa, vai ser uma queixa contra incertos. Provavelmente, vamos chegar ao fim e não se apuraram os incertos e, como tal, a culpa vai morrer solteira", alerta Paulo Veiga e Moura.

Marco Caixeiro não tem dúvidas, ainda assim, que os responsáveis do desaparecimento da campa são os responsáveis pelo cemitério, ou seja, a junta de freguesia de Reguengo do Fetal, uma vez que o cemitério é um local fechado e sob o controlo da freguesia.

No fim de contas, o mistério continua por resolver: mas, afinal, onde está a campa desaparecida?

As três teorias

De Paris a Reguengo do Fetal são pouco mais de 1600 quilómetros. Nesta freguesia, situada no coração do concelho da Batalha, vivem cerca de dois mil habitantes e foi, junto das pessoas, que começamos a nossa procura. Mas parece que nesta terra as respostas não são fáceis de encontrar. 

Esta situação é inacreditável, é muito difícil acreditar que alguém pegou num monte de mármore e fugiu, há alguma coisa estranha aqui."

Hélder Henriques, coveiro do município, garante que não só não mexeu no terreno, como não deu conta de movimentos estranhos no cemitério. Cemitério esse que, apesar de ser gerido pela Junta de Freguesia de Reguengo do Fetal, não tem qualquer tipo de segurança diurna ou noturna, nem videovigilância. Assim, António Caixeiro, dono do terreno acidentado, colocou várias hipóteses em cima da mesa numa tentativa de perceber o que aconteceu à campa número 88. 

Teoria 1: um possível roubo.

Um possível roubo foi uma das primeiras hipóteses, mas rapidamente caiu por terra. De acordo com o coveiro, a campa pesaria mais de mil quilos, algo impossível de ser transportado por uma só pessoa. Numa freguesia pequena, onde tudo se sabe, seria bastante complexo fazê-lo sem que nenhum habitante desse conta de movimentações estranhas na aldeia. 

O senhor da GNR disse logo ao meu marido: isto aqui não foi furto. Ou foi um erro ou um lapso”recorda Rosária Santos.

Para além disto, tanto o coveiro como o presidente da Junta garantiram à nossa equipa que no terreno há campas e esculturas muito mais valiosas do que a colocada no terreno da família de emigrantes.

O cemitério terá centenas e centenas de milhares de euros em campas ali. Há campas muito mais valiosas que esta, portanto se alguém quisesse furtar uma campa para vender provavelmente pegaria noutras que lhe rendessem mais dinheiro.”

À data dos incidentes, a Guarda Nacional Republicana da Batalha, tomou conta da ocorrência e o caso foi entregue ao Ministério Público, mas sem provas ou testemunhas, o mais certo é que acabe por ser arquivado.

Teoria 2: um engano na numeração das campas.

Em 1975, quando adquiriu o terreno, António Caixeiro ficou na pose de um alvará que indica que é concessionário da campa número 87. Mas de acordo com os dados da Junta de Freguesia, os pais do emigrante em França, estão sepultados no terreno 88. Uma troca que poderia justificar o desaparecimento da campa, mas segundo explica Horácio Sousa, o presidente da Junta à data dos factos, trata-se apenas um erro no documento original. Ou seja, desde os anos 70 que os pais de António estão enterrados no número 88 e quanto às ossadas, o ex-Presidente assegura que o interior do terreno nunca foi mexido.

Teoria 3: o término da concessão.

António e a esposa Rosária, puseram também a hipótese de terem perdido o direito ao terreno, isto porque apesar do contrato assinado ser vitalício, a concessão foi feita há mais de quarenta anos. Mas esta teoria não passa também de uma suposição sem fundamento. De acordo com o advogado Paulo Veiga e Moura, o casal de emigrantes continua como proprietário do terreno que pode até ser vendido ou herdado. Mas uma vez que a família não visitava o local há já seis anos, poderia a Junta de Freguesia fazer alterações no local? De facto, não, e segundo o Presidente da Junta nunca foi emitida qualquer ordem nesse sentido. 

Hoje ainda não conseguimos saber a razão por que desapareceu. Não foi da nossa autoria, não tivemos conhecimento, nem demos indicação a ninguém para retirar campas”explica o presidente da Junta de Freguesia do Reguengo do Fetal à data dos acontecimentos.

Sem respostas à vista, certo é que nem a Junta de Freguesia de Reguengo do Fetal, nem a Câmara Municipal da Batalha ou o coveiro do cemitério sabem o que poderá ter acontecido à campa. António fica assim não só sem respostas para o sucedido, mas também com prejuízos por calcular. Horácio Sousa, ex-presidente da Junta do Reguengo, entende que não tem que pagar os prejuízos causados, mas de forma a resolver o caso, pediu um parecer aos serviços jurídicos da autarquia. Germano Pragosa, vereador da Câmara, confirmou-nos que o pedido já foi remetido e que está agora em fase de análise. Até haver uma resposta final, António e a mulher Rosário, ficam por terras francesas, mais propriamente em Paris, mas sem qualquer justificação plausível para aquilo que, de facto, parece só acontecer aos melhores.