A Cimeira de Líderes sobre o Clima convocada pelo Presidente dos Estados Unidos arrancou esta quinta-feira, no Dia da Terra, entre apelos e promessas de líderes mundiais contra o aquecimento global e acusações de inação por jovens ativistas como Greta Thunberg.

Mas o que fica da política neste primeiro dia de uma cimeira histórica que coincidiu com o Dia da Terra?

Biden quer reduzir emissões para metade esta década 

O Presidente norte-americano, Joe Biden, comprometeu-se a reduzir para metade as emissões de gases com efeito de estufa do seu país até ao fim da década, apelando às maiores economias do mundo para se lançarem no mesmo caminho.

Falando na abertura de uma cimeira de líderes que convocou para pedir a vários líderes mundiais compromissos firmes para reduzir as emissões e combater as alterações climáticas, Biden indicou que os Estados Unidos querem ainda chegar a 2050 com emissões carbónicas neutras.

É para lá que nos dirigimos como nação: para a construção de uma economia não apenas mais próspera, mas mais saudável e mais limpa", declarou o chefe de Estado, que voltou a pôr os Estados Unidos no Acordo de Paris para conter o aquecimento global até ao fim do século, depois de o seu antecessor ter retirado o país desse compromisso.

Mas os Estados Unidos, apontou, são responsáveis por 15% das emissões mundiais e "nenhuma nação consegue resolver esta crise sozinha", afirmou Joe Biden, pedindo às maiores economias do mundo compromissos semelhantes.

O compromisso assumido esta quinta-feira, que aponta para uma redução de 50% a 52% das emissões carbónicas norte-americanas até 2030, representa quase o dobro do anterior, que apontava para uma redução de 26% a 28% até 2025.

Quando se fala de alterações climáticas, Biden diz que vê empregos e "uma oportunidade económica pronta a ser lançada", indo além da necessidade de preservar o planeta.

Brasil promete eliminar desflorestação

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, antecipou de 2060 para 2050 o prazo para acabar com as emissões de gases de efeito estufa e prometeu eliminar a desflorestação ilegal até 2030, durante o seu discurso.

Coincidimos com o seu apelo [do Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden] ao estabelecimento de compromissos ambiciosos. Neste sentido, determinei que a nossa neutralidade climática seja alcançada em 2050, antecipando em 10 anos a sinalização anterior”, disse Bolsonaro.

Bolsonaro não fez referência aos atuais recordes de destruição registados na Amazónia, maior floresta tropical do planeta, mas destacou o “compromisso de eliminar o desflorestamento ilegal até 2030 com a plena e pronta aplicação" do código florestal do país.

"Com isto eliminaremos em quase 50% as nossas emissões até esta data”, assegurou.

O chefe de Estado do Brasil, porém, não anunciou novas contribuições nacionalmente determinadas, que é a meta de descarbonização assumida no âmbito do Acordo de Paris.

Bolsonaro reiterou as metas já assumidas pelo país de cortar emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030.

Portugal empenhado em mais ambição na adaptação às alterações climáticas

O ministro do Ambiente e Ação Climática considerou como “crucial para a Europa e para o mundo” o atual momento e afirmou o empenho de Portugal em aumentar a ambição na adaptação às alterações climáticas.

Portugal foi o primeiro país do mundo a comprometer-se com a neutralidade carbónica e por isso estamos muito satisfeitos por o acordo sobre a Lei Climática Europeia ter sido alcançado durante a nossa Presidência do Conselho. Este é um momento crucial para a Europa e para o mundo”, disse Matos Fernandes.

A criação de um órgão consultivo científico e independente e a importância da adaptação às alterações climáticas foram também destacados pelo ministro quanto à lei aprovada.

Portugal está empenhado em aumentar a ambição em matéria de adaptação durante a nossa Presidência do Conselho Europeu. Estamos também profundamente empenhados em assegurar que a União Europeia continue envolvida eficazmente nas várias atividades que preparam o caminho para a COP26” (conferência da ONU sobre o clima, em Glasgow), disse João Pedro Matos Fernandes.

Presidente da República promete mandato com temáticas do ambiente mais publicitadas

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promete um segundo mandato de preocupação “mais publicitada” e acrescida com as temáticas do ambiente, e pede “consensos de regime” para matérias como a Lei do Clima.

A propósito do Dia da Terra, que se assinalou esta quinta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa deu uma entrevista à associação ambientalista Zero, na qual assinala a sua preocupação e atenção em relação às questões ambientais, frisando que essa postura será a mesma, ou ainda mais incisiva, no atual mandato.

Como país anfitrião da próxima (COP26) Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, o Reino Unido quer ver ambição nos países desenvolvidos para reduzir emissões e está “a trabalhar com todos, dos mais pequenos aos maiores emissores para garantir compromissos que mantenham o aquecimento global abaixo de 1,5 graus” em relação à era pré-industrial até ao fim do século, conforme estabelecido no Acordo de Paris, alcançado em 2015 na COP21.

“Vemos que há uma obrigação de os países desenvolvidos fazerem mais”, disse Boris Johnson, apontando que no caso do Reino Unido uma redução de emissões nos últimos anos foi acompanhada de um crescimento da economia.

Reino Unido destaca "crescimento e emprego"

Fora do eixo comunitário, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou que "crescimento e emprego" são as palavras-chave do "desafio político" do combate às alterações climáticas, rejeitando encará-lo como "um gesto dispendioso e politicamente correto de abraçar coelhinhos ou coisa do género".

