António Regueira, tinha 19 anos quando fez as malas, disse adeus à aldeia que o viu nascer e partiu rumo ao litoral. Para trás deixou a barbearia da família, na Ribeira de São João, e seguiu rumo à Parede, em Cascais, para cumprir serviço militar. 

Aqui na Parede havia um quartel que agora já está desativado. Nós púnhamos as espingardas no quartel e vínhamos para os copos”, recorda António Regueira.

Na tropa cortou cabelos a sargentos e generais e, nos anos 70, decidiu abrir portas ao negócio de uma vida. Criou uma barbearia própria, chegou a trabalhar além-fronteiras e representou Portugal em vários concursos de moda.

Vinham clientes de Lisboa, de Oeiras, Algés, para os bailaricos e vinham aqui de propósito lavar a cabeça no sábado à tarde para fazer aqueles penteados altos”, conta o barbeiro à equipa do Acontece aos Melhores.

 

Tudo parecia correr de feição, mas foi nos anos 90 que António, já casado e com dois filhos, conheceu Francisco, o amor de uma vida. O papagaio de origem africana foi entregue ao barbeiro por uns clientes que, à data, não tinham condições para cuidar do animal. 

O Francisco é um papagaio muito inteligente, fala, canta o hino do Benfica, assobia, emita sons e é um querido para o senhor António”, explica Beatriz Sinogas, médica veterinária.

Um papagaio cheio de talentos que rapidamente deu que falar entre a vizinhança. O bicho acabou por ficar durante mais de duas décadas à porta da loja. Foi a alegria dos que por lá passavam e a companhia do barbeiro. Até que, no início deste ano, sem que nada fizesse prever, a vida trocou-lhe as voltas. Uma jovem, que o barbeiro nunca tinha visto, mas que se identificou como sendo defensora dos animais, questionou António se o animal era bem tratado. António respondeu que sim, mas, dias mais tarde, a polícia foi até à sua loja para apreender Francisco, é que o papagaio não tinha os documentos legais que comprovam a sua proveniência.

 

Eu fiquei nervoso, a partir daí nunca mais tive sossego. Eles levaram-me o animal sem eu me poder despedir

 

Estávamos no início do ano quando, em pleno confinamento, António foi obrigado a dizer adeus ao fiel amigo. O animal foi encaminhado para as instalações do Instituto de Conservação da Natureza e Floresta até que todos os documentos estivessem tratados. Mas, a preocupação crescia no seio da comunidade é que, ao contrário de outros animais, os papagaios quando são retirados do seu habitat podem começar a apresentar problemas de saúde. 

As aves em stress simplesmente podem cair para o lado e morrer, sem razão aparente, podem deixar de comer”, explica a médica veterinária que seguia o papagaio.

 

Assim, e de maneira a evitar o pior, a veterinária Beatriz Sinogas contactou o ICNF, acabou por ficar como fiel depositária do animal e, passado uma semana, o papagaio foi transferido para a clínica veterinária da Parede. 

Qualquer papagaio tem que ter este documento de origem desde 1984. Ninguém pode alegar desconhecimento da lei, mas a verdade é que não houve uma grande divulgação e as pessoas iam a uma loja ou uma feira e não tinham noção que precisavam deste documento”, diz João Loureiro do ICNF. 

Mas a verdade é que os passos para legalizar um papagaio como o Francisco não são assim tão difíceis. Para o fazer basta contactar o ICNF e preencher o pedido de legalização, um documento com o nome “CITES” que é uma espécie de cartão de cidadão para estas aves. De forma a garantir que o animal não esteve envolvido em nenhum esquema ilegal, por exemplo numa rede de tráfico, é preciso também apresentar uma prova documental ou testemunhal em como é o dono da espécie.

O preço do certificado CITES não é o preço do animal e uma multa pode atingir valores muito consideráveis. No caso de um papagaio cinzento a multa pode chegar aos milhares de euros”, afirma João Loureiro.

António Regueira garante que não cumpriu a lei por desconhecimento da mesma. Mas mesmo assim, acabou por receber em casa uma multa avultada pelo incumprimento. Com uma reforma pequena e com a barbearia fechada há mais de um ano por causa da pandemia, valeu-lhe a generosidade da comunidade que acabou por se juntar através das redes sociais e angariar dinheiro suficiente para que o Francisco, o papagaio mais famoso da Parede voltasse, finalmente, para casa.

Fui feliz quando fui pai de uma filha, quando fui pai de um filho, mas eu apaixonei-me pelo animal. E no fundo sim, posso dizer que acabou com um final feliz. Já posso morrer descansado, já tenho o Francisco comigo

Márcia Sobral