O diretor do Serviço de Cirurgia Geral e Transplantação do Hospital Curry Cabral, Américo Martins, demitiu-se na quarta-feira por ter visto impedida a proposta de reorganização do serviço na unidade, disse à Lusa fonte do hospital.

O Conselho de Administração não aceitou a criação de dois circuitos independentes” no Curry Cabral para manter, como propunham os médicos, os serviços destinados aos doentes oncológicos e transplantados no Curry Cabral, adiantou a fonte.

Horas mais tarde, Américo Martins disse à Lusa que o Conselho de Administração deve aceitar o plano de reorganização que os médicos apresentaram.

"Tem de haver um recuo por parte da Administração até pela dimensão do apoio que estamos a ter: os doentes transplantados já fizeram uma petição ao Presidente da República e ao Governo e a nível interno os cirurgiões estão todos unidos contra o Conselho de Administração. Só têm uma alternativa, têm de recuar", afirmou o cirurgião, sublinhando total incompreensão sobre a posição do conselho.

"Ou é incompetência ou não sei classificar, talvez estejam a levar à letra o que o Governo, ou pelo menos o que o Ministério da Saúde defendeu no mês passado sobre fazerem do Curry Cabral um hospital covid. Agora, até acho que já nem é necessário fazer isso e, por isso, criámos um plano alternativo e independente sem covid", disse alertando que há outros doentes que precisam de ajuda urgente.

"Nós só operamos doentes oncológicos prioritários e transplantação e queríamos criar um espaço totalmente independente para continuarmos a nossa atividade - em termos mais reduzidos - mas a continuarmos a operar todos aqueles doentes que correm perigo de vida e que têm de ser operados", sublinhou o diretor.

"Eu demiti-me ontem porque o Conselho de Administração quer levar para a frente um plano que inviabiliza a criação de um circuito totalmente independente aqui no Curry Cabral e não querem recuar e se não recuam não é possível criar um circuito alternativo e independente, para os doentes que não são covid", disse à Lusa Américo Martins frisando que a mudança poderia ser feita sem custos e em pouco tempo.

"Em três horas seria executado esse plano alternativo. Basta fechar uma porta e mudar o centro de diagnóstico covid para um espaço que está vazio ao lado da infecciologia. Em três horas faz-se essa mudança sem qualquer custo", referiu acrescentando que a administração deveria mudar de posição.

Na semana passada, o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central esclareceu que a transferência do transplante hepático do hospital Curry Cabral para Santa Marta decorre da necessidade de garantir aos doentes “a máxima segurança” durante a pandemia covid-19.

O Santa Marta será "um hospital livre de covid-19, de forma a nele concentrar os doentes, que, como os transplantados, exigem cuidados especiais”, afirmava o CHULC num esclarecimento enviado à agência Lusa.

A transferência do transplante hepático nesta fase decorre da necessidade de garantir aos doentes a máxima segurança”, sublinhava.

Na segunda-feira, o Grupo de Transplantados do Hospital Curry Cabral tinha lançado uma petição pública apelando à manutenção dos serviços destinados aos doentes transplantados e oncológicos por recearem estar perante risco de vida.

Os recursos humanos e tecnológicos do Centro de Transplante do Hospital Curry Cabral têm de ser preservados e mantidos de forma integrada, porque há muitas vidas a salvar, em paralelo com as das vítimas desta pandemia (covid-19)", refere o texto da petição, que tem como destinatários o Presidente da República, o primeiro-ministro, a ministra da Saúde, a diretora da Direção-Geral da Saúde e a administração do CHULC.

Curry Cabral admite cancelar transferência do serviço de transplantes

O Hospital Curry Cabral, em Lisboa, admitiu cancelar a transferência dos serviços de transplante hepático, devido ao abrandamento da evolução da covid-19, e diz não ter recebido o pedido de demissão do diretor daquele serviço.

“A covid-19 está a ter uma evolução lenta e controlada, bastante mais lenta e controlada do que se estava a imaginar há uma semana, o que significa dizer que a necessidade de transferência de serviços pode, inclusivamente, não se verificar”, disse à Lusa fonte oficial do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC).

A administração do CHULC afirma ainda não ter “conhecimento oficial de qualquer pedido de demissão por parte do Dr. Américo Martins”.

Sobre a transferência do Centro Hepatobiliopancreático e de Transplante (CHBPT) do Hospital Curry Cabral para Santa Marta, é uma “possibilidade sempre presente”, admitiu, explicando que não se pode “permitir que os doente de covid se misturem com os doentes de transplante”.

Lembrando que os cuidados intensivos do Curry Cabral ficam situados numa única área, a administração frisa que “não pode acontecer, não se pode permitir, que haja qualquer possibilidade de contágio de doentes de covid com doentes transplantados, pois isso seria um desastre completo”.

Neste momento, nos cuidados intensivos, ainda há a possibilidade de separar os doentes de covid-19 dos transplantados, “mas em todo o caso estamos a falar do mesmo piso”, salienta.

“Foi por esse motivo que se resolveu pôr a hipótese e começámos a avançar com a transferência dos serviços temporariamente para Santa Marta, onde há transplante do coração, transplante de pulmões, há uma quantidade de tecnologia que ali já está e que, portanto, se adapta. Aliás, foi criado um novo bloco, especialmente para receber esses doentes do foro hepatobiliopancreático, e tudo isso está a andar”, disse, sublinhando: “Simplesmente parece que a rapidez com que se imaginava que isso pudesse acontecer não se está a verificar e portanto, para já, os doentes do centro hepático e pancreático vai continuar no Curry”.

Perante isto, o CHULC afirma não haver “grande razão” para o diretor de serviço se demitir.

Serviços só saem do Curry Cabral se for preciso

O secretário de Estado da Saúde garantiu hoje que a saída de serviços do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, por causa da pandemia da covid-19, só acontecerá “de acordo com a evolução do surto e se vier a ser necessário”.

“Se, obviamente, não vier a ser necessário, manteremos, como é óbvio, os serviços nos respetivos locais onde estão atualmente”, afirmou António Lacerda Sales na conferência de imprensa diária para acompanhamento da pandemia.

Lacerda Sales não se pronunciou sobre a demissão do diretor do serviço de Cirurgia Geral e Transplantação, mas adiantou que o plano de reação do Curry Cabral à pandemia “é feito no tempo e de acordo com evolução do próprio surto”.

“Obviamente que tem vários níveis. Penso que estaremos pelo nível dois desse plano e por isso, nesta fase ainda não se põe nenhuma questão de que outros serviços sejam transferidos para quaisquer outros hospitais”, declarou.

O secretário de Estado da Saúde indicou que “ainda esta noite foi feito um transplante no hospital” e que há “zonas perfeitamente bem diferenciadas” para doentes com covid-19 e outros doentes.

“Outros serviços mantêm a sua atividade, como é, por exemplo, o caso de serviços de cirurgia”, acrescentou.

Portugal regista hoje 409 mortos associados à pandemia de Covid-19, mais 29 do que na quarta-feira, e 13.956 infetados (mais 815), segundo o boletim epidemiológico divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

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