Alemanha e França mantêm compromisso

A chanceler alemã, Ângela Merkel, assegurou que o seu país continuará a fazer "a parte que lhe compete" na luta contra o aquecimento global, enquanto o Presidente francês, Emmanuel Macron, pediu mais celeridade na aplicação do Acordo de Paris, bem como um sistema de regulação de emissões de carbono que seja "claro e mensurável".

Angela Merkel disse ainda que a Alemanha reduziu as suas emissões em 40% em relação a 1990 e espera, de acordo com o decidido a nível comunitário, chegar a 55% de redução em 2030. O objetivo final dos 27 países da União Europeia é chegarem a 2050 com emissões neutras.

Japão aumenta significativamente meta de redução de CO2 

O Japão aumentou o objetivo de redução das suas emissões de CO2 de 26% para 46% até 2030 em relação aos níveis de 2013, anunciou o primeiro-ministro, Yoshihide Suga.

Queremos baixar as nossas emissões de gás com efeito de estufa para 46% no ano fiscal de 2030 (que se inicia a 1 de abril), por comparação com o ano fiscal 2013”, declarou Suga numa reunião.

O Japão era em 2019 o quinto país entre os maiores emissores de CO2 no mundo, atrás da China, Estados Unidos, Índia e Rússia, segundo a plataforma ‘online’ Global CO2 Atlas.

O arquipélago nipónico continua muito dependente de energias fósseis (gás natural que importa liquefeito e carvão, nomeadamente), especialmente porque limita muito o recurso à energia nuclear desde a catástrofe de Fukushima em 2011.

Xi Jinping pede respeito por multilateralismo

O Presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que o combate às alterações climáticas deve seguir os princípios do "multilateralismo e do direito internacional" e que os países devem assumir "responsabilidades diferenciadas" conforme a sua prosperidade económica.

Xi Jinping afirmou que o seu país está "comprometido com o multilateralismo" e defende que o trabalho de combate às alterações climáticas se deve basear "no direito internacional" e a colaboração entre os países ser feita no âmbito das Nações Unidas, seguindo a sua convenção-quadro para as alterações climáticas e o Acordo de Paris dela decorrente, bem como os objetivos de desenvolvimento sustentável definidos para 2030.

Manifestou também o compromisso chinês com o princípio de "responsabilidade comum, mas diferenciada, com reconhecimento pleno da constribuição dos países em desenvolvimento, respeitando as suas dificuldades e preocupações específicas".

Os países desenvolvidos devem "aumentar as suas ambições climáticas e ajudar os países em desenvolvimento a acelerar as suas transições" para modelos económicos que não estejam assentes na exploração de combustíveis fósseis, acrescentou.

Putin "genuinamente interessado" na cooperação internacional

O Presidente russo, Vladimir Putin, manifestou esta quinta-feira apoio à luta mundial contra as alterações climáticas e apelou para uma cooperação internacional nesse sentido.

Putin disse que a Rússia está “genuinamente interessada” em galvanizar a cooperação internacional na busca de soluções eficazes no combate às alterações climáticas, mas também para outros desafios do planeta.

Guterres pede "coligação global" para alcançar emissões zero em 2050

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu que se forme "uma coligação global de países, regiões, cidades e empresas" que se comprometa com o objetivo de emissões carbónicas neutras até 2050.

Guterres afirmou ainda que o mundo está "à beira do abismo" por causa dos efeitos das alterações climáticas e que o passo certo inclui "uma coligação global por emissões zero até à metade do século que envolva "cada país, cada região, cada cidade, cada empresa e cada indústria".

Vaticano apela a "ambiente mais limpo e mais puro"

O chefe de Estado do Vaticano e líder da Igreja Católica, papa Francisco, apelou a todos para que sejam "zeladores da Natureza", salientando que no "desafio pós-pandemia" é "cada vez mais importante" garantir um "ambiente mais limpo e mais puro".

É cada vez mais importante devido ao desafio que enfrentamos no pós-pandemia. Precisamos de continuar a seguir em frente, porque não se sai de uma crise igual ao que se entrou, ou se sai melhor ou pior. Temos que garantir que temos um ambiente mais limpo, mais puro. Temos que o preservar, temos que cuidar da Natureza para que ela possa cuidar de nós", disse o Papa Francisco, concluindo a intervenção com votos de sucesso para a cimeira.

Ativistas apontam o dedo à classe política

Em contraciclo, a jovem ativista sueca Greta Thunberg acusou os líderes mundiais de ignorarem as alterações climáticas, avisando-os que serão julgados pelas próximas gerações.

Antes, uma outra jovem, Xyie Bastida, natural do México mas a viver nos Estados Unidos desde 2015, acusou os mesmos líderes de serem "ingénuos e irrealistas" nas ambições do combate ao aquecimento do planeta, assinalando que são eles que "criam e encontram maneiras de contornar as suas próprias legislações, resoluções, políticas e acordos".

Para o grupo de ativistas português Climáximo, as cimeiras do clima gastam mais recursos e energia em 'marketing' e estratégias de comunicação do que na criação de políticas públicas de combate às alterações climáticas, que exige urgência.

Em comunicado, a organização ambientalista internacional Greenpeace considerou que os "passos escassos" dos líderes mundiais em relação ao clima estão a conduzir o mundo "à catástrofe".

João Guerreiro Rodrigues / com Lusa