Pela hora de jantar do dia 11 de setembro, debaixo do viaduto de Santa Apolónia, a 100 metros do local onde foi encontrado o bebé no lixo, uma jovem tímida, mas sorridente, foi buscar um prato de comida quente junto dos voluntários do Centro de Apoio aos Sem Abrigo (CASA) que acompanhávamos.

Parecia não pertencer àquele amontoado de tendas, cobertores e caixas de cartão.

Sempre arredia, lá nos foi contando a sua história. Pedimos-lhe que o fizesse com a câmara ligada. Recusou. Insistimos e garantimos que não lhe revelaríamos a identidade. Combinámos mesmo que chamaríamos Ana. E Sara, que passou a chamar-se Ana, acabou por ceder.

“Vim para casa de uma amiga. Ela tinha a filha doente para tratar. Vim para casa dela, porque foi a embaixada de Portugal… acho eu… que deu a casa. Quando ela já tinha a filha tratada e era para ela sair da casa… para deixar… então eu tive de ir embora.”

Sara ficou uma primeira vez sem teto quando ainda estava na escola. Em pleno 11.º ano. Foi uma colega de escola que a acolheu em casa. Quando terminou o ano letivo, Sara saiu de casa da amiga. Contou-nos que preferiu ir para a rua porque o ambiente em casa da amiga era hostil e havia muitas discussões. Deambulou pelas ruas até um amigo a chamar para o acampamento montado debaixo do viaduto.

“Estou aqui há três meses, mas eu não quero essa vida. Eu sou muito nova para estar nessa vida. Eu quero estudar viver a minha vida, trabalhar… eu não quero isto…”

Na altura que falou connosco, Sara estaria já grávida de sete meses. A nós, que não a conhecíamos, nada nos fez crer que estivesse sequer numa fase inicial de gravidez. Os voluntários, que a conheciam melhor, desconfiaram e confrontaram-na com essa possibilidade. Assegurou-lhes que não estava grávida. Eles prometeram ficar atentos.

Falou-nos de esperança e dos planos que tinha traçados para sair da rua e que se iriam concretizar em breve. Uma suposta mulher terá ido buscar o irmão à rua e ter-lhe-á prometido a ela uma casa e um trabalho. Segundo Sara, estaria mesmo agendada uma visita ao quarto para onde iria viver para o sábado seguinte.

À TVI, Sara contou que toda a família estava em Cabo Verde e que, agora, só pensava em trabalhar, para ganhar dinheiro e ir ter com a família.

“O meu maior sonho… o maior, maior? Quando a minha mãe estar velhinha, eu cuidar da minha mãe.”

Desde esse dia, deixou de ser vista na zona pelas equipas do CASA, o que levou os voluntários a acreditarem que tinha tido sorte e que, de facto, alguém a tinha ajudado a encontrar um trabalho e um teto para dormir.

Só aquando da detenção, as coincidências entre a identidade da detida e as características de Sara suscitaram dúvidas.

Dúvidas só agora esclarecidas. A jovem com quem falámos é a que está presa por fortes indícios de tentativa de homicídio do filho recém-nascido.