A celebração do 25 de Abril vai decorrer pela primeira vez sem ações de rua, devido ao surto de Covid-19, mas com a sessão solene na Assembleia da República, que já falhou em três dos 46 anos da democracia.

A sessão que assinala a Revolução dos Cravos no Parlamento não se realizou apenas em três dos últimos 46 anos, em 1983, em 1993 e em 2011.

Em 1983, por haver eleições legislativas no próprio dia 25 de abril; em 2011, por a assembleia se encontrar dissolvida; e em 1993, quando os órgãos de comunicação social decidiram em bloco boicotar todos os trabalhos parlamentares em protesto contra a limitação da circulação dos jornalistas no edifício de S. Bento, em Lisboa. Como não haveria cobertura, decidiu-se cancelar a sessão no parlamento.

Desta vez, o parlamento português, que está a funcionar em regime de 'serviços mínimos' desde a instauração do estado de emergência em 19 de março, decidiu realizar a sessão, embora com apenas um terço dos deputados (77 dos 230) e também menos convidados, estimando os serviços a presença de cerca de 130 pessoas no hemiciclo, contra cerca de 800 na cerimónia do ano passado.

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Associação elogia Parlamento e critica “inimigos da liberdade e da democracia”

A Associação 25 de Abril elogiou a decisão do Parlamento e respondeu aos críticos da decisão, que apelidou de “inimigos da liberdade e da democracia”.

Em comunicado, a associação informa que se fará representar apenas por um representante, que não será Vasco Lourenço, e elogia os “responsáveis políticos que dirigem Portugal” por terem encontrado uma solução para “evocar, com a dignidade exigida, o Dia da Liberdade”, com 130 pessoas devido à pandemia de Covid-19.

É uma cerimónia “mais simples e restrita que o habitual, mas igualmente digna, nas instalações da casa da democracia, a Assembleia da República, com a participação de todos os órgãos de soberania”, lê-se no documento.

Depois, a associação respondeu a quem criticou esta decisão que “está a ser alvo de uma desesperada tentativa de aproveitamento pelos inimigos do 25 de Abril, porque inimigos da liberdade e da democracia”.

Quem o faz, lê-se no texto, fá-lo de “forma oportunista e populista”, para atacar “o ato que os afastou do poder, porque derrubou a ditadura que os sustentava”.

Infelizmente, este aproveitamento parece estar a conseguir criar uma divisão exacerbada dentro da sociedade, que se encontra preocupada e ansiosa com os tempos que se vivem, mas que tem demonstrado até hoje, um enorme e louvável civismo frente a esta terrível situação”, concluiu a associação.

A realização da cerimónia evocativa da Revolução dos Cravos tem suscitado acesa polémica, sobretudo nas redes sociais e nos setores mais à direita da sociedade portuguesa, apesar de ter reunido a aprovação de partidos que representam mais de 90% dos votos saídos das últimas legislativas (PS, PSD, BE, PCP, PEV).

O Chega, único partido conotado com a extrema-direita no parlamento português, que conta apena com um deputado, criticou fortemente a sessão, bem como o líder do CDS-PP direita, considerando "um péssimo exemplo para os portugueses" o parlamento estar a realizar uma sessão numa altura em que se pede aos portugueses para se isolarem em casa, de modo a protegerem-se do contágio com o novo coronavírus.

Apesar da polémica, que preencheu mais as redes sociais do que as intervenções dos principais partidos, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e os maiores partidos portugueses decidiram levar a sessão por diante, acertando os pormenores de logística com a Direção-Geral da Saúde.

Mas desta vez, se tudo correr como pediu o presidente da Associação 25 de Abril, as ações de rua serão substituídos por uma forma original de evocação: os portugueses confinados em casa à janela a cantarem a "Grândola Vila Morena", de Zeca Afonso, à hora que deveria começar o desfile na Avenida da Liberdade, em Lisboa (15:00).

Vasco Lourenço, um dos promotores do desfile anual, pediu às televisões e rádios portuguesas que façam o mesmo, passando a "Grândola Vila Morena" à hora que deveria iniciar-se o desfile de Lisboa.

Marcelo ouve quadros da geração pós-25 de Abril

O Presidente da República divulgou hoje que tem ouvido regularmente "um grupo de quadros e profissionais liberais portugueses qualificados" da geração pós-25 de Abril, que considera ainda mais importante escutar na atual "fase de grande incerteza".

De acordo com uma nota publicada no portal da Presidência da República na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa reuniu-se no sábado por videoconferência com este grupo que é coordenado pelo investigador de relações internacionais Bernardo Pires de Lima.

O chefe de Estado refere que estas reuniões têm decorrido "periodicamente desde há quase dois anos" e que "desde o início" o seu objetivo foi "escutar opiniões relevantes e qualificadas sobre os desafios que se colocam à sociedade portuguesa, mantendo em permanência abertos canais de informação e reflexão com um grupo de profissionais, todos de uma geração nascida após o 25 de Abril, com protagonismo relevante nas suas áreas". 

"Nesta fase de grande incerteza sobre o futuro, seja no plano da saúde pública, seja da economia, o grupo revela-se de ainda maior utilidade, prosseguindo as suas reuniões com o Presidente da República, desta vez por videoconferência, como sucedeu no passado sábado, dia 18 de abril, comprovando assim, se necessário fosse, a importância da escuta permanente de setores, atividades e personalidades várias", acrescenta o Presidente da República.

Nesta nota, Marcelo Rebelo de Sousa remete para uma outra, divulgada em 22 de julho do 2019, na qual dava conta de que dias antes se tinha reunido com um "grupo de reflexão" coordenado por Bernardo Pires de Lima e com membros por este propostos, "no seguimento de outras reuniões realizadas desde há quase um ano".

Segundo esse comunicado, "os membros deste grupo de reflexão sobre o futuro de Portugal, de uma geração posterior ao 25 de Abril, têm percursos profissionais independentes e nenhuma filiação partidária", tendo alcançado "de forma geral um protagonismo relevante na gestão de empresas, no empreendedorismo, na indústria, na cultura, na ciência, no desporto, nas artes ou na investigação, entre outros setores e atividades". 

A lista então divulgada é composta por cerca de 40 nomes e inclui, entre outros, a empresária do setor vinícola Rita Nabeiro, o músico Tiago Bettencourt, a poeta Matilde Campilho e o arquiteto Diogo Bleck.

/ CE