O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse, nesta sexta-feira, que Portugal está disponível para a construção de uma solução internacional que permita a Moçambique lidar melhor com os ataques terroristas no norte do país.

Temos disponibilidade para participar na construção de uma solução de apoio internacional a Moçambique para defesa da integridade territorial, soberania e defesa das populações, por ordem crescente de importância", respondeu Santos Silva, quando questionado sobre como pode Portugal ajudar Moçambique a lidar com os ataques de que o país tem sido alvo, principalmente no norte.

Falando à margem da apresentação do Plano de Ação na resposta sanitária à pandemia de Covid-19 entre Portugal e os PALOP e Timor-Leste, o governante disse que Portugal está "disponível para a cooperação", lembrando a cooperação "em defesa, muito sólida e produtiva, focada na assessoria técnica e na formação" que “tem permitido robustecer a capacidade do Estado moçambicano".

Na resposta, Santos Silva deixou ainda um "agradecimento sincero e sentido" pela ajuda das autoridades moçambicanas na proteção dos portugueses que residem ou trabalham na província de Cabo Delgado.

Portugal manifesta total solidariedade com o povo de Cabo Delgado, sujeito a ataques muitas vezes bárbaros conduzidos por grupos que não conhecem nenhuma espécie de regra, e que tem sido sujeito a ataques conduzidos por redes e organizações de natureza terrorista", afirmou o ministro.

Augusto Santos Silva acrescentou que há muitos portugueses no norte de Moçambique.

Agradecemos os esforços adicionais que pedimos ao consulado da Beira para identificar, um a um, e já identificou 200 pessoas, e portanto nós agradecemos ao Estado moçambicano e às forças de segurança e defesa, que com a sua ação protegem os nossos compatriotas e os nossos interesses", salientou.

A resposta do ministro surge na mesma altura em que o Instituto Tony Blair defendeu que os ataques de grupos insurgentes no norte de Moçambique devem ser enfrentados a curto prazo por uma força militar regional para evitar que a situação fique fora de controlo.

O estudo do Instituto para a Transformação Global, fundado pelo antigo primeiro-ministro britânico, alerta para a urgência de uma intervenção perante a deterioração da situação na província de Cabo Delgado, que atribui ao grupo terrorista Ansar al-Sunna, afiliado aos extremistas islâmicos do autoproclamado Estado Islâmico.

"Desde os primeiros ataques em Mocimboa de Praia, no final de 2017, o grupo lança agora mais de 20 ataques por mês numa insurgência que abrange nove grandes cidades e municípios ao longo da costa de Cabo Delgado. Uma batalha pela cidade de Macomia, no final de maio, demonstrou a capacidade e ambição organizacional do grupo, além de uma escalada nos esforços contra-ofensivos do Governo”, refere o estudo.

A vila de Macomia, a 200 quilómetros da capital provincial (Pemba), foi ocupada durante três dias seguidos por grupos armados, que saquearam vários estabelecimentos comerciais e vandalizaram várias infraestruturas, incluindo o centro de saúde local.

No total, os ataques dos insurgentes em Cabo Delgado, província moçambicana onde avança o maior investimento privado de África para exploração de gás natural, já causaram pelo menos 600 mortos.

Portugal prepara voo humanitário

Santos Silva anunciou também que Portugal já recebeu das autoridades moçambicanas a autorização necessária para realização de um voo humanitário com o apoio do Estado, de Lisboa para Maputo, ainda sem data definida.

O nosso foco está hoje em Moçambique, porque ainda está em estado de emergência, manteve fechado o seu espaço aéreo, e como havia muitos portugueses e outros europeus que tinham de regressar a Portugal, seja por motivos de trabalho, seja por motivos de saúde ou outro", lembrou Augusto Santos Silva.

"O que fizemos anteontem [quarta-feira] foi pedir formalmente autorização para um voo com o apoio do Estado, e a resposta de Moçambique foi imediata”, explicou o ministro, acrescentando que perante a resposta positiva hoje de manhã já se estava “a organizar o voo”.

O ministro lembrou que este não é caso único no relacionamento entre Portugal e os países onde há comunidades portuguesas relevantes, como o Luxemburgo, Estados Unidos da América, Canadá, Reino Unido ou Venezuela.

"Mercê da colaboração inexcedível das autoridades locais, foi possível, respeitando os limites do tráfego aéreo, organizar voos específicos, de Estado, para todos os PALOP e muitas vezes esses voos, nos percursos até às capitais dos países, transportarem material e apoios para a frente humanitária do combate à pandemia de Covid-19", concluiu Santos Silva.

O número de mortos por Covid-19 em África subiu para 7.395, mais 198 nas últimas 24 horas, em cerca de 275 mil casos, segundo os dados mais recentes sobre a pandemia no continente.

De acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (África CDC), o número de infetados passou de 267.519 para 275.327, mais 7.808.

Já o número de recuperados é de 125.316, mais 2.655.

A África Austral é a que regista um maior número de casos, (87.897) - e 1.777 mortos -, a grande maioria concentrada na África do Sul, o país com mais casos em todo o continente (83.890) e onde há 1.737 vítimas mortais.

Moçambique conta 668 doentes infetados e quatro mortos e Angola tem 166 casos confirmados de covid-19 e oito mortos.

  
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