O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) decidiu que o Estado português deve indemnizar em 13 mil euros o pai de Tiago Santos, um dos jovens que foram arrastados do areal na praia do Meco durante uma praxe em 2013.  

José Carlos Soares Campos recorreu para as instâncias europeias depois de, em Portugal, o caso ter sido arquivado, por se considerar que não tinha havido crime. Além dos 13 mil euros, deverá receber ainda 7,118.51 euros por despesas relacionadas com o processo.

O tribunal considerou que a investigação não satisfez os requisitos referentes à proteção do direito à vida, sobretudo porque uma série de medidas urgentes podiam ter sido tomadas logo após a tragédia do Meco (em dezembro de 2013), na qual morreram seis estudantes da Universidade Lusófona, em Lisboa, que participavam numa cerimónia de praxe na praia.

Contudo, considerou que não havia vazio legal no que se refere às praxes uma vez que a legislação nacional continha já uma série de “disposições penais, civis e disciplinares destinadas a prevenir, suprimir e punir ofensas pôr em risco a vida das pessoas ou a sua integridade física ou psicológica”, notando aiinda que, efetivamente, não havia legislação específica para a praxe académica.

Atrasos na investigação questionados

A decisão foi divulgada esta terça-feira, considerando o tribunal europeu que "a casa onde as vítimas tinham ficado deveria ter sido protegida e o acesso barrado a todas as pessoas não ligadas à investigação, de forma a impedir interferência com as provas e a limpeza do apartamento". O tribunal assinala ter ficado particularmente perplexo pelo facto de tanto os familiares das vítimas como outras pessoas terem tido acesso sem restrições ao local.

O tribunal questiona ainda que a análise forense tenha acontecido apenas a 11 de fevereiro de 2014 - o corpo de Tiago Santos foi recuperado na manhã de 15 de dezembro de 2013. 

 

Assinala-se tambem na decisão do TEDH que as roupas e o computador do único sobrevivente deveriam ter sido imediatamente apreendidas e analisadas, o que só aconteceu a 7 de março de 2014. E a reconstituição do sucedido, que deveria ter sido feita logo que possivel, foi feita apenas a 14 de fevereiro daquele ano. 

O tribunal refere também que não há explicação para o facto de as autoridades não terem imediatamente recolhido depoimentos de todos os presentes nas imediações, incluindo vizinhos e responsáveis pela casa onde ficaram os estudantes. "Essas pessoas não deram testemunho até 8 e 10 de fevereiro, um mês e meio depois do sucedido". 

Assinala-se ainda que a investigação começou apenas "um mês depois" das mortes, altura em que foi aberto inquérito no Ministério Público de Almada. 

Advogado diz que ação é de todas as famílias

Em declarações à TVI24, o advogado das famílias dos jovens que morreram no Meco, Parente Ribeiro, sublinhou que o processo junto do TEDH foi intentado em nome de um dos pais mas em representação de todos os familiares das seis vítimas. "A ideia era demonstrar que estes pais não pretendem dinheiro, pretendiam justiça, porque o Ministério Público teve esta conduta", frisou. 

 

Para Parente Ribeiro, o acórdão do tribunal europeu vem "demonstrar que os pais têm razão, que a luta que travaram era uma luta com fundamento"

O advogado referiu ainda que, em termos penais, o processo "está morto", por ter sido condicionado pelo Ministério Público a terminar com o arquivamento, mas que decorre ainda uma ação civil, que visa a Universidade Lusófona e o único sobrevivente daquela noite, João Gouveia. Os pais pretendem assim provar, frisa Parente Ribeiro, que "os seus filhos morreram numa situação de praxe levada acabo por João Gouveia e com total conhecimento da Universidade Lusófona".

"O dinheiro não traz os nossos filhos de volta"

José Soares Campos, que intentou a ação no TEDH, lamenta ter sido obrigado a recorrer às instâncias europeias para que dessem razão às famílias. "Foi a maçonaria a funcionar ao mais alto nível", denunciou, garantindo que a investigação do Ministério Público foi condicionada "em defesa da universidade".

"Os portugueses não conhecem bem o processo e, felizmente, alguém independente deu-nos razão", sublinhou em declarações à TVI24.

As provas que nós tínhamos diziam tudo, todas as provas apresentadas eram credíveis, foi o Ministério Público que desfez essas provas todas", acrescentou. 

 

José Campos disse ainda que "o processo é de todos os pais" e que o destino do dinheiro da indemnização será decidido de forma conjunta. "O dinheiro não traz os nossos filhos de volta", rematou.

/ BC