O homem acusado de burlar câmaras municipais e instituições sociais do país negou hoje à Lusa ter obtido verbas indevidas para transportar da Suécia equipamentos ortopédicos e hospitalares doados, alegando que os valores recebidos foram declarados.

A acusação que sustenta o julgamento, cuja segunda sessão decorre hoje no Tribunal de Faro, refere que Carlos Quaresma recebeu indevidamente cerca de 265 mil euros, ao receber pelo transporte dos equipamentos aproximadamente seis mil euros a mais, relativamente ao valor real, por cada autarquia ou instituição.

Em declarações à Lusa, o único arguido no processo e que durante anos intermediou o envio de donativos da Fundação AGAPE para Portugal, residente na Suécia, negou ter obtido indevidamente essas quantias e argumenta que o dinheiro recebido correspondia ao valor real: numa fase inicial era 8.000 euros mas, mais tarde, foi aumentado para 13.000 euros.

Eu não podia receber dinheiro a mais pelo transporte porque vinha tudo por transferência bancária e, se eu ficasse com o dinheiro aqui [na Suécia], era logo incriminado", alegou Carlos Quaresma, que pediu dispensa do julgamento por motivos de saúde e foi inquirido através de cartas rogatórias enviadas para as autoridades suecas.

Segundo o arguido, o custo do armazenamento e transporte do material para Portugal começou por ser de 8.000 euros, mas depois o presidente da Fundação AGAPE, organização não-governamental sueca que tem doado material ortopédico e mobiliário médico em todo o mundo, decidiu aumentar para 13.000.

"Nunca ninguém reclamou e as instituições têm todas as faturas corretas", referiu, sublinhando que esse custo se referia ao material expedido em cada camião, que carregava dez ou mais toneladas de bens, entre cadeiras de rodas, camas articuladas, colchões, mobiliário e andarilhos.

Contudo, de acordo com a acusação, deduzida em junho de 2017, a AGAPE apenas cobrava 3.000 euros por cada transporte e cerca de 1.300 euros por despesas de armazenamento.

Quando o caso da alegada burla começou a ser falado na imprensa portuguesa, em 2012, ano que coincide com a morte do fundador da Agape, Carlos Quaresma saiu da fundação.

Em 2013, o Ministério Público sueco arquivou um inquérito contra o português por suspeitas do mesmo crime, relacionado com a atividade da fundação sueca.

O português, hoje com 63 anos e que reside naquele país desde 1983, está acusado de 35 crimes de burla qualificada.