O Conselho das Escolas Médicas Portuguesas (CEMP) pede ao primeiro-ministro mais medidas restritivas do contacto social no combate à Covid-19, por temer que os serviços de saúde não consigam dar resposta a todos os casos positivos de infeção pelo novo coronavírus.

Numa carta aberta dirigida a António Costa, com data de sexta-feira, e à qual a TVI teve acesso, os diretores das faculdades e escolas de Medicina do país criticam, ainda, o Conselho Nacional de Saúde Pública, por não ter recomendado, desde logo, o encerramento de espaços públicos e privados como forma de contenção primária da doença.

Apesar de ser bem conhecida a capacidade técnica e de resiliência dos profissionais e serviços de saúde portugueses, não será possível – como não o será em qualquer país – responder de forma minimamente adequada se não forem já tomadas fortes medidas de redução do contacto social. Em nossa opinião, esta não é a altura de deixar questões ideológicas ou receios relativos ao inevitável impacto económico condicionar as decisões em tempo útil", pode ler-se no documento.

O CEMP pede, por isso, ao chefe do Governo que "implemente já e de forma efetiva as práticas restritivas que tão bons resultados deram em contextos adversos como os da China, Macau e Coreia do Sul".

O Conselho das Escolas Médicas alerta, ainda, que, "dado o longo período de incubação da doença, o número de casos detetados hoje reflete a situação de há semanas atrás".

De igual modo, as medidas que tomarmos hoje não terão impacto no imediato, pelo que urge que se passe a atuar preventivamente ao invés de apenas o fazermos reativamente!", defende o CEMP, manifestando-se "inteiramente disponível para vir a dar o seu contributo".

O Conselho lembra, por exemplo, o caso da China que, "ao proibir a circulação entre cidades/províncias, encerrar cidades afetadas, e implementar restrições apertadas de contactos sociais, evitou uma incidência 67 vezes maior de Covid-19, sendo que teria registado menos 66% dos casos se tivesse agido uma semana mais cedo".

Por tudo isto, lamenta também que o Conselho Nacional de Saúde Pública, na sua reunião de dia 11, se tenha "limitado a remeter as decisões para as autoridades de saúde, não propondo nenhuma recomendação restritiva em concreto, nomeadamente, no que respeita a encerramento de espaços públicos e privados".

Nesse sentido, compete-nos manifestar a nossa preocupação relativamente à capacidade técnica de o Conselho Nacional de Saúde Pública lidar com este problema. (...) Tal deixa dúvidas na sua competência para lidar na prática com uma situação destas, sendo que esta eventual falta de competência poderá ainda explicar a sua manifesta incapacidade de decisão", consta na carta.

A carta aberta é assinada por Altamiro da Costa Pereira, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; Carlos Robalo Cordeiro, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Henrique Cyrne Carvalho, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar; Isabel Palmeirim, presidente do Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina da Universidade do Algarve; Jaime Branco, diretor da Nova Medical School - FCM da Universidade Nova de Lisboa; Miguel Castelo Branco, presidente da Faculdade de Ciências da Saúde da UBI; Nuno Sousa, diretor da Escola de Medicina da Universidade do Minho; Fausto J. Pinto, presidente do CEMP e diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

A Direção-Geral da Saúde anunciou, nesta segunda-feira, a primeira morte por Covid-19 em Portugal, numa altura em que há 331 infetados

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