A pílula anticoncecional já é utilizada há cerca de 60 anos, mas continua envolta em mitos e dúvidas. Desde o ganho de peso ao aumento do risco de cancro e passando por uma maior propensão para a depressão, são muitas as ideias que se formaram à volta do contracetivo. Mas será que correspondem à verdade? Saiba a resposta às perguntas mais comuns sobre este tema.

A pílula afeta o humor?

O aumento do risco de depressão é uma das consequências associadas à toma da pílula. E a verdade é que há estudos que indicam nesse sentido. Segundo o The Guardian, dois estudos da Universidade de Copenhaga, publicados recentemente na revista científica Jama Psychiatry, demostraram que as mulheres que tomam a pílula têm mais 23% de probabilidade de sofrerem de depressão.

Além disso, as pesquisas revelaram que, para as pessoas que tomam qualquer tipo de contracetivo hormonal, o risco de suicídio é três vezes maior. No caso específico dos adolescentes, os resultados são ainda mais preocupantes: o risco de diagnóstico de depressão aumenta em 80% e o risco de suicídio duplica após apenas um ano de uso. Estes dados ainda não foram incluídos nas práticas médicas, mas os cientistas responsáveis pelos estudos defendem que as mulheres devem ser alertadas sobre a possibilidade de ocorrência destes efeitos colaterais.

A pílula engorda?

A relação entre alguns contracetivos hormonais, como a injeção contracetiva, e o aumento de peso está comprovada. Mas, no caso da pílula, os estudos não são conclusivos. De acordo com a análise da Cochrane, uma organização britânica responsável pela revisão de estudos médicos, as evidências de uma relação entre a toma da pílula e o aumento de peso são de baixa qualidade. A organização examinou 22 estudos sobre o tema e concluiu que o ganho de peso médio, depois de seis a 12 meses de toma da pílula, foi inferior a dois quilos, na maioria das pequisas, o que é pouco relevante.

Contudo, a pílula pode levar a um ganho de peso de forma indireta. Isto é, as mulheres que optam por este método contracetivo têm um risco maior de sofrerem de depressão, o que pode levar a um ganho de peso, causado ou pela medicação, como antidepressivos, ou por um aumento do apetite. 

A pílula aumenta o risco de cancro?

A resposta a esta pergunta varia de acordo com o tipo de cancro. De acordo com o The Guardian, Jolene Brighten, uma médica especialista em contraceção, afirma no seu livro  "Beyond the pill" ("Além da pílula") que o risco de cancro da mama, do colo do útero, do fígado e do cérebro aumenta com a pílula. Já a incidência de cancro do útero, do endométrio e dos ovários é menor em mulheres que tomam a pílula. Ainda assim, para a médica, há maneiras mais benéficas e com menos efeitos colaterais para prevenir este tipo de cancros do que a pílula.

No que diz respeito a trabalhos científicos, a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos reviu 28 estudos feitos sobre esta matéria e concluiu que, para mulheres que usam a pílula por uma década ou mais, o risco de cancro do colo do útero duplica. Além disso, um estudo financiado pela empresa farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk e publicado no The New England Journal of Medicine, que acompanhou, durante mais de 10 anos, 1,8 milhão de mulheres, concluiu que o risco de cancro da mama é maior nas mulheres que usam contracetivos hormonais do que entre mulheres que nunca usaram.

A pílula aumenta o risco de coágulos sanguíneos?

Os dispositivos contracetivos feitos com materiais sintéticos, como o anel vaginal, provocam um risco maior de coágulos sanguíneos, que podem levar a complicações graves ou até fatais, do que os contracetivos orais mais antigos, como a pílula.

Contudo, este método contracetivo também pode complicar as coisas. De acordo com o The Guardian, o risco de morte devido a coágulos sanguíneos é de um em 12.000 para as mulheres que tomam a pílula, comparado com um em 50.000 para as que não tomam. No caso de mulheres que estão acima do peso recomendado, fumam ou têm mais de 35 anos e, ao mesmo tempo, tomam a pílula, o risco aumenta.

A pílula afeta a fertilidade?

A pílula é um método contracetivo reversível e, por isso, pensa-se que a fertilidade é retomada rapidamente depois da toma ser interrompida. No entanto, há algumas muilheres que têm dificuldade em engravidar depois de terem tomado a pílula durante vários anos. Segundo o The Guardian, no livro "Period Power" ("O Poder do Período"), a autora Masie Hill escreve que as mulheres que usam a pílula têm um redução do volume dos ovários e uma diminuição da produção de AMH, uma hormona que permite avaliar a fertilidade. Por isso, pode demorar algum tempo até os ovários voltarem à sua função.

Além disso, a mesma autora refere que há uma relação entre o uso prolongado da pílula e a criação de um fino revestimento do útero, o que inibe a capacidade de conceber. Depois de interrompida a pílula, o útero pode também demorar algum tempo a voltar ao normal.