Atuou já a diplomacia, após a decisão espanhola de prolongar a vigência da central nuclear de Almaraz, com a construção de um aterro de resíduos nucleares: o Governo protestou em Madrid e chamou "à pedra" o encarregado de negócios da embaixada espanhola em Lisboa.

Enquanto se espera nos próximos dias um protesto português junto da Comissão Europeia - por questões de legalidade, lealdade e de preservação ambiental, que não foram cumpridas, segundo o ministro Matos Fernandes - surge desde já o alerta para a falta de um plano de emergência nuclear, que Portugal não terá.

O meteorologista Costa Alves, membro do movimento cívico Tejo Seguro, alerta para essa necessidade, para fazer face a um eventual desastre na central espanhola de Almaraz.

Quero fazer uma referência à necessidade de o país [Portugal] não ter um plano de emergência para fazer face a um desastre [nuclear] em Almaraz e a necessidade de o criar", realçou o meteorologista Costa Alves em declarações à Agência Lusa.

Costa Alves reforça assim a necessidade de se dotar a proteção civil de um plano de emergência específico para um acidente nuclear em Almaraz e adianta que atualmente, "estamos completamente desprotegidos". "A exigência de que [a central nuclear] feche não significa que isso vá acontecer", frisou.

Para este cientista, que integra dois movimentos cívicos de Castelo Branco - o "Tejo Seguro" e "As Romãs também Resistem" - é preocupante a decisão de o Governo espanhol dar luz verde para a construção de um armazém de resíduos nucleares na central de Almaraz.

A 100 quilómetros [de Castelo Branco] temos uma central nuclear envelhecida, com vários problemas de funcionamento e agora ainda temos a sobrecarga de lidar com um armazém com material radioativo que tem uma vida semi-ativa de séculos e séculos", sustentou.

Nova manifestação prevista

O meteorologista adiantou ainda que está a ser planeada uma nova manifestação de protesto pelo Movimento Ibérico Anti-Nuclear, que congrega várias associações e movimentos cívicos de Portugal e de Espanha.

Fizemos a manifestação em Cáceres [no verão] e agora está a ser planeada pelas duas partes [portuguesa e espanhola], uma manifestação para Madrid, cuja data ainda não está definida mas que poderá ocorrer em março de 2017. Queremos também que se faça uma em Portugal", disse.

Costa Alves entende que a postura do Governo português, "que tinha estado tímido, começou a responder" e considera que esta mudança de atitude "são passos em frente que o Governo está a dar".

Quinta-feira, assim que o governo espanhol deu luz verde à construção do armazém para resíduos nucleares na central de Almaraz, localizada a cerca de 100 quilómetros da fronteira portuguesa, o ministério português do Ambiente reagiu. Com "surpresa", mas acusando Espanha de ilegalidade e deslealdade, estando prevista uma reunião entre ministros no próximo dia 12 de janeiro.

Queixas na Comissão Europeia

Além do Governo que pretende fazer chegar a questão de Almaraz à Comissão Europeia, o eurodeputado socialista Carlos Zorrinho também promete questionar Bruxelas sobre o assunto.

A decisão do Governo espanhol, além da dimensão diplomática de evidente falta de diálogo, está ferida pela suspeita de que antecipa deliberadamente a transposição da nova diretiva sobre o setor que Espanha deverá transpor até agosto do próximo ano e que é mais exigente em termos de normas de segurança e supervisão europeia", salientou o eurodeputado socialista numa comunicação enviada à imprensa.

Redação / PD