A noite de 16 de março podia ter sido a última para Maria (nome fictício). Durante uma discussão com o homem com quem partilhou a vida ao longo de um ano e meio, a mulher foi agredida pelo companheiro e, segundo a agente da PSP responsável pelo processo, “esteve entre a vida e a morte”.

Em março, o comunicado da PSP dizia que o suspeito “ameaçou e agrediu a vítima com uma arma branca”, provocando-lhe ferimentos na face. Em declarações à TVI24, Maria conta que, naquela noite, o companheiro a agarrou pelo pescoço, apontou-lhe uma faca à cara enquanto lhe gritava que a ia matar. Tudo aconteceu em frente ao filho mais novo da vítima. 

“(Pensava) Vou morrer e só me lembrava nos meus filhos. Eu, sinceramente, só me recordo de pensar nos meus filhos. Que nunca mais via os meus filhos”, conta, emocionada, na 7.ª Esquadra de Investigação Criminal de Lisboa, responsável pelos crimes de violência doméstica, onde veio conversar com a agente Alexandra e pedir ajuda para requerer o botão de pânico.

Na noite da agressão, a polícia foi chamada ao local pelos vizinhos e deteve o suspeito em flagrante delito. Suspeito esse que depois de presente a juiz ficou em liberdade, sujeito a apresentações diárias e proibido de se aproximar da vítima.

“Ele ainda não se aproximou. Mas depois de ir a tribunal vai tentar. Vai ficar mais enraivecido”.

Maria fala como se fosse uma certeza, mas o que tem como certo é o que irá fazer caso o ex-companheiro desrespeite a ordem do tribunal.

“Vou a uma esquadra. Vou à esquadra que ele não pode nem contactar, nem mensagem, nem telefonema, nem nada. Eu nem atendo números anónimos com receio. Não quero mais indivíduo à minha frente, tão pouco. É um crime sem perdão, nada justifica levantar a mão a uma mulher. Não podem considerar isso”.

É na esquadra que Maria tem encontrado ajuda e as palavras amigas de que tem precisado ao longo deste processo. O passo mais difícil foi o de apresentar queixa.

“Apresentei queixa. Eu já estava mentalizada para o que ia fazer. E penso que, quem sofra este tipo de violência, se não o fizeram logo no próprio dia esqueçam que já não o vão conseguir. E têm mesmo de ter cabeça fria para o fazerem. Eu quase que já estive para o lado de lá, eu vou com a minha queixa para a frente, nunca na vida vou desistir”, desabafa.

Na esquadra, a agente inspetora Alexandra, tem acompanhado o caso de Maria de perto. De voz calma e tranquila, explica a Maria todos os passos que tem de dar. O mesmo tom de voz com que nos conta o que aconteceu em março.

"Esta vítima esteve à beira da morte. Só não o esteve porque estava lá uma outra pessoa na habitação que travou um bocado a atitude do agressor. No entanto, quando ela estava a relatar a situação, era bem visível o sofrimento dela…. A vítima de violência doméstica é uma vítima que está quebrada a todos os níveis e ela precisa de sentir que está segura, que é amada. Precisa de sentir que é amada aqui na polícia que existe um conforto, que existe um acolhimento e que nós estamos do lado dela, que nós percebemos o problema dela. Ela tem de sentir que nós percebemos o que ela está a sentir, o que ela sofreu, o que ela está a passar na vida dela”, revela, acrescentando que nem sempre é fácil lidar com estes casos.

“É complicado para nós, porque temos de arranjar também sistemas e mecanismos para nos defendermos. Não podemos levar isto para casa”.

São agentes da PSP, vestem a farda, mas ali, dentro daquela sala, tentam ser um amigo em quem a vítima confia.

“Trata-se de saber acolher. É muito importante uma pessoa saber acolher uma vítima. Não é um crime como outro qualquer, não quer dizer que nos outros crimes as pessoas não sofram, mas a vítima de violência doméstica é uma vítima que está quebrada a todos os níveis e ela precisa de sentir que está segura, que é amada. Precisa de sentir que é amada aqui na polícia que existe um conforto, que existe um acolhimento e que nós estamos do lado dela, que nós percebemos o problema dela. Ela tem de sentir que nós percebemos o que ela está a sentir, o que ela sofreu, o que ela está a passar na vida dela", diz a agente Alexandra sob o olhar atento do agente Barreira, com quem partilha a sala. 

Ouvir, respeitar o tempo da vítima, aconselhar, ajudar. 

"A vítima quando vem aqui sabe que pode contar com alguém que a vai ouvir, mesmo que não seja para a situação de avançar com a queixa a vítima sabe que tem aqui alguém que pode confiar e com a qual pode desabafar. Muitas das vítimas pretende mesmo isso, é às vezes desabafar, comunicar qualquer situação nem que seja só para dizer ao agressor que a situação não pode continuar. Às vezes é uma chamada de atenção”, lembra o agente Barreira.

Até porque, na maioria dos casos, o mais difícil de vencer, é a dependência emocional da vítima para com o agressor.

"As vítimas têm uma ligação de afeto com o agressor e só por si é uma situação que vai constranger de alguma forma porque a vítima espera que dessa pessoa venha amor, venham outras coisas que não a violência".

No caso de Maria, a queixa seguiu e agora é ela quem dá força às vítimas para que os agressores não fiquem impunes, mesmo que continue a questionar porque é que os juízes continuam a libertar os agressores: "O que é isso para a vítima? Uma insegurança. Porque é que ele não ficou lá?".

“Apresentem queixas. Deu chapada, deu estalo, queixa. Não [podemos] deixar estas pessoas ficarem impunes. Nós não somos o elo mais fraco. E temos as autoridades que nos apoiam. Pelo menos a mim ainda não me viraram as costas. As vítimas têm de pensar é naquilo que têm. Neste caso eu tinha os meus dois filhos, eu tenho de pensar é nos meus dois filhos não tenho de pensar num relacionamento que não tem futuro", afirma, lembrando que encontra muita dessa força nos agentes da PSP que "têm sido incansáveis e até agora não" lhe "viraram as costas